Entrevista

Sem salário, operários exigem estatização da Avibras

Em entrevista, presidente do Sind. dos Metalúrgicos denunciou a tentativa de se vender para o capital estrangeiro a principal empresa de defesa.

Weller Gonçalves, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, concedeu uma entrevista a este Diário. Nela, o companheiro falou do movimento dos trabalhadores na empresa Avibras, localizada em Jacareí, Vale do Paraíba. Com 1400 funcionários e fundada há 60 anos, é a mais importante empresa brasileira do ramo de defesa.

O companheiro denunciou a difícil situação pela qual os trabalhadores passam, há mais de 6 meses sem receber salários. Além disso, comentou sobre a tentativa dos donos da empresa de vendê-la para o capital estrangeiro, o que seria um duro ataque à soberania nacional.

Como resposta, os funcionários estão em greve e fazem piquetes exigindo a estatização da Avibras e que esta fique sob o controle dos próprios trabalhadores.

DCO: Qual que é exatamente a situação da empresa?

Weller: Bom, sobre a Avibras são duas questões. Hoje, ela está em greve por tempo indeterminado, desde setembro, devido à falta de pagamento. Mas o processo de luta dos trabalhadores da Avibras já completou um ano. Dia 18 de março, a empresa tinha demitido 420 trabalhadores, ou seja, um terço; ela entrou em recuperação judicial, e a gente iniciou um movimento grevista por 40 dias e conseguimos reverter e as demissões foram canceladas. Começou um atraso no pagamento dos salários e, desde setembro, os trabalhadores estão de braços cruzados.

A empresa divulgou que está vendendo ou parte, ou toda a empresa. Foi noticiado que existem empresas da Alemanha e dos Emirados Árabes interessadas em comprá-la. A gente já tinha colocado como centro a defesa da estatização, porque é a terceira vez que a Avibras entra em recuperação judicial e é esse rolo todo para os trabalhadores. Agora, com o risco de compra, estamos intensificando a campanha. Então, tem um movimento que é a luta para os trabalhadores receberem seu salário e, junto a isso, em defesa da estatização da empresa e contra sua venda.

DCO: E por que a Avibras está em recuperação judicial?

Weller: A empresa alega que tem cerca de 600 milhões de dívidas que não consegue pagar. E, com a recuperação judicial, apresenta um plano para pagar parcelado ou mesmo não pagar uma parte. É a terceira vez que entra em recuperação.

DCO: A primeira vez faz muito tempo?

Weller: A primeira vez foi em 1990. A última vez foi em 2012, há 10 anos, e agora novamente.

DCO: De onde vieram essas dívidas?

Weller: A empresa alega que, por conta da pandemia de 2020 e do fato de ela produzir mísseis e foguetes, que só podem fechar o acordo presencialmente, isso prejudicou os negócios. Ela alega centralmente que foi por conta da pandemia que atrapalhou os negócios. Mas o que a gente debate também é que isso é fruto de um desequilíbrio do próprio sistema capitalista, porque 80% do que ela produz vai para o Oriente Médio; o que o Exército Brasileiro compra é bem pouco. Aí, a maioria do que o Exército tem, ele compra de fora – o que não faz sentido, visto que tem uma empresa que produz aqui. Outro tema que a gente explora é que, no final do ano passado, ainda no governo Bolsonaro, que o Exército comprou 98 veículos blindados de uma empresa do Consórcio italiano. Isso custou cerca de 5 bilhões de reais; mas a Avibras produz veículos blindados. E esse valor garante a operação do consórcio italiano por 7 anos. O que é um absurdo, por que não comprar da empresa brasileira?

DCO: Por que o Exército compra de fora e não da Avibras?

Weller: O que eles falam é que fizeram um levantamento e a empresa que apresentava o melhor custo-benefício era essa de fora. Inclusive, teve uma liminar impedindo a compra de fora, mas ela caiu depois, a gente sabe como funciona a justiça. Mas uma das liminares falava o seguinte: o Brasil não está em guerra, por que investir em 98 veículos blindados?

DCO: A Avibras é uma das principais fabricantes desses equipamentos?

Weller: No Brasil, é a principal indústria de defesa. Você tem a Enel, mas fabrica pistola, fuzil, mas quem fabrica armamento pesado no Brasil é a Avibras – fabrica míssil, foguete, veículo blindado, lançadores de míssil, como a Astros 2020. Então, é a principal empresa do setor de defesa do Brasil. E as pessoas perguntam: a Avibras era estatal e foi privatizada? Não, sempre foi privada, 100% privada.

DCO: E no âmbito do mercado internacional? Ela consegue competir com as grandes empresas? Qual o mercado dela?

Weller: É principalmente Oriente Médio. Catar, Arábia Saudita, Malásia, Mali. Sempre foram as principais vendas.

DCO: E existe uma competição com grandes empresas?

Weller: Principalmente o Astros 2020. Mas é aquilo, os EUA, Rússia, China, Europa têm suas empresas no setor de defesa e o comandante Robson até coloca: entre estatizar e vender, melhor estatizar, mas esses países jamais deixariam vender a empresa para fora. No mínimo, fazem um contrato com ela para nunca deixar vender. Com as empresas desses países, elas têm seus produtos, e o Estado compra para não deixar falir.

