Ascânio Rubi

Ascânio Rubi é um trabalhador autodidata, que gosta de ler e de pensar. Os amigos me dizem que sou fisicamente parecido com certo “velho barbudo” de quem tomo emprestada a foto ao lado.

Coluna

Hamas minou a credibilidade da defesa de Israel, diz escritor

Imprensa burguesa, em surto sionista, cava oportunidade de constranger o governo Lula

No dia 29 de novembro de 1947, foi assinada a Resolução 181 da ONU, na qual se definia, sem consulta ao povo, a partição da Palestina em dois Estados. Assim se concretizava o projeto sionista de criação de Israel, cuja fundação se daria no ano seguinte. A data passou a ser celebrada como Dia Internacional da Solidariedade com o Povo Palestino. Neste 2023, o dia 29 (ontem) reuniu nas ruas de todo o mundo milhares de manifestantes, que já não conseguem assistir calados ao genocídio perpetrado por Israel. A imprensa burguesa, no entanto, já reduziu a cobertura do conflito a uma nota de pé de página.

No caso da Folha de São Paulo, que se diz “o maior jornal do país”, o que vimos no início da semana foi um espaço privilegiado concedido ao escritor americano-israelense Yossi Halevi, apresentado pelo jornal como “uma das principais vozes do pacifismo na região” (Palestina/ Israel). A repórter que o entrevistou conseguiu a proeza de, na mesma frase, dizer que o homem defende a paz e “a ofensiva contra Gaza”, que ele considera “uma necessidade para ‘purgar a humanidade de um mal profundo’”.

Que o jornal da burguesia dê voz a um sionista radical já não surpreende. Temos visto clara demonstração de que a cobertura dessa imprensa apenas reproduz as orientações de Israel e dos EUA, sem pejo de incorrer até nas mais fantasiosas “fake news”, dignas dos “tiozões do zap”, como dizem nossos amigos da esquerda pequeno-burguesa. O que ainda poderia causar algum espanto é a adesão dos próprios jornalistas da empresa a esse viés, agora sem a preocupação de simular algum grau de “neutralidade”.

Segundo a repórter, Halevi “demonstra sem melindres o ponto de virada que os ataques terroristas do Hamas no 7 de Outubro representaram”. Do nome “Hamas” sai o inevitável link para a definição do jornal.

Abra-se aqui um parêntese para reproduzir a definição de Hamas para a qual remetem os links de todos os textos do jornal sobre o conflito:

O Hamas é uma organização terrorista islâmica da Palestina ativa, principalmente, na Faixa de Gaza. Seu chefe militar é Mohammed Deif. Em seu estatuto, o Hamas se comprometeu com a destruição de Israel. Em outubro de 2023, combatentes do Hamas fizeram massacre e reféns no sul do país, e Israel declarou guerra”.

Caso o leitor abrisse o site da Wikipédia, que está muito longe de ser uma “organização de esquerda”, leria o seguinte no verbete Hamas:

“O Hamas (em árabe: حماس, translit. amās, (lit. “zelo”, “força” ou “bravura”), oficialmente conhecido como Movimento de Resistência Islâmica (em árabe: حركة المقاومة الإسلامية, translit. arakat al-Muqāwamah al-ʾIslāmiyyah) é uma organização política e militar palestina de orientação sunita islâmica, que governa a Faixa de Gaza nos territórios palestinos ocupados por Israel. Com sede na Cidade de Gaza, o Hamas também tem presença na Cisjordânia, o maior dos dois territórios palestinos, onde seu rival secular, o Fatah, exerce controle”.

Fechemos, porém, o parêntese. As perguntas feitas pela jornalista, como se diz popularmente, apenas levantam a bola para o “pacifista” cortar. Ela: “O sr. também disse que esta onda global antissemita traz à tona o trauma judeu do isolamento…”. Ele: “Para os judeus, o que aconteceu em 7 de outubro foi um surto de pura maldade. Ainda assim, grande parte do mundo trata a reação de Israel como tão ruim quanto o próprio massacre ou pior. Esse é o maior pesadelo judeu: ser massacrado e depois ser culpado por ser o agressor”. Mesmo assim, em outro momento, o mesmo entrevistado diz que o “éthos de Israel” não é ser vítima (“Não vemos nada de nobre em ser vítima”).

Como não poderia deixar de ser, a repórter faz a pergunta da qual espera colher o título da matéria: “O sr. tem acompanhado as declarações do presidente Lula sobre a guerra?”. Dirá o entrevistado: “Qualquer pessoa que reaja com maior indignação à resposta de Israel ao massacre do que ao próprio massacre tem uma falha moral. Não me sinto obrigado a ouvir ou respeitar essas vozes. Vejo essas vozes com desprezo. As pessoas que estão me tratando como se eu fosse um praticante de genocídio em vez de alguém que está tentando se defender contra uma ameaça genocida não têm nenhum direito moral sobre minha consciência. E se o presidente do Brasil se encaixa nessa categoria, se a carapuça servir, que assim seja”.

A repórter tratou logo de enfiar a carapuça no presidente Lula e intitulou o texto: “Lula mostra falha moral em sua resposta à guerra, diz autor americano-israelense”. É claro que a Folha não perderia a oportunidade de constranger o governo Lula, mas, entre todas as considerações que o “pacifista sem melindres” fez, talvez a mais interessante seja a constatação de que a operação do Hamas em 7 de outubro “minou a credibilidade da força de defesa israelense”.

Ele chega a citar o líder do Hezbollah: Cerca de 15 anos atrás, Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, disse que Israel é como uma teia de aranha —parece formidável por fora, mas, assim que tocada, desintegra-se. Em 7 de outubro, Israel provou que era uma teia de aranha”. Diante disso, só nos resta reconhecer que o Hamas deve ser mais que uma “organização terrorista”, como quer a imprensa burguesa.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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