Identitarismo = moralismo

Identitário crê na ‘reforma interior’ para mudar a sociedade

A defesa do identitarismo esbarra no moralismo e sua maior função é pulverizar e enfraquecer a luta de classes

Silvio Almeida

Mais uma vez estamos às voltas com o identitarismo se infiltrando na política. Desta vez, temos matéria de João Paulo Martinelli, intitulada “O ministro dos Direitos Humanos”, onde se exalta a nomeação de Silvio Almeida ao cargo de ministro.

No início do segundo parágrafo da matéria lemos que “a começar pelo discurso de posse, Silvio vem se mostrando conectado com a realidade. Ora, uma das coisas que chama a atenção no discurso é sua ênfase na punição. Em um país onde justamente o negro e as pessoas pobres, de um modo geral, sofrem com o encarceramento, o que podemos pensar sobre a proposta de Silvio Almeida de que todo o ato ilegal, baseado no ódio e no preconceito, será revisto por mim e pelo Presidente Lula, que sempre teve compromisso com a Democracia.

Todos sabemos que quanto mais crescem as punições, mais os trabalhadores ou pessoas de poucas posses serão penalizadas. As pessoas ricas nunca serão encarceradas por racismo, por ódio, ou sabe-se lá o quê. Por outro lado, o cidadão médio, um desavisado que, por exemplo, em uma briga de trânsito ofenda alguém, esse vai se ver com a justiça.

Como sempre, temos o repisado tema de que O reacionarismo, que se disfarçou de conservadorismo, difundiu-se pelo país, pregando um padrão (falso) moralista de comportamento, baseado na família tradicional formada por homem, mulher e prole, com casa e trabalho, submissão feminina e masculinidade predominante. Esse modelo, o da família burguesa é uma exigência, ou uma decorrência, do próprio capitalismo. E é preciso notar que nas camadas mais pobres da sociedade a família não consegue se manter. Se, antes, servia a para reprodução da mão de obra, a família, com a decadência do capitalismo, está em franca decomposição, pois a remuneração do trabalhador não permite sua manutenção.

O texto também recorre à ideia de racismo estrutural vem sendo desenvolvida por Silvio com o intuito de demonstrar, em apertada síntese, que não basta não ser racista, é preciso ser antirracista se quisermos reduzir as desigualdades entre grupos dominantes e dominados. Primeiro, Silvio Almeida não conseguiu demonstrar em seu livro do que se trata o tal “racismo estrutural”. Segundo, a redução das desigualdades não depende de sermos antirracistas, mas da superação do capitalismo. Enquanto perdurar esse modo de produção, e determinados elementos forem relegados às funções subalternas, serão vítimas de preconceitos. O nordestino que migrou para o Sul do Brasil à procura de trabalho e só conseguiu colocação na obra civil ou em funções secundárias, foi vítima de preconceito. O mesmo ocorre com as mulheres, que historicamente foram presas ao trabalho doméstico.

Segundo o artigo, Temos que olhar, primeiro, para dentro de nós mesmos e questionar como podemos ajudar nessa transformação. Poucos que estão na condição de privilegiados enxergam que meritocracia é uma das utopias criadas para esconder a segregação que formou a nação. Isso não passa de uma visão moralista, religiosa, dos problemas sociais. Esperar que as pessoas olhem para dentro de si, se reformem espiritualmente, para que assim passem a agentes de uma transformação não passa de utopia. De onde viria a motivação para uma reformulação do eu?

A farsa da posição de poder

Martinelli, parafraseando Silvio Almeida, diz que que não podemos aceitar que os negros não consigam atingir altos cargos nas estruturas políticas e corporativas (grifo nosso). Aqui deparamos com um problema do identitarismo, que é o de alçar pessoas de determinadas identidades a posições de mando. No entanto, que garantia temos de que isso seja, por si, benéfico? Vejamos: Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, apelidado de ‘bolsogay’ (por ter apoiado Bolsonaro e se declarado gay), acaba de tomar mais uma medida que prejudica a Educação. Não será mais exigido um percentual mínimo de 75% de presença nas aulas para a aprovação dos alunos. Ora, em que isso beneficia, por exemplo, os alunos LGBTQIAPN+ que estudam na rede pública? A vida dessas pessoas vai piorar, pois terão mais dificuldades de se colocarem no mercado em decorrência de uma formação precária. De que adiantou uma pessoa de uma minoria em alto cargo?

Podemos ficar horas citando pessoas de minorias que ocuparam altas posições e em nada melhorou a vida das minorias. Os Estados Unidos tiveram um presidente negro, o mais alto posto político de um país, e a vida dos negros melhorou? Margareth Thatcher, que durante tanto tempo foi primeira-ministra do Reino Unido, só fez piorar a vida das mulheres dentro e fora de seu país.

O óbvio

Esse texto trata de coisas que são senso comum: a importância se respeitar as diferenças, aceitar o outro etc. O problema é que o identarismo trata isso de uma maneira moralista. Para piorar, enquanto trata de minorias, de identidades, as lutas sociais vão se enfraquecendo pois vão se pulverizando.

O resultado das políticas identitárias é o exato oposto daquilo que pregam. Com a divisão das lutas das mulheres, por exemplo, entre feministas negras e feministas brancas, como estamos vendo acontecer, as mulheres terão menos força para obter conquistas sociais.

Enquanto isso, porque uma mulher negra se torna vice-presidenta dos Estados Unidos, se vende a ilusão de que isso é uma conquista e um passo a mais rumo à democracia.

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