Rejeitar o pragmatismo

Qual a política diante de uma base parlamentar

Lula deve continuar a apresentar seu programa nacionalista e, ao mesmo tempo, investir todas suas forças na mobilização da classe trabalhadora, a única que pode ampará-lo

À medida que Lula vai deixando explícito o caráter nacionalista de seu programa de governo, seja no cenário internacional (com o antagonismo ao imperialismo na questão Ucraniana; com a proposta de desdolarização da economia mundial, etc.), seja no cenário nacional (apoiando o MST contra o latifúndio, revogando o PPI, dando sinais de que irá assumir o lado da Petrobrás no impasse com Marina Silva e o IBAMA), a burguesia intensifica a pressão sobre o governo, por todos os flancos.

Em decorrência disto, setores direitistas de dentro do Partido dos Trabalhadores, que já possuíam uma política equivocada antes mesmo de Lula assumir o terceiro mandato (por exemplo, a defesa da frente ampla), agora insistem em um pragmatismo desastroso que é sinônimo de capitulação, e que só pode trazer um único resultado – a inevitável derrota do governo Lula.

A posição da ala direita do Partido dos Trabalhadores

A posição desses setores apareceu recentemente em coluna publicada recentemente no site Brasil 247, em 15 de maio, sob a autoria de Aldo Fornazieri.

É feita uma crítica ao governo Lula, que estaria cometendo “determinados erros políticas e de escolha que chegam a assustar”. Prossegue a apontar quais seriam estes erros:

Aposta na revogação de medidas aprovadas na legislatura anterior do Congresso sem considerar que a atual legislatura é mais conservadora e mais privatista do que a anterior. O atual Congresso quer também um maior poder de controle sobre o Orçamento e sobre as pautas políticas. Assim, o encaminhamento dos decretos de mudança do Marco do Saneamento e, principalmente, a forma como o fez, sem articulação política, provocaram uma derrota que causou um dano significativo ao governo.

 Outra escolha que parece caminhar para uma derrota é o questionamento da privatização da Eletrobrás. Sem entrar no mérito dos questionamentos do governo, que no essencial são corretos, o problema consiste em avaliar se ele tem condições de obter uma vitória, mesmo no STF. Uma avaliação preliminar indica que se trata de uma iniciativa de alto risco, o que poderá provocar uma nova derrota e um novo desgaste”.

Ora, o que basicamente se diz é que o erro de Lula foi tentar implementar seu programa de governo, pois não tinha a maioria necessária para aprová-los no Congresso!

É notório que faz parte do programa de governo de Lula a luta contra as privatizações, a reindustrialização, o desenvolvimento econômico do país. Logo, as pautas apontadas acima, como a “revogação de medidas aprovadas na legislatura anterior”, o “marco do saneamento” e o “questionamento da privatização da Eletrobrás” são essenciais ao governo.

Dizer que foi um erro de Lula propô-las, e utilizar como justificativa o fato de ele não ter apoio em um Congresso cheio de direitista não é defender uma tática correta, é defender um pragmatismo capitulador.

Conforme essa posição da ala direitista do Partido dos Trabalhadores, Lula deveria apenas propor aquilo que teria possibilidade de ser aprovado de antemão. Por conseguinte, o presidente deveria abandonar seu programa nacionalista, e se tornar mais um dos inúmeros gerentes de turno do imperialismo que governaram o país. Por óbvio, a ala direita do PT não diz isto explicitamente. Geraria uma crise. Ao invés disto, escamoteia essa posição dizendo que Lula só deveria aplicar seu programa após conseguir conquistar uma articulação política favorável no Congresso e, o que é mais difícil, mudar a conjuntura a seu favor.

Em outras palavras, Lula jamais tentaria implementar seu programa.

Esse tipo de posição é sinônimo de capitulação. É uma política desastrosa que só trará derrotas ao governo, desgastando sua imagem perante a população e facilitando sua derrubada pelo imperialismo.

Embora o presidente Lula deva ser criticado quando adota políticas equivocadas, a crítica deve ser feita no sentido de derrotar a burguesia e não de se capitular perante ela.

A política de Lula

 Desde o início de seu mandato, Lula vem mostrando muita iniciativa em tentar implementar um programa de governo nacionalista, que sirva aos interesses dos trabalhadores e do povo brasileiro.

Inúmeras medidas vêm sendo tomadas pelo governo nesse sentido, dentre as quais estão a recente revogação do PPI, a tentativa de aprovação do Marco do Saneamento, a tentativa de acabar com o teto de gastos através do novo Arcabouço Fiscal, dentre outras.

É verdade, Lula não tem maioria no Congresso. Este está cheio de direitistas e bolsonaristas. A tendência é que todas as propostas que sirvam aos interesses dos trabalhadores, que promovam um real desenvolvimento do país, tendam a ser rejeitadas por esse parlamento reacionário.

Contudo, é um erro de Lula propô-las? Não.

Qual o seu erro, então? O seu erro é se utilizar da velha política de manobras e negociatas para tentar implementar seu programa de governo.

A política de comprar deputados e senadores através de emendas (ou de qualquer outra maneira) é uma política não possui futuro. Pessoas vendáveis como esses congressistas se leiloam para aqueles dispostos a pagarem mais e a burguesia brasileira e o imperialismo possuem mais bala na agulha do que o governo.

Sendo assim, as negociatas com os parlamentares só fazem o governo perder dinheiro e apoio da população, pois esses deputados e senadores sempre vão querer mais e mais. Sentem o cheiro do sangue e aproveitam a fragilidade política do governo para chantageá-lo ainda mais.

E, após todas as negociatas e chantagens, após a liberação de bilhões em emendas, após a cessão de ministérios, os parlamentares abutres ainda votam contra as propostas do governo.

O governo sai derrotado, desmoralizado e mais enfraquecido do que já estava.

Portanto, apesar de Lula estar certo em tentar implementar seu programa nacionalista, a forma através da qual ele tenta fazê-lo é errada.

Assim como o pragmatismo proposto por Fornazieri, essa tática leva ao desastre, a derrotas imediatas do governo e à sua eventual derrubada.

A política correta

Qual, então, é a política correta?

 Em primeiro lugar, Lula deve apresentar seu programa de desenvolvimento da nação, que sirva aos interesses dos trabalhadores. Deve fazer a mais ampla propaganda dele. Deve apresentar propostas no Congresso? Sim.

Contudo, para aprová-las, não deve desperdiçar tempo e nem dinheiro com negociatas escusas com parlamentares.

Deve investir todas suas forças na mobilização popular. Na mesma mobilização que foi responsável por elegê-lo no segundo turno das eleições. Apenas a classe trabalhadora em ação poderá por em prática toda a extensão de seu programa de governo nacionalista de governo.

E esta mobilização deve começar imediatamente, pois estamos em um momento em que Lula ainda conta com grande apoio popular. A burguesia, por outro lado, ainda não se encontra em um momento favorável para desferir um ataque orquestrado contra Lula, aos moldes do que fez contra Dilma no golpe de 2016. Então, agora é o momento ideal de partir para cima dos direitistas, da burguesia e do imperialismo, pois as condições para um golpe não estão dadas, e as condições para a mobilização popular são favoráveis.

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