Roberto França

Militante do Partido da Causa Operária. Professor de Geografia da Unila. Redator e colunista do Diário Causa Operária e membro do Blog Internacionalismo.

Andes-SN

Os stalinistas no Andes-SN

Satélite do PSOL, UP se soma à queimada da largada para tentar promover novo golpe de Estado

Roberto França

O Sindicato Nacional de Docentes de Ensino Superior (Andes-SN) é composto por cerca de 70 mil filiados distribuídos em 121 seções em todos os Estados brasileiros e em diversos níveis: ensino técnico; universidades públicas estaduais e federais entre outros sindicalizados. É uma das maiores redes sindicais do Brasil. Em maio ocorreram eleições para biênio 2023/2025 (dias 10 e 11 de maio de 2023) e inaugurou uma nova fase do sindicalismo no Andes-SN, uma etapa marcada por três fatores:

  1. Disputa acirrada entre chapas, com interposição de vários recursos;
  2. Primeira disputa após a retirada da CSP-Conlutas;
  3. Vitória do grupo Andes pela Base sem a participação do PSTU na composição da chapa ampla, incluindo secretários regionais – Regional Nordeste I; Regional Nordeste II; Regional Nordeste III; Regional Norte I; Regional Norte II; Regional Pantanal; Regional Planalto; Rio Grande do Sul; Rio de Janeiro; São Paulo; Sul – 83 no total. Com essa extensão territorial, o Andes-SN tem grande influência nas políticas públicas de ensino, além de ter sido agente ativo na política nacional desde sua fundação em 1981. 

A influência política do Andes-SN tem sido alvo de disputa pelo fato de o sindicato ter interferido diretamente em questões centrais do País, que por meio do aparelho sindical, tem disseminado grande parte da política da esquerda pequeno burguesa, inclusive sendo um dos agentes do golpe de Estado de 2016.

Universidade brasileira dominada pelo imperialismo

A universidade brasileira é alvo da política externa do imperialismo há cerca de 60 anos, especialmente a partir do golpe militar de 64, com a imposição do Acordo MEC-Usaid, que estabeleceu o modelo importado dos Estados Unidos e abriu o caminho para a privatização do ensino superior. O agravamento dessa política se deu no processo de “abertura lenta, gradual e segura”, quando diversas think tanks foram espalhadas dentro das universidades. 

Durante o governo FHC foi aplicada a doutrina do choque neoliberal nas universidades públicas. ONGs se apoderaram delas, injetando recursos financeiros por meio de bolsas de pesquisa, controlando ainda mais os pesquisadores das ciências humanas. Com esse problema político, quando ocorreu a expansão das universidades nos anos 2000, ocorreu uma acomodação de toda essa demanda reprimida, tornando as universidades brasileiras um puxadinho da política imperialista.

Junta-se a isso, a política nefasta promovida pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) entre outras entidades ligadas a produção científica oficial, que respondem aos interesses estrangeiros; estabelecendo índices de produtividade científica; internacionalização da ciência com base na produção realizada dos Estados Unidos e União Europeia, ou quem esteja ligado à esses interesses; e também com a política de inclusão baseado em modelo importado, não avançando para ensino público para todos. Ou seja, a própria universidade pública atuou para consolidação de uma política não-inclusiva, mas, de manutenção da seleção em vestibulares.

A influência negativa dos Estados Unidos não foi analisada pelos docentes universitários – responsáveis por mais de 90% das pesquisas científicas do País – que simplesmente colaboraram para que a presença dos Estados Unidos fosse acomodada. Assim a universidade brasileira passou a ser alvo de disputas políticas que levaram essa base social, inclusive o movimento sindical, impulsionado por partidos de esquerda pequeno-burguesa incubados nessa “cultura científica”. Uma colaboração científica se torna imediatamente colaboração com o imperialismo, e foi assim que o Andes pediu desfiliação da CUT, impulsionado pelos partidos universitários PCB, PSTU e PSOL (recém-criado em 2005, quando da desfiliação da CUT).

Em 2005, o Andes representava 74 mil professores universitários (atualmente 300 mil) e estava filiado à CUT havia 15 anos. Barbosa em entrevista para a Folha de S. Paulo, alegou que a reforma da previdência e a concordância de seus dirigentes em participar do fórum sobre a reforma trabalhista como dois exemplos de posição contra os interesses dos trabalhadores. “A CUT está, cada vez mais, adotando uma política de colaboração com os projetos do governo, sem resguardar sua autonomia e sem contar com respaldo na base. Ela deixou de ser um instrumento de aglutinação e organização dos trabalhadores para atender a outros interesses”

Essa postura, além de sectária, demonstra que a desfiliação da CUT tinha relação com o governo ser um governo do PT, que demandaria esforços dos professores de ensino superior para orientar Lula a realizar reformas progressistas no interior de um lugar profundamente reacionário como a universidade brasileira.

