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Ricardo Rabelo

Ricardo Rabelo é economista e militante pelo socialismo. Graduado em Ciência Econômicas pela UFMG (1975), também possui especialização em Informática na Educação pela PUC – MINAS (1996). Além disso, possui mestrado em sociologia pela FAFICH UFMG (1983) e doutorado em Comunicação pela UFRJ (2002). Entre 1986 e 2019, foi professor titular de Economia da PUC – MINAS. Foi membro de Corpo Editorial da Revista Economia & Gestão PUC – MINAS.

Economia internacional

Mapa de sanções: os tentáculos do imperialismo

O presidente Lula na Assembleia Geral da ONU criticou as sanções unilaterais dos Estados Unidos e da União Europeia contra vários países

O presidente Lula na Assembleia Geral da ONU criticou as sanções unilaterais dos Estados Unidos e da União Europeia contra vários países. Disse que “As sanções unilaterais causam grande prejuízos à população dos países afetados. Além de não alcançarem seus alegados objetivos, dificultam os processos de mediação, prevenção e resolução pacífica de conflitos. O Brasil seguirá denunciando medidas tomadas sem amparo na Carta da ONU, como o embargo econômico e financeiro imposto a Cuba e a tentativa de classificar esse país como Estado patrocinador de terrorismo.” Sobre esta última questão vê-se quem é patrocinador do terrorismo ao saber que em 24 de setembro uma bomba foi explodida da Embaixada de Cuba em Washington. 

É assim com todas as sanções do imperialismo contra os países que acusa de uma série de crimes. Mas o criminoso é sempre o imperialismo que lança seus tentáculos sobre o mundo para gerar destruição e morte. As sanções revelam mais que nada este lado perverso e violento do imperialismo, em especial o norte-americano. O governo dos Estados Unidos criou uma vil burocracia, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) do Departamento do Tesouro dos EUA. Ele é o encarregado de pesquisar os países alvo, para saber quais são seus principais pontos fracos e elaborar medidas legais para atacar estas “debilidades” para conseguir causar maior dano ao país ou a pessoa visada.

 O detalhe é que essas medidas legais não vigoram apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo para impedir que qualquer empresa ou pessoa em qualquer lugar do mundo comercie ou negocie com o país em questão. Pode ser que o país queira apenas obter no comércio internacional coisas altamente necessárias para seu povo, como alimentos, remédios, máquinas para produzir bens úteis , não importa. Sem qualquer escrúpulo, o governo dos Estados Unidos vai atacar exatamente estas necessidades para matar o povo daquele país de fome ou de doenças. Se o país produz uma mercadoria com muito valor de mercado, como petróleo, por exemplo, ele não poderá vendê-la em nenhum lugar, porque o país que comprá-la poderá também entrar na lista de sancionados. 

Um dos países que mais tem sofrido com as sanções unilaterais dos Estados Unidos é justamente a Venezuela, que tem como produto principal de exportação exatamente o petróleo. O que os Estados Unidos têm feito com a Venezuela é muito pior que qualquer guerra convencional. 

Desde 2014, a Venezuela tem sido atingida por cerca de mil sanções contra a economia, as finanças públicas, a indústria petrolífera e o comércio externo por parte dos Estados Unidos, de outros governos e do sistema financeiro internacional. Estas sanções bloquearam operações com títulos venezuelanos, impuseram a virtual paralisação da indústria petrolífera venezuelana e estabeleceram severas restrições ao acesso do país a alimentos, medicamentos, matérias-primas e bens essenciais, incluindo vacinas durante a pandemia de covid-19. 

Estas medidas coercivas unilaterais (MCU) são totalmente ilegais segundo a ONU e até criminosas – atingem a economia do país e impõem impactos violentos na obtenção de bens necessários à própria sobrevivência pela população do país. As receitas com exportação da Venezuela caíram 90% entre 2015 e 2022, gerando um enorme déficit no orçamento nacional e impedindo a continuidade da oferta de serviços públicos essenciais e programas destinados à proteção social. Economicamente, elas estimularam a fuga de divisas, a desvalorização brutal da moeda e geração da hiperinflação, além de impedirem os investimentos, com o consequente fechamento de empresas e a queda do produto interno bruto. 

