Ascânio Rubi

Ascânio Rubi é um trabalhador autodidata, que gosta de ler e de pensar. Os amigos me dizem que sou fisicamente parecido com certo “velho barbudo” de quem tomo emprestada a foto ao lado.

"Velhofobia"

“Velhofobia”: um crime do capitalismo

Os novos velhos são os novos excluídos do mundo do trabalho.

O episódio das mocinhas de uma universidade particular que ridicularizaram uma colega de turma de 44 anos por sua idade – segundo elas, muito avançada para o ambiente – provocou grande frenesi nas redes sociais. Para variar nem um pouco, a discussão caiu na criminalização por discurso de ódio ou coisa do gênero. É preciso punir essas diabinhas e “acolher” a neoidosa, respeitar a diversidade etária etc.

É óbvio que o que as moçoilas fizeram não é bonito nem moralmente correto e parece comprovar que elas não passam de umas desmioladas que mal sabem o que estão fazendo em uma universidade. Daí a acionar o estado para puni-las exemplarmente, no entanto, vai alguma distância.

Aparentemente se busca acionar o antigo Estatuto do Idoso (aprovado em 2003, no governo Lula), que, em 2022 (sob o governo Bolsonaro), foi alterado pela lei nº 14.423 “para substituir, em toda a Lei, as expressões ‘idoso’ e ‘idosos’ pelas expressões ‘pessoa idosa’ e ‘pessoas idosas’, respectivamente”. Em seu artigo 105, o Estatuto da Pessoa Idosa determina pena de detenção de um a três anos e multa a quem “exibir ou veicular, por qualquer meio de comunicação, informações ou imagens depreciativas ou injuriosas à pessoa idosa”.

Idoso – ou “pessoa idosa” –, no entanto, é o ser humano que tem, no mínimo 60 anos de idade, o qual, é bom lembrar, embora seja uma “pessoa idosa”, não tem direito à aposentadoria por idade desde a Reforma da Previdência aprovada em 2019. Para ter o referido direito, a idade mínima passou a 62 anos (mulheres) e a 65 (homens). Espera-se, portanto, que essas pessoas tenham onde trabalhar para sobreviver, o que é um dado concreto da realidade, não abrangido pelo Estatuto.

Ora, a estudante considerada velha para estar cursando a universidade tem apenas 44 anos, estando, portanto, bem longe daquilo que se convencionou chamar de “pessoa idosa”. Mesmo assim, a defesa da mulher na imprensa aciona o termo “velhofobia”, que seria o crime em que teriam incorrido as imprudentes mocinhas. Em suma, estão todos de acordo com a ideia de que uma pessoa de 44 anos é velha (ou “pessoa idosa”) e que, por uma espécie de dever moral, deveria ser respeitada pelas demais, mesmo sendo velha. Não faltaram reportagens sobre a história da mulher, que não teve condições financeiras de estudar mais cedo e que, por isso, chegou tardiamente aos bancos da universidade.

Importa discutir, para além disso, o motivo pelo qual uma pessoa de 40 anos é considerada velha na sociedade. Não precisamos ir muito longe para entender que os novos velhos são os novos excluídos do mundo do trabalho. Com a desculpa de que são ultrapassados ou de que não se adaptaram ao novo vocabulário das redes sociais ou às regras de etiqueta do identitarismo ou de que desconhecem os benefícios da gameficação da educação, seres humanos são, cada vez mais cedo, tachados de velhos.

Velho, assim, é uma categoria do mundo do trabalho, que dá o sinal verde para a exclusão. As grandes empresas, que parecem muito preocupadas com outras inclusões (de “raça” e “gênero”, por exemplo), precisam excluir de alguma forma porque o capitalismo funciona assim. Capitalismo com inclusão é história da carochinha. Sempre haverá uma desculpa para excluir. Paradoxalmente, o aumento da expectativa de vida empurra a velhice propriamente dita para mais adiante (e isso justifica o aumento da idade mínima da aposentadoria, por exemplo) ao mesmo tempo que abrevia a vida útil das pessoas no mercado. É fácil perceber que essa conta não fecha.

A conta não fecha, por isso é preciso discutir o sistema capitalista em si e seu esgotamento iminente. Essa questão, no entanto, está fora da pauta até de boa parte da esquerda, que tirou do próprio horizonte o socialismo, aceitando como prêmio de consolação a “revolução identitária”, que se apoia em “bonitas ideias” e num estado cada vez mais repressor para impô-las ao conjunto da sociedade.

Quanto mais “crimes” puníveis, mais justificativas para excluir e segregar, sendo essa tarefa delegada às instituições burguesas, que estão a serviço da classe que controla o capital. Mais que punir as jovens com a desculpa de compensar de algum modo a “pessoa idosa” de 44 anos, vítima de violência psicológica, seria necessário transformar a sociedade.

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