DCO: Você acha que pode ter algum lobby dessas grandes empresas internacionais para pegar o mercado da Avibras para eles?

Weller: Sim. Nós achamos que isso tudo tem a ver com o imperialismo. Eles querem fazer essa rapina nos países atrasados, e fazem no Brasil e em toda América Latina. Tem a ver com o papel do país na divisão internacional do trabalho: se for para fabricar pistola, como fabrica a Imbel, tudo bem. Mas, se for para fabricar armamento pesado, não – ainda mais depois da guerra da Rússia. Eles querem ter, sim, o controle de tudo isso. Essa empresa da Alemanha, se comprar a Avibras, está de olho na tecnologia para mandar para seu país de origem. O mesmo com a empresa dos Emirados Árabes. E essa é a contradição que a gente coloca: estávamos em uma reunião com o prefeito de Jacareí, ele falou “cara, nunca paramos para pensar, mas o Estado não tem controle nenhum sobre a empresa. E se ela decide tacar o foguete na gente?”. É o pensamento para desenvolver a indústria de defesa para a soberania, para quem tem um pensamento nacionalista que seja. Era minimamente para os governos se preocuparem – “temos que ter, no mínimo, um controle sobre o que está tendo”. 

DCO: Na avaliação do sindicato, qual que é a verdadeira razão pela qual o Exército nunca comprou a maior parte do que é produzido pela Avibras?

Weller: Olha, é muito estranha toda essa situação. Nós já tivemos a Engesa, que produzia os tanques aqui em São José, e era mesma situação. Vendi principalmente para o Iraque na década de 90, mas, quando eles investiram na própria indústria, a Engesa quebrou. E tem gente que até compara com a Avibras. Então, a avaliação que fazemos é que o governo está aceitando ser colônia do imperialismo. Porque a Avibras divulgou que o Governo Federal acompanha de perto essas negociações; nós achamos que é um crime. Se o governo está vendo, não deveria deixar vender, não ajudar.

Agora, o Brasil está virando um verdadeiro fazendão. Vimos o fechamento da Ford, o fechamento da LG, quase que a Embraer foi vendida para a Boeing, e, se a gente for depender apenas de exportar minério de ferro, soja e carne de porco, isso não sustenta um país como o nosso. 

O governo sabe de tudo isso, sabe que os trabalhadores estão há 6 meses sem salário, mas não tem pulso firme para resolver isso. Sobre a estatização da Avibras, que muita gente vê como uma utopia, é um tema até simples para eu explicar em um minuto: o governo tem orçado para o setor de defesa mais de 124 bilhões. O valor da Avibras, no processo de recuperação judicial, é de 2 bilhões. Então seria muito simples e muito fácil. Mas por que não faz? Acho que tem a ver com o domínio do imperialismo.

DCO: E quais são as ações práticas que os trabalhadores da Avibras estão fazendo nesse sentido?

Weller: Olha, existe o movimento da greve. Então tem um piquete na porta da fábrica 24 horas, tem a vigília dos trabalhadores. Nós estamos fazendo assembleias praticamente todas as semanas, ontem teve assembleia, estamos intensificando a campanha, entregando panfleto, colocando outdoors, fazendo um diálogo com a população. Teve um protesto de um ano dessa situação, em que levamos um bolo para cantar parabéns por um ano de luta. Tem o envolvimento da família dos metalúrgicos, que achamos sensacional, passa até um filme de como era o movimento na década de 80. Seis meses sem salário, o cara leva o filho pequeno, porque está faltando leite e leva até a esposa para o piquete. Então está tendo atividades quase todo dia, e o sindicato está elevando o tom na defesa da estatização da empresa sob o controle dos trabalhadores.

DCO: Vocês chegaram a ocupar a fábrica?

Weller: Não. Não chegou a ter ocupação, mas somente o piquete do lado de fora e a vigíliia 24 horas, feita principalmente pelos trabalhadores, além dos diretores do sindicato.

DCO: Você acha que existe a possibilidade de ocupar a fábrica caso a luta se intensifique?

Weller: Olha, isso não está descartado. Todas as decisões que a gente toma é em assembleia com os trabalhadores. Por várias vezes discutimos esse tema, mas não tem nada encaminhado. Não tem nada encaminhado, mas também não tem nada descartado. Estamos fazendo a pressão popular, como eu falei, mas é uma das táticas que podemos adotar.

DCO: Imagino que, nesse início, só os metalúrgicos e o pessoal do sindicato faça parte ainda. Como integrar o movimento operário todo na luta da Avibras?

Weller: De fato, não é uma luta só do pessoal daqui do Vale do Paraíba. A luta pela soberania é um debate nacional, apesar de que o pessoal daqui sofra de maneira mais imediata com o salário e com a economia local. Recentemente, entrou uma companheira do Rio querendo chamar um ato lá, eu falei para chamar; em Campinas, também. Acho que é essa a pressão popular que a gente tem que ter; aqui na região, o movimento sindical e as organizações de esquerda tem sido bastante solidários. Ano passado, fizemos uma caravana para Brasília, e o sindicato dos químicos e as organizações de esquerda participaram. Mas é importante que, no primeiro de maio, todo mundo cobre e se posicione pela estatização para impedirmos a venda – e fazemos esse chamado para seja lá quem for. Quem quiser participar, é muito bem-vindo.

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