Quem aprecia o cinema italiano, certamente um dos melhores do mundo, conhece o movimento Neorrealista, levado adiante por artistas excepcionais e inesquecíveis, tais quais Roberto Rossellini, Vittorio De Sica, Luchino Visconti, praticamente os fundadores do gênero, e Liliana Cavani, Ettore Scola ou Elio Petri, seus herdeiros. O universo do Neorrealismo é amplo; dos dramas de Vittorio De Sica às comédias de Mario Monicelli, há espaço, inclusive, para filmes de terror; refiro-me a “O demônio”, de Brunello Rondi, 1963.
Em linhas gerais, quando o termo “realista” é utilizado na arte, há, pelo menos, duas concepções possíveis: (1) o real opõe-se ao fictício – talvez essa seja a concepção mais corrente, na qual, às vezes ingenuamente, visões de mundo são confrontadas –; (2) o Realismo, enquanto estética do século XIX, opõe-se ao Romantismo, com seus autores buscando pelo romance de tese, fundamentado na observação direta dos fatos sociais. As duas discussões são interessantes; na primeira, devido a seus desdobramentos, tocaremos brevemente, enquanto a segunda será nosso ponto de partida para discorrer sobre o filme de Rondi.
A grande questão levantada pela primeira noção de realismo é, justamente, não haver consenso sobre a realidade. Para alguns, a terra é redonda, para outros, ela é plana; para muitos espíritas, a reencarnação faz parte da realidade, enquanto para os evangélicos, tal concepção chegaria a ser pecaminosa. Dessa maneira, quando esses tópicos se expressam na arte, o grau de realidade atribuído a eles dependerá dos pontos de vista previamente aceitos por cada espectador, portanto, dependerá dos graus de alienação de cada um diante do materialismo histórico. Outrossim, na arte, as palavras, imagens, sons etc. não devem ser tomados literalmente, sempre há metáforas e outras figuras de linguagem capazes de complexificar as noções de realidade, delírio e ficção, fazendo obras com personagens supostamente irreais serem, uma vez decodificadas aquelas figuras de linguagem, bastante próximas dos fatos históricos. O célebre livro de George Orwell, “A revolução dos bichos”, por exemplo, denuncia o stalinismo por meio de metáforas, com os animais no lugar dos seres humanos, e de metonímias, com a fazenda podendo significar quaisquer sociedades revolucionárias.
A segunda noção de realismo permite discussões menos pessoais e mais técnicas, pois envolve termos específicos da história da arte. Em linhas gerais, o Realismo e o Naturalismo, surgidos no século XIX, dialogam com o Romantismo, buscando afirmarem-se por meio do romance de tese, no qual o autor defende suas posições com dados sociais colhidos objetivamente. Na literatura brasileira, José de Alencar, associado ao Romantismo, concebe, em seus romances “O guarani” e “Iracema”, origens míticas do povo brasileiro por meio de metáforas, entre elas, a união do casal Peri e Cecília e a desunião do casal Iracema e Martim; diferentemente, Aluísio Azevedo, ligado ao Realismo e ao Naturalismo, nos romances “O cortiço” e “Casa de pensão”, procura aproximar suas personagens, sem metáforas, de pessoas concretas em suas relações sociais.
Quando ao Realismo são incorporados o marxismo e o materialismo histórico, surge, então no século XX, o Neorrealismo, notabilizado pelo cinema italiano e pela literatura portuguesa. Tal discussão, evidentemente, não se esgota nos limites de nossa coluna, entretanto, embora expostos com ligeireza, os conceitos anteriores permitem compreender o projeto artístico no qual se insere “O demônio”, de Rondi.
O filme lembra de “A terra treme”, 1948, de Luchino Visconti, basta substituir a vila de pescadores por uma vila de camponeses e a trama da emancipação econômica frustrada de uma família pela história do amor fracassado de uma camponesa, traída por seu amante, quem se casa com outra mulher. Semelhantemente a Visconti, Rondi narra os costumes dos camponeses, enfatizando as tradições religiosas, uma vez que Purif, a protagonista da história, vendo-se preterida, apela para feitiços e pactos com o demônio buscando recuperar o amante.
Seguindo as tradições Neorrealistas, Rondi opta por descrever, semelhantemente aos documentaristas, a geografia do lugar, a distribuição habitacional da vila, com a igreja na praça central e os casebres na periferia, os trajes adequadamente escolhidos para cada situação social, o interior das casas, as relações familiares centradas nos pais e nos maridos e, como característica singular do filme, os sincretismos entre costumes pagãos e o cristianismo.
Quando Antonio, por quem Purif é apaixonada, casa-se com outra moça, há o casamento oficial na igreja, todavia, antes do casal viver a noite de núpcias, os pais de cada um deles os abençoam, distribuindo séries de amuletos ao redor do quarto e da habitação por meio de costumes bem pouco cristãos. Além disso, na iminência de tempestades perigosas para as plantações, a população se põe a gritar e a balançar sinos e campanas, almejando espantar as nuvens carregadas, e Purif é profunda conhecedora de feitiçaria, utilizada em diversos rituais na recuperação das atenções de Antonio.
Nessas circunstâncias, o que faria do filme de Rondi uma trama Neorrealista, colocando-se além da simples descrição realista de vilas camponesas? Por ser cinema próximo do terror, a trama se aproxima das descrições naturalistas quando trata da sexualidade reprimida de Purif e Antonio e das expressões distorcidas dos supostos demônios e fantasmas presentes na narrativa, contudo, as tensões entre paganismo, cristianismo e as condições sociais dos camponeses, enquanto motores da história e das desventuras de Purif, apontam para o materialismo histórico tematizado no filme.
Não quero pôr a perder a sessão de cinema dos companheiros adiantando finais, mas o filme termina em feminicídio; incapaz de lidar com a irresistível atração sentida por Purif, Antonio a assassina brutalmente na última cena. Não apenas seu amante a evita; Purif é acossada pela própria família, pelos vizinhos, pelas autoridades clericais, sejam elas padres ou freiras, e inclusive o benzedeiro da vila, um representante do paganismo, termina abusando dela sexualmente, cabendo indagar por que uma camponesa termina vítima de tantas perseguições.
Longe de analisar o filme, é possível levantar, pelo menos, dois motivos para tamanha desdita, isto é, Purif resistiria à opressão cristã por meio de suas práticas pagãs, tomadas por feitiçaria, e por ser sexualmente ativa, o que não deixa de ser, nas circunstâncias históricas da vila, uma forma de paganismo. A expansão do cristianismo é evento histórico contraditório, sem ele muitos documentos não seriam preservados, entretanto, por ele, muitos foram queimados; se a igreja trouxe civilização, também promoveu barbaridades, entre elas, a repressão do corpo e seus prazeres. No filme, Rondi explicita isso em todas as cenas protagonizadas por Purif, vivida por Daliah Lavi, uma atriz belíssima, cuja sensualidade se expressa intensamente a cada investida do aparato repressor, sempre medonho.
Seria a beleza uma forma de resistência e, até mesmo, algo revolucionária? Tal questão é ainda mais contraditória que os revezes da igreja católica… se as desventuras de Purif remetem aos papéis da beleza e suas contradições, elas, consequentemente, revestem os valores de vida, os quais, embora sempre frustrados, nunca deixam de ser celebrados por Purif, mesmo na hora de sua morte.
Desejando uma boa sessão de cinema aos companheiros, o filme “O demônio” está completo no YouTube neste endereço:





