Uma situação muito grave

O que está por detrás dos acontecimentos em Brasília?

Há um risco verdadeiro de golpe de Estado. Mas ele não vem da turba bolsonarista, e sim do comando das Forças Armadas que possibilitou a invasão

A invasão à sede dos Três Poderes, ocorrida no último domingo (08), acendeu um alerta vermelho ao governo Lula. Contudo, todas as análises apresentadas até o momento pela esquerda nacional passam longe de atingir o ponto central da primeira crise em que o governo se envolveu, em apenas uma semana de mandato.

Praticamente toda a esquerda entrou em uma histeria coletiva contra os “terroristas” que participaram da manifestação bolsonarista. O grande demônio e a grande ameaça à “democracia” seria a turba que adentrou o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o STF. Se eles fossem o perigo, poderíamos estar tranquilos.

A reação do conjunto do governo Lula logo após a ação dos bolsonaristas foi muito preocupante, demonstrando que o governo foi absolutamente incapaz de lidar com o caso. Assim, ele inicia essa crise (que tende a se agravar) fragilizado.

O aparato governamental encarregado de exercer a segurança em Brasília, cujo responsável principal era o ministro da Justiça, senhor Flávio Dino, comprovou sua total incompetência. O ministro expressou uma confiança cega na direita e caiu na armadilha que levou à completa inação dos dispositivos de segurança nos primeiros momentos da manifestação bolsonarista. Estava claro para todos que acompanhavam as informações dos acampamentos bolsonaristas em volta do local que eles iriam tentar ocupar os prédios. Mas Dino foi pego de surpresa, revelando sua absoluta incapacidade de lidar com a situação e de continuar à frente de um dos mais importantes ministérios do governo Lula.

José Múcio, ministro da Defesa, foi escolhido como um dos principais alvos da artilharia opinativa da imprensa burguesa e também da chamada imprensa progressista. O problema é que ele não tinha nada a ver com a história. A mobilização da segurança era de responsabilidade da polícia do Distrito Federal (embora o governador Ibaneis também tenha sido pego de surpresa) e de Flávio Dino. Entretanto, fica transparente que Múcio, um homem ligado aos bolsonaristas que foi escolhido por Lula para tentar apaziguar os militares, é um interlocutor que funciona de um lado só: está na mão dos militares.

Porém, aquele que serviu diretamente aos militares – que estão por trás da invasão – foi o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), o general Gonçalves Dias. Há informações de que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) alertou o GSI sobre o risco de invasão iminente. Sabemos que, entre militares, não existem avisos, o que existem são ordens e instruções. Entretanto, G. Dias nada fez para mobilizar o aparelho de segurança e conter a turba. Foi instruído a não fazer nada. O GSI, ao contrário do que podem pensar os companheiros do PT, não está agora, como num passe de mágica, a serviço de Lula. Não. Ele é um órgão de inteligência do exército e está aparelhado pela ala bolsonarista dos militares. Até poucos dias o seu chefe era ninguém menos do que o general Augusto Heleno, um dos mais radicais e extremistas oficiais das Forças Armadas.

Essa ala de extrema-direita dos militares foi a verdadeira responsável pela invasão de domingo. Ela é o verdadeiro perigo que assombra, tão cedo quanto podíamos imaginar, o terceiro mandato de Lula, deixando muito concreto o risco de um futuro golpe de Estado. Porém, ela tende a sair completamente ilesa. Toda a perseguição que está sendo feita neste momento, incluindo a improvisação de campos de concentração de bolsonaristas, ocorre contra a ralé, contra verdadeiros lambaris. Os tubarões ficarão impunes. Ninguém vai mexer com o oficialato das Forças Armadas.

Alexandre de Moraes, o grande baluarte da luta contra o fascismo, está numa situação muito difícil. São mais de 1.500 pessoas detidas. O julgamento para punir cada uma dessas pessoas será algo extremamente complexo. Além disso, as informações disponíveis até o momento dão conta de que muitos militares participaram da invasão e há militares entre os detidos. Moraes vai ter peito para condenar os militares e seus amigos? Ou só é o herói da democracia quando se trata de prender pés-rapados?

Mas a repressão que foi desatada contra os próprios pés-rapados já tende a estimular a completa contrariedade dos militares bolsonaristas e seu ódio ao governo Lula. Portanto, ela fortalece a própria extrema-direita responsável pelo “atentado terrorista”, como estão chamando os veículos de imprensa. A ação foi promovida pelo “Estado profundo” brasileiro, que se resume às Forças Armadas, com o claro objetivo de desestabilizar o governo Lula. Trata-se de uma tentativa de sabotar o governo e forçar um eventual golpe de Estado futuro.

O governo, por sua vez, pego de surpresa e adotando uma política absurdamente equivocada diante do ocorrido, quer agir com “o rigor da lei”, com truculência contra os supostos terroristas, mas indica que, na “hora H”, ou seja, quando será preciso atacar justamente os grandes responsáveis pela ação (os oficiais das Forças Armadas), ele não irá conseguir dar prosseguimento a essa política. Não vai levar às últimas consequências a resposta à alardeada ação golpista. Isso será uma demonstração de fraqueza do governo. Tendo de punir os militares, o plano será abortado.

Quais seriam, portanto, as soluções positivas para a crise?

Uma delas seria a de que os oficiais não bolsonaristas das Forças Armadas realizassem um expurgo da ala extrema-direita. Mas isso é inviável neste momento, pois ambos mantêm intensas ligações. O governo Lula também não tem condições neste momento de reformular as Forças Armadas. Mas é justamente Lula quem precisa tomar a iniciativa e agir para afastar a possibilidade de um golpe.

A base para essa ação não são as instituições do Estado que, como dito acima, estão apenas fortalecendo o bolsonarismo com seus atos. A base é a mobilização popular. Manifestações da esquerda ocorreram na segunda-feira, e outras estão sendo convocadas para os próximos dias, em repúdio à invasão de domingo. Mas é preciso uma mobilização muito maior e mais contundente. O PT e a CUT precisam convocar um amplo congresso do movimento popular, é necessário criar comitês de luta e de autodefesa dos trabalhadores, agitar os sindicatos, as fábricas, os locais de trabalho, estudo e moradia, os acampamentos e assentamentos de camponeses para organizar um movimento contra o golpe da direita para desmantelar o comando das Forças Armadas. Precisa ser uma mobilização independente da burguesia, porque o setor pretensamente antibolsonarista da burguesia, que estaria no governo, nas instituições “democráticas” e mesmo na oposição parlamentar não tem força para lutar contra esse golpe. Mais uma vez, como sempre, Lula precisa se apoiar nos trabalhadores para resistir aos seus inimigos.

As ações institucionais de Lula, por sua vez, acompanhando a mobilização popular, devem começar por destituir imediatamente de seus cargos os responsáveis pela total incompetência e fraqueza do governo em impedir a ação bolsonarista. A saber: é preciso tirar Flávio Dino, José Múcio e Gonçalves Dias do governo e substitui-los por companheiros que não caiam nas ilusões vendidas pela direita e pelos funcionários da burguesia.

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