Política ou autoajuda?

Tarso Genro pinta um Boric que não existe.

Tarso Genro acredita que Gabriel Boric, um opositor da Venezuela, Nicarágua e Cuba, poderá bloquear o fascismo e alargar a democracia politica.

Boric o santo

Tarso Genro publica matéria “A trincheira da democracia política”, e sem explicar como,coloca Gabriel Boric, presidente do Chile, como possível esperança democrática.

O olho da matéria diz que “Gabriel Boric enfrenta a primeira grande crise política e de gestão do Estado, pela esquerda, na América do Sul”. Isso, porém, ocorre após o presidente chileno ter cumprido o papel de supressor das tendências radicais no Chile.

O governo de extrema-direita chileno, Sebastián Piñera, vinha sofrendo enormes pressões nas ruas. O país estava conflagrado, à beira de uma guerra-civil; mas, com anuência da esquerda, manobraram para aprovar uma constituinte para ‘acalmar os ânimos’ das ruas.

Já havíamos alertado que o modo como estava sendo feito o processo, ainda sob o governo Piñera, que a constituinte acabaria sendo controlada pela direita.

Gabriel Boric, após uma manobra, acabou sendo indicado para concorrer à presidência. Sua campanha foi marcada pela demagogia identitária. Colocando mulheres em postos-chave e discursando em mapuche na sua posse. Na primeira oportunidade, no entanto, tratou de reprimir os Mapuche violentamente.

Boric não se mexeu para libertar os presos políticos no Chile, são as pessoas que saíram às ruas para enfrentar a extrema-direita. Por isso, o presidente não é esse “Órfão abandonado pela metade dos eleitores que lhe levaram ao Palácio de La Moneda com 56% dos votos”. Foi ele que abandonou seus eleitores, ou melhor, foi ele que enganou seus eleitores.

Tarso Genro brinca, pois diz que Boric “reside na rua Huérfanos [Órfãos], situada entre as ruas Libertad e Esperanza”. E faz alusão à Liberdade, pois este seria “um candidato de libertação das amarrações fascistas do poder de Augusto Pinochet, para abrir a “Esperanza” num novo Chile, no qual os desejos de cada e de todos se realizem muito além das possibilidades visíveis colocadas pelo mundo real”.

Genro se equivoca porque Gabriel Boric nunca foi esse candidato. Isso já ficou demonstrado desde o início, a despeito da euforia que sua eleição despertou em determinados setores da esquerda latina.

O primeiro ato de Boric como presidente foi vestir sua roupa de ir à missa e telefonar para Joe Biden, presidente dos Estados Unidos, para uma conversa, como o chileno fez questão de postar em sua conta no Twitter.

Como poderíamos esperar a ‘libertação das amarrações fascistas’ se quem lutou contra os fascistas não obteve seu perdão presidencial?

O trecho do “novo Chile, no qual os desejos de cada e de todos se realizem muito além…” deixaremos para as pessoas que, mesmo aposentadas, precisam trabalhar até idades muito avançadas para não morrerem de fome.

Conforme Tarso Genro, “O Presidente Gabriel Boric enfrenta hoje a primeira grande crise política e de gestão do Estado, pela esquerda, na América do Sul. Depois da crise sistêmica dos partidos de esquerda que ocorreu em escala global, Gabriel Boric solitariamente foi a bola da vez aqui na América do Sul”. Como assim, ‘bola da vez’? Boric cumpriu à risca tudo o que ordenaram que fizesse. Tratou a Venezuela como ditadura, criticou a Nicarágua, criticou Cuba.

Genro diz que aqui, na América do Sul, é “onde as derrotas já ocorridas em diferentes processos eleitorais no mundo inteiro, foram despejadas contra a juventude chilena insurgente”. Exatamente. Gabriel Boric, que surgiu no movimento estudantil, representou uma derrota para a juventude chilena insurgente. Ele foi eleito para isso, para ser um freio nas mobilizações, na insurgência.

Desculpas

Um dos truques de Tarso Genro é dizer que no mundo inteiro está assim, que a “esquerda tradicional, ou entregou os anéis para não perder os dedos, ou entregou o poder com humilhação” , o que não exime Boric nem ninguém de agir assim. E não adianta também dizer que a extrema-direita é um fenômeno novo, uma ‘emergência’, pois, como todo processo político, não surgiu da noite para o dia. Por isso, não cabe dizer que os partidos de esquerda “estarem preparados para enfrentar as novas formas da luta de pelo poder”. Se a extrema-direita se fortaleceu, foi justamente porque boa parte da esquerda recuou, abandonou suas lutas históricas em nome das “pautas identitárias”, o jogo que Boric jogou.

Após dizer de forma velada que não existe mais a classe operária, Tarso Genro faz uma divagação sobre as utopias e revoluções do passado que servem de inspiração e dão coesão à esquerda na América do Sul.

“A trincheira da democracia política, da defesa dos direitos humanos e dos direitos fundamentais”. Se puxarmos os fatos, a política de ‘defesa dos direitos humanos’ foi amplamente utilizada pelo governo Jimmy Carter para tirar da frente as ditaduras militares que eles mesmos colocaram no poder que haviam se tornado um empecilho à dominação imperialista.

Para o autor do artigo, “a vitória do campo popular e libertário no Chile foi uma grande conquista inicial e o Presidente Gabriel Boric é um grande líder político”. Mas temos de dizer que não foi uma grande conquista, a falta de aprovação popular do governo é uma prova disso. Resta a Genro explicar o que seria esse ‘grande líder político’, que age sob ordens de Washington.

Fênix

“Gabriel Boric ainda pode se recuperar se compreender que precisa se reinventar”, é o que afirma Tarso Genro, mas para isso precisa se “reinventar”. Fora isso, o ‘campo emancipatório e democrático’ precisa “seu projeto de uma nova esquerda, com ideias voltadas para o governo e não somente para anarquia dura e alegre do protesto”.

Essa parte da ‘anarquia dura e alegre do protesto’ é especialmente intrigante para quem pôde ver imagens dos protestos nas ruas chilenas, no enfrentamento de uma polícia com carta branca para cegar e mutilar manifestantes.

O autor do artigo precisa explicar de onde viria essa ‘recuperação’, essa ‘compreensão’ e ‘reinvenção’ de Gabriel Boric, afinal, estamos falando de política, de choque de classes, não de autoajuda.

Tarso Genro diz que “supunha-se que ele [Boric] formasse ali um governo de coalizão democrática para tirar daquela vitória brilhante a aplicação de um programa de coesão social e nacional – de afirmação dos direitos humanos e da soberania popular – para enfrentar o assalto do pinochetismo ao poder, desta feita pelas urnas”. Não de nossa parte, que desde o início alertamos de que se tratava de um governo alinhado com o imperialismo, pelo que fomos atacados, mas o tempo tratou de demonstrar que estávamos corretos.

No final, após mostrar o fiasco que é o governo chileno, Tarso Genro diz que “existe a possibilidade de compor uma ampla aliança social e política, de classes e fragmentos, para bloquear o fascismo e alargar a democracia política”, e que “só uma pessoa pode comandar este processo, que exige muita ousadia, sinceridade e independência de espírito: é o jovem Presidente Gabriel Boric”. Isso claro, se o jovem destemido encontrar a luz, acordar inspirado, ou algo do gênero.

Como se trata de política, não de um roteiro de ficção de gosto duvidoso, isso que Tarso Genro propõe é como entregar resultados políticos ao acaso, a uma eventualidade. E esse é o caminho seguro para o fracasso.

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