Em resposta a essa situação, a Venezuela conseguiu, com forte mobilização social e a manutenção de uma vibrante democracia, se reorganizar política, econômica e socialmente. Desde 2021, a Venezuela voltou a apresentar crescimento econômico mesmo sem que uma única sanção fosse revogada. Um conjunto de medidas de política econômica inteligentes e ações antibloqueio – e com a retomada da produção e exportação de petróleo – tornaram possível a reativação da economia. A Venezuela liderou o continente em crescimento em 2022 e estará entre os países que mais crescerão na América Latina e no Caribe em 2023

Outra ação importante do Governo Venezuelano se deu também juntamente com a Assembleia Geral da ONU. Os representantes venezuelanos na ONU apresentaram uma arma importante para expor para todo o mundo toda a violência criminosa do imperialismo contra a humanidade. Trata-se com Mapa Geopolítico de Sanções Econômicas. A ferramenta foi desenvolvida junto com o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos e mostra visualmente quais são aos países ou regiões que são atingidas pelas sanções.

 É possível constatar pela visão geral do mapa que são os países emergentes nos continentes da América Latina, África e Ásia que sofrem as sanções, enquanto América do Norte e Europa não apresentam nenhuma mancha vermelha que simboliza a sanção. Ao clicar-se nestas manchas mostra-se qual o país em questão e informações resumidas com o número de sanções e o ano de início das sanções. Ao se clicar em Saiba Mais, abre-se uma tela com dados e informações pormenorizadas das sanções em questão. Consta, inclusive, o nome do país sancionador, geralmente os Estados Unidos. 

O mapa está disponível no link https://observatorio.gob.ve/mapa-geopolitico-de-sanciones/. É possível pesquisá-lo em português, clicando em um ícone na parte superior direita do mapa.

O imperialismo não está obtendo os resultados políticos e sociais esperados

 Apesar dos danos irreparáveis causados pelas sanções contra os países -alvo, com muito sofrimento, fome, miséria e mortes que tem causado, o imperialismo está sendo derrotado pelos países sancionados. Porque o objetivo principal que os Estados Unidos têm com estas sanções é tipicamente fascista e colonial: submeter os países à sua dominação, impedir que eles mantenham sua soberania nacional e se desenvolvam economicamente e principalmente a derrubada do governo e sua substituição por um governo dócil e submisso.

Isso não ocorreu até agora em nenhum país sancionado. 

O maior exemplo nesse aspecto é o caso da Rússia. Em meados de março de 2022, o país sofreu um enorme número de sanções além do bloqueio comercial e da expropriação dos seus ativos em bancos estrangeiros, em consequência da operação militar especial da Rússia na Ucrânia. Estas medidas, implementadas pelos EUA, UE, Japão, Canadá, Suíça e outros países, visavam especificamente afetar a economia e as finanças russas, para criar um pânico interno que gerasse a derrubada do Governo Putin. Sendo a Rússia o principal fornecedor de energia e alimentos para a Europa, o resultado imediato foi a inflação, falta de alimentos e problemas na distribuição de fertilizantes na região.

Hoje, apesar dos danos iniciais causados ao país, a liderança russa tem tomado medidas para continuar a estabilizar a economia. Num relatório recente, o Fundo Monetário Internacional (FMI) melhorou as previsões feitas em outubro passado para a economia russa, que fixava uma queda de 2,3% em 2023 e indica agora que o Produto Interno Bruto (PIB) crescerá 0,3% este ano. Para 2024 prevê um aumento de 2,1%. 

O próprio New York Times reconhece que há um redesenho dos fluxos comerciais globais à medida que os laços da Rússia com a Europa se afrouxam e novas alianças são formadas. Os dados confirmam estas afirmações porque se for comparada a média mensal do comércio de 2017 a 2021 da Rússia com outras nações, observa-se que no último ano cresceu 70% com a China; 310% com a Índia, 198% com a Turquia, 106% com o Brasil e 57% com a Espanha. 

