Acordos de Abrãao e Arábia

Guerra melou normalização entre países árabes e Israel

Países árabes se aproximam da China enquanto política dos Estados Unidos fracassa no Oriente Médio

Juca Simonard, especial para o DCO

O início da atual guerra entre a resistência palestina e Israel melou os recentes acordos (ou esboços de acordo) para normalizar as relações diplomáticas entre os países árabes e o Estado sionista. Os acordos, que foram promovidos pelos Estados Unidos em busca de tirar os israelenses do isolamento no mundo árabe, ficaram incertos a partir do massacre e genocídios promovidos por Israel na Faixa de Gaza após 7 de outubro, quando ocorreu a Operação Dilúvio al-Aqsa liderada pelo Movimento Resistência Islâmica (Hamas, na sigla em árabe).

O caso mais chamativo é o da Arábia Saudita, que vem adotando uma postura, apesar de capituladora, mais dura contra o Estado de Israel. A situação geral dos países árabes pode ser vista na delegação de nações islâmicas e árabes que está em uma turnê pelos cinco estados membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU). Diante da pressão em seus próprios regimes, onde o povo apoia massivamente a luta dos palestinos contra o sionismo, com gigantescas mobilizações nas ruas, esses países enviaram seus delegados para defender o cessar-fogo na guerra.

Segundo o jornal catari Al Jazeera, eles querem também permitir que mais ajuda humanitária chegue à Faixa de Gaza e solicitar o apoio dos cinco membros do conselho para os palestinos alcançarem um Estado independente (What’s behind the Arab-Islamic ministerial tour of UNSC states?, 23/11/2023). Essa delegação foi formada em uma cúpula da Liga Árabe e da Organização de Cooperação Islâmica (OCI) em Riade, capital da Arábia Saudita. Ela inclui representantes de Egito, Indonésia, Jordânia, Nigéria, Autoridade Palestina, Arábia Saudita, Catar e Turquia (esses dois últimos com profundas relações com o Hamas e a Irmandade Muçulmana), além do secretário-geral da OCI, Hissein Brahim Taha, nascido no Chade.

Os delegados árabes e muçulmanos iniciaram sua turnê na China, onde se encontraram com o ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, em Pequim, no dia 20 de novembro. Após o início da visita, iniciaram a discussão sobre a trégua temporária (ou “humanitária”) entre Israel e a resistência palestina, liderada pelo Hamas. Na manhã da quarta-feira (22), ela foi anunciada.

Antes do anúncio, os delegados visitaram outros países. Seguido da China, eles se reuniram com o ministro das Relações Exteriores russo, Sergey Lavrov, em Moscou, na terça-feira (21), e o secretário de Relações Exteriores do Reino Unido, David Cameron, mais tarde, em Londres. Na quarta-feira, houve uma reunião com o presidente francês Emmanuel Macron.

China no Oriente Médio

A China ter sido a primeira parada da delegação mostra a crise da dominação imperialista no Oriente Médio. Não são mais os Estados Unidos que aparecem como fator essencial da política na região, mas os chineses. Segundo Al Jazeera, “começar pela China surpreendeu os analistas que especularam sobre o que a delegação estava tentando sinalizar para as potências ocidