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Carla Dórea Bartz

Jornalista, com 30 anos de experiência (boa parte deles em comunicação corporativa). Graduada em Letras e doutora pela USP. Filiou-se ao PCO em 2022.

Cinema e Política

O presente perfeito de Hollywood

Filme Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo salva o capitalismo de seu fim

No cinema norte-americano, é temporada de Oscar. Então, esta semana decidi fazer uma análise sobre um filme contemporâneo que está indicado para o prêmio de Melhor Filme. Há em torno dele até um clima de “já ganhou”.

Se chama Tudo em Todo Lugar ao mesmo Tempo (Everything Everywhere All at Once, 2022), dirigido por dois jovens diretores norte-americanos, Daniel Kwan e Daniel Scheinert.

O filme é ruim. Muito.

Mesmo assim, suscita uma discussão em duas frentes: os motivos que levam a academia americana de cinema a elegê-lo como o melhor do ano e porque ele é ruim na opinião desta que lhes escreve.

Ele é ruim porque reúne o que há de mais idiota na cultura americana contemporânea. Ele é um resumo daquilo que acadêmicos desse mesmo país, como Fredric Jameson, chamam de lógica cultural do capitalismo tardio.

É triste percebê-lo como a manifestação cultural de jovens americanos na conjuntura histórica e social neste momento. Mostra sua incapacidade intelectual de refletir sobre essa conjuntura. Em seu trabalho, transbordam contradições não-intencionais sobre a decadência do país.

Não-intencionais, pois Kwan e Scheinert não percebem essas contradições que eles mesmos colocam na tela. Eles querem ser engraçados, irônicos e bem intencionados. Eles são rapazes geeks, que assistiram Matrix várias vezes. São alienados de classe e deslumbrados. É isso que aflora.

Como o filme representa essa “lógica cultural da globalização”, à qual os americanos estão imersos e impõem ao mundo todo?

Começa no título. Só uma cultura extremamente autocentrada consegue fazer um filme que se chama Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo. Essa sensação de onipresença mística é o que a globalização celebra. Parece que é assim que os jovens nerds entendem a realidade.

Na história, Evelyn (Michelle Yeoh) é uma imigrante chinesa que gerencia, junto com o marido e a filha, a lavanderia da família. Com dívidas de impostos, em crise por um casamento fracassado e lidando com a rebeldia depressiva da filha lésbica, Evelyn está à beira de um ataque de nervos.

Mas, tudo pode mudar quando ela descobre que é a heroína de realidades paralelas infinitas que lhe dão a chance de viver e reviver sua história em outros termos e procurar uma cura para os conflitos familiares.

Os metaversos se sucedem em uma edição frenética sobre o tempo presente. O título do filme é também uma ode a um único momento no tempo: o presente. Não há passado e, claro, não há futuro. Não há História.

A trajetória pequeno-burguesa de Evelyn está dada como um destino. Sabemos que seu cotidiano de trabalho duro, cansativo e medíocre, vivido por décadas, é a única opção que o capitalismo lhe dá. Mas, no filme, trata-se apenas de um conjunto de escolhas individuais que se encaixam em um desenho superior do universo. É tolo até o último fio de cabelo.

A filha não para de repetir que tudo não faz sentido, mas quem diz que política e história poderiam esclarecer e gerar consciência sobre o que deve ser transformado? Ao expor sua insatisfação, a filha torna-se a adolescente vilã que ameaça toda a ordem universal.

Mais, na sua necessidade de ser irônico e engraçado, o enredo é uma salada de referências, um pastiche de obras que vieram antes e que se juntam sem qualquer significado mais elaborado, sem aprendizado e sem qualquer conflito.

No fundo, o filme é o resultado da mente desses jovens diretores. Estão ali sua ignorância infantil e adolescente, com piadas de colégio e citações à cultura pop. Como se Quentin Tarantino tivesse chegado no fundo do poço.

Se é assim, então, por que a Academia está prestigiando esse filme? É possível dizer que se não fosse pela publicidade gerada pela indicação, ninguém perderia tempo com esse problema.

Aqui, sim, a questão política ganha corpo. Ao escolher esse filme como o melhor do ano, Hollywood faz uma opção consciente pelo reacionário. É uma homenagem ao capitalismo americano como ele é: o Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo.

A resolução do filme não poderia ser mais conservadora: no final, o que importa é que Evelyn salva sua família e compreende que ela está exatamente no lugar que deveria estar e que, na verdade, a vida pequeno-burguesa de lavadeira e imigrante chinesa é seu destino perfeito.

Ela tem uma iluminação mística para chegar a essa conclusão, ajudada por uma dose rasteira de psicanálise que acompanha a resolução de todos os seus conflitos.

Luta de classes? Nem pensar.

Hollywood premia a alienação social e histórica. Tudo é como deve ser. E vamos defender isso até o fim. Nada mal nesses tempos de III Guerra Mundial.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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