A Rússia tem conseguido manter, além da parceria estratégica com a China, boas relações nas regiões Ásia-Pacífico, Médio Oriente, África e América Latina. E isso fica claro com a participação da Rússia nas principais organizações criadas por países emergentes: a União Africana, a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos, a Associação das Nações do Sudeste Asiático, e o BRICS.

O imperialismo norte-americano e os seus dóceis aliados não calcularam o potencial interno que a Rússia tem, incluindo o seu desenvolvimento energético, a metalurgia, a produção de materiais de construção, os enormes centros industriais, a engenharia mecânica e o complexo industrial militar, que impulsionam a economia. 

Agora temos o efeito bumerangue das medidas contra o petróleo e o gás russos, impostas pela burguesia americana e europeia, com o aumento do preço do petróleo bem acima do preço máximo que tentaram estabelecer em 60 dólares por barril. Por outro lado, a Europa, teve que baixar a cabeça e fazer compras recordes de gás natural liquefeito (GNL) russo, apesar da ordem contra de Bruxelas. Os dados mostram que os fornecedores de gás entregaram 2,3 bilhões de metros cúbicos de GNL russo à Europa em janeiro, dos quais 1,9 bilhões permaneceram na região. O volume é superior ao equivalente à média mensal das exportações russas de GNL para a UE, de 1,8 bilhões de metros cúbicos em 2022. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), os volumes de GNL russo que entraram na União Europeia em fevereiro de 2023 aumentaram para 2 bilhões de metros cúbicos. A Bélgica, a França e a Espanha representaram 80% destas importações.

Outro país que seguiu o mesmo caminho é o Japão, que importou 747.706 barris de petróleo do gigante euro-asiático em janeiro, segundo o relatório do Ministério da Economia, Comércio e Indústria de Tóquio. Será que os Estados Unidos vão tentar explodir também estes carregamentos de GNL russo?

As sanções têm sido aplicadas como punição há muito tempo, desde a agressão da OTAN contra o Iraque. Naquela época, a famosa Maddeline Albright respondeu que as sanções contra o Iraque, que mataram meio milhão de crianças iraquianas, tinham servido o seu propósito. Esse é o padrão da atuação de Washington: uma atrocidade sem fim, porque eles não se importam com os destinos da Humanidade e qualquer carnificina vale, se aumenta seu poder. 

Bashar Al-Assad, o líder da Síria, é talvez a pessoa mais sancionada do mundo. Ele ainda está vivo e no poder depois de anos desta política absurda e criminosa contra a Síria. Os Estados Unidos se apossaram de uma parte do território da Síria exatamente na região onde há mais petróleo. E o que fazem lá é simplesmente extrair o petróleo e transportá-lo em caminhões para vendê-lo no Iraque. O roubo, puro e simples, é o que caracteriza a ação dos Estados Unidos, assim como fizeram com as reservas internacionais da Rússia e do Afeganistão e com a empresa de distribuição de combustíveis Citi go da Venezuela. Aves de rapina, nada mais.

Os líderes da Rússia, Venezuela, Irã e outros também são inutilmente sancionados. Que sucesso os EUA podem mostrar depois de sancionar 29% da economia global? Nenhum, além de ter espalhado a miséria, a fome e as doenças no mundo.

A China vem enfrentando uma quantidade enorme e direcionada de sanções contra suas indústrias de alta tecnologia. Ela acaba de responder às sanções com algo devastador para a indústria informática dos EUA. A China é o principal produtor mundial de dois minerais de terras raras essenciais para a indústria de informática dos Estados Unidos: gálio e germânio. 

A China anunciou recentemente que decidiu impor controles à exportação destes dois minerais de terras raras. Eles são vitais para o sector estratégico mais importante da indústria norte-americana, porque afeta a produção de painéis solares essenciais em projetos de substituição da energia fóssil e da produção de armas controladas remotamente num momento crucial para a política internacional dos Estados Unidos. Ocorre que a China controla 60% do comércio de minerais de terras raras. A intenção da China é paralisar a indústria norte-americana que depende de microchips. Mais um efeito bumerangue das sanções unilaterais…

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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