Ascânio Rubi

Ascânio Rubi é um trabalhador autodidata, que gosta de ler e de pensar. Os amigos me dizem que sou fisicamente parecido com certo “velho barbudo” de quem tomo emprestada a foto ao lado.

Identitarismo sionista

Propaganda sionista usa guia identitário contra antissemitismo

Propaganda sionista mistura antissemitismo com antissionismo para coibir críticas a Israel

Israel negociou com o Hamas, o movimento de resistência do povo palestino, uma pausa de quatro dias na matança da população de Gaza em troca da libertação de 50 reféns. Ainda assim, faz saber a quem possa interessar que pretende “completar a eliminação do Hamas e garantir que não haverá nenhuma nova ameaça ao Estado de Israel vinda da Faixa de Gaza”. Como temos visto até agora, o objetivo de “eliminar o Hamas” é o que justifica o massacre na Palestina. Seja o bombardeio de hospitais, ambulâncias e escolas, seja a supressão de eletricidade, combustível, água e alimentos, tudo vale em nome da defesa do Estado de Israel, mas, mesmo nesse cenário, segundo o Instituto Brasil-Israel, que lançou seu Guia contra o antissemitismo, o momento é o de “combater o ódio aos judeus”.

Ainda que os judeus de conjunto não sejam responsáveis pela carnificina e que muitos sejam contrários à limpeza étnica que Netanyahu intenta fazer em Gaza, o noticiário – por mais que se esforce na escolha das palavras para encobrir as imagens – não ajuda a angariar simpatia por eles nesta etapa. O referido instituto poderia, então, envidar esforços em distinguir antissemitismo de antissionismo, deixando claro que se trata de coisas diferentes. Enquanto “antissemitismo” é um preconceito contra qualquer judeu, “antissionismo” é uma posição contrária a um movimento político chamado sionismo.

A cartilha, no entanto, tem outro propósito, qual seja, o de embaralhar esses dois conceitos, de modo que a crítica ao sionismo – e consequentemente ao Estado de Israel – soe como “antissemitismo” e possa, na esteira da legislação que pune o racismo (e a injúria racial) no Brasil, ser criminalizada. Para preparar o terreno, o texto começa por ressaltar que “a luta contra o antissemitismo é a mesma que combate o racismo, a LGBTQIA+fobia, a intolerância religiosa e tantas outras, contra o ódio, o preconceito, a ignorância e a intolerância”. Em nenhum momento, porém, chama a atenção para o óbvio: a política de extermínio dos palestinos, empreendida por Israel, é racista e fascista.

Segundo o texto, a identidade nacional judaica se forjou nos mil anos anteriores aos dois mil anos de dispersão dos judeus, época em que eles viveram majoritariamente na Terra de Israel – desse tempo remoto viria o “sentimento de pertencimento à terra” dos judeus de hoje, que, aparentemente, preferem montar seus lares em Nova York, Buenos Aires ou nas capitais europeias.

Como se vê, desde as primeiras páginas, o texto defende o sionismo, na medida em que afirma que o território palestino seria pertencente, por algum direito moral, aos judeus. Mais adiante, fará a defesa explícita nos seguintes termos: “A autodeterminação nacional é um direito de todos os povos, e o sionismo é somente a maneira como se manifesta este direito inalienável do povo judeu”.

Embora inspirado nas cartilhas identitárias que andaram muito em voga num esforço de promover o “letramento racial” ou a “inclusão e a diversidade”, o referido Guia não tem a ingenuidade de se resumir a listas bobocas de termos supostamente ofensivos. O texto é muito mais elaborado e, num tom doutrinário, propositadamente funde as ideias de antissemitismo e antissionismo para, finalmente, pegar carona na legislação que pune o racismo no Brasil.

Afirma-se, por exemplo, que “as formas mais comuns de expressar o ódio contra judeus são acusações, difamações, discursos de incitação ao ódio em manifestações públicas, redes sociais, sites, plataformas de comunicação e portais de notícias, pichações de símbolos nazistas em espaços públicos e privados, além de violência física, agressões verbais, cerceamento de direitos, assassinatos e perseguições motivadas”. Destacamos aqui os “crimes da fala”, que aparecem em pé de igualdade com assassinato e cerceamento de direitos.

É preciso saber exatamente o que pode ser considerado um discurso de incitação ao ódio em manifestações públicas. Convém lembrar que uma palavra de ordem como “Israel, estado assassino” não deveria, em hipótese alguma, ser considerada um ato de incitação ao ódio contra judeus, uma vez que é o “estado” o alvo da crítica. Ocorre, porém, que o referido documento não procura distinguir uma coisa de outra. Além disso, considera como ataques também as charges e as piadas, bem como “deboches e insinuações corriqueiras” – e, cereja do bolo, alerta sobre o “pretexto da liberdade de expressão” que configuraria algum tipo de prerrogativa para o preconceito, ecoando o discurso dos identitários, agora tão nitidamente a serviço da direita sionista.

Como não poderia deixar de ser, o Guia associa o “antissemitismo” ao “racismo” no Brasil e se aproveita da legislação aprovada para defender os negros. Segundo o documento, já existe jurisprudência: “o STF, inclusive, em uma ação nos anos 2000 [sic], considerou o antissemitismo análogo ao racismo”. Segue a analogia: “Judeus, assim como negros ou indígenas, não podem ser preteridos em postos de trabalho por serem judeus, e a injúria contra judeus é considerada injúria racial”.

O texto chega a comparar a intolerância religiosa supostamente sofrida por judeus (“profanação de sinagogas e de cemitérios judaicos”) com incêndios criminosos de terreiros de cultos afro-brasileiros. A turma é boa de conversa, mas faltam exemplos concretos que atestem que, no Brasil, os judeus sejam oprimidos, como o são os negros e os indígenas que não estão a serviço de ONGs.

O Guia, por óbvio, é mais uma peça de propaganda para tentar angariar, ainda que por vias tortuosas, adesão ao massacre de palestinos perpetrado por Israel em Gaza.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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