Partidos universitários e o ingresso da UP na ala golpista

PSTU, PCB e PSOL passaram a ser o partido dos professores universitários, rapidamente se sobrepondo à presença do PT, e com isso a influência negativa na distorção do marxismo com pós-modernismo se aprofundou. O PSOL como instrumento da burguesia para destruir o PT, logo passou a controlar uma rede de partidos políticos como o próprio PCB. Egresso do PT, o PSOL universitário foi aumentando sua presença via movimento sindical universitário, de modo que em 2012 formaram uma corrente sindical, o “Andes pela Base”, composto também por egressos do PSTU até então. De 2012 para cá, assumiram todas as gestões no Andes. Muito se coloca que um mesmo grupo controla a entidade, mas com a desfiliação do Conlutas, proposto por membros da atual diretoria, ocorreu um racha no interior desse movimento “anti-PT” no Andes. 

Também precisamos destacar o ingresso da UP no “Andes pela Base”. Esse agrupamento se integrou às atividades desse grupo e tem papel ativo. Todo a base do movimento é composta por uma luta sindical vinculada a uma política de fragmentação da categoria docente. No último pleito eleitoral foi possível verificar a presença de três chapas:

  • Chapa 1 – ANDES pela Base: Ousadia para sonhar, coragem para lutar; (PCB-UP-PSOL e independentes)
  • Chapa 2 – ANDES-SN Classista e de Luta; (PSTU e independentes)
  • Chapa 3 – Renova ANDES (PT, PDT, setores do PSOL e independentes)

UP 

No jornal A Verdade, a UP publicou a matéria sobre o resultado das eleições: “Chapa 1 ‘ANDES pela base: ousadia para sonhar, coragem para lutar” representa a categoria dos professores de ensino superior”, onde afirma: “Disputam a Chapa 1 “ANDES pela base: ousadia para sonhar, coragem para lutar”; a Chapa 2 “ANDES-SN Classista e de Luta”; e a Chapa 3 “RENOVA ANDES”. Enquanto os primeiros representam a atual gestão, os segundos representam os interesses da central sindical recentemente abandonada, enquanto os terceiros defendem um diálogo mais amistoso com o governo federal recém-empossado”.

Essa colocação manifesta claramente uma intenção com características golpistas. Ao afirmar que o Renova Andes terá “diálogo amistoso”, praticamente está propondo a falta de diálogo. A reação imediata contra as medidas econômicas do governo do PT veio sem nenhum debate com a “base”, ao contrário do que proclamam.

O PSOL e seus satélites, o grupo do “Fora Todos”, que não mobilizaram os trabalhadores durante o governo Bolsonaro, agora estão organizando uma frente contra os trabalhadores, novamente atacando o governo pelos flancos, sem organizar uma verdadeira luta por um programa dos trabalhadores. Além disso, outra tática desses agrupamentos é orientar uma política identitária acima dos interesses dos trabalhadores e da organização da categoria contra a política da direita, que vem se impondo ao governo Lula, e que se utiliza de seus aliados nas universidades, compostos por agrupamentos pseudo radicais como a UP.

Apesar do Andes-SN ter abandonado a luta contra o governo Bolsonaro; anos de congelamento salarial; e a pressão da direita contra as universidades, fica claro que não se pode esperar que a situação mude sem que haja uma pressão dos trabalhadores e seus sindicatos, contra a pressão que a direita exerce sobre o governo, nesta e em todas as questões fundamentais.

O governo Lula concedeu aumento (para diversas categorias do funcionalismo, não somente as universidades), está inaugurando campus e tocando obras paradas em universidades, mas a pressão sobre Lula será para corroê-lo, não para mobilizar os docentes em torno de reformas necessárias. É evidente que a pressão da direita dentro do governo e a falta de mobilização por parte da imensa maioria das direções sindicais, são barreiras que precisam ser enfrentadas e derrotadas para conquistar o que é devido aos trabalhadores. 

A UP, ao invés de organizar os trabalhadores em busca de soluções para os trabalhadores, praticam sectarismo e organizam a derrota da categoria com frases de efeito como: “Em nome da confiança, do compromisso com a luta de classes, é fundamental que as demais chapas renunciem a uma disputa que ficou viciada, comprometida com o desejo de alguns em vender a alma pelo poder”

A prática de diletantismo sindical é orientação para a prática de um novo golpe de Estado. Para a UP: “A moral revolucionária exige que os interesses da classe estejam acima dos interesses de conjuntura e das momentâneas possibilidades de poder. Há de se expor os covardes. Depois, que a luta restitua a legitimidade daqueles que mantêm o compromisso de lutar pelo justo, pelo certo, pelo melhor. Dito isso, a Chapa 1 é a única que honra o legado de independência e classista, representando o interesse da categoria”. 

Trata-se de uma postura claramente sectária, stalinista. Docentes e todos os trabalhadores pagam caro por posturas sectárias do grupo que tomou o Andes-SN. Após o golpe de 2016, a direita impôs violentos ataques como as “reformas” trabalhistas e da Previdência, teto de gastos, congelamento dos salários etc.  Ao contrário do que esses grupos sectários dizem, a vitória de Lula evidenciou a revolta de todo o povo brasileiro contra essa política e abre enormes possibilidades para fazer avançar a luta pela derrota da política do regime golpista contra o povo e pela conquista de nossas reivindicações. 

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