Segregação

O gueto de Dourados

Indígenas são ao menos 10% da população e vivem em 0,1% do território da cidade, no interior do Mato Grosso do Sul, em situação extremamente precária

Eduardo Vasco, de Dourados (MS)

Quem passeia pelas ruas de Dourados, a 200 km de Campo Grande, vê os índios brasileiros como eles realmente são. Vestidos com bermuda velha, camisa pirata de futebol, chinelo de dedo. Seu principal meio de transporte é a bicicleta. Alguns andam de charrete e parecem camponeses, de camisa xadrez e chapéu de palha. Um ou outro dirige um carro bem usado.

São ao menos 20 mil indígenas em Dourados. Esse número pertence ao último censo completo publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010. De lá para cá, a população indígena aumentou. Eles representam cerca de 10% da população total da cidade, a segunda maior do estado do Mato Grosso do Sul. No entanto, vivem em apenas 0,1% do território do município.

Quando se entra no único shopping center de Dourados, os índios desaparecem. O restaurante, que estava cheio na hora do almoço, viu entrar e sair mais de 200 pessoas. Nenhuma delas era indígena. Nem mesmo os funcionários. Os índios trabalham nos piores empregos: coleta de lixo, obras nas estradas e no corte de cana-de-açúcar.

No supermercado do shopping, havia uma funcionária do caixa da etnia guarani. Disse que, além dela, um índio trabalha na peixaria do supermercado. Uma pessoa comum no Brasil sonha em ser engenheiro, advogado, médico. Para os índios de Dourados, que vivem em aldeias e retomadas, o sonho é que seus filhos, quando crescidos e em idade de trabalhar, sejam caixas de supermercado. É o melhor emprego que podem conseguir.

As suas casas se encontram na periferia de Dourados. Perdão, não se pode chamar de casas o local onde essas famílias vivem. São barracos. Piores que favelas, muito piores. Renato Farac, militante do Partido da Causa Operária (PCO) que trabalha há anos com os movimentos do campo e já visitou terras indígenas nos quatro cantos do País, acredita que em nenhum lugar do Brasil existe uma segregação tão grande como em Dourados. “Eles vivem em verdadeiros guetos”, diz ele, que se encontra na cidade ajudando a organizar o Comitê de Luta das Retomadas junto aos guaranis e caiouás.

Fazendo um tour de dez minutos de carro pela verdadeira roça onde estão estabelecidos os seus barracos e casebres é possível contar ao menos cinco igrejas evangélicas. Assim como na periferia das grandes cidades, aqui elas também tomaram conta do trabalho de propaganda ideológica. Nenhuma das centenas de organizações políticas e sociais que gostam de dizer que defendem os índios está por aqui. As Organizações Não-Governamentais (ONGs) e partidos políticos não se interessam pelos segregados do Gueto de Dourados. O PCO será o primeiro partido político a abrir uma sede neste lugar, a Retomada Iwu Vera, próxima à Aldeia Jaguapiru.

Aqui muitos índios sobrevivem por meio de doações e alguma assistência governamental. Praticamente todos não têm o que vestir a não ser roupas rasgadas. Os cães, que infestam os quintais, são magricelas e sujos de terra vermelha.

Foram os índios da Iwu Vera que realizaram, na madrugada do dia 6 de abril, uma nova retomada, em um terreno de 50 hectares, batizado agora de Nova Iwu Vera. Responderam à quebra do acordo realizado com os proprietários do terreno, que era o de manter uma negociação pacífica na justiça entre aqueles que reivindicam o terreno como tradicionalmente seu (os índios guarani e caiouá) e aqueles que se apossaram dele. O antigo proprietário vendeu o terreno para a Corpal Incorporadora e Construtora, que iniciou a construção de um condomínio de luxo no terreno em disputa. Esse foi o motivo da retomada.

Cerca de 20 índios da Iwu Vera realizaram a ocupação. Começaram a construir alguns barracos. Porém, quando metade deles saiu momentaneamente, na manhã do dia 8, policiais militares apareceram na nova retomada e levaram presos os índios que ali estavam.

(Continua na edição de amanhã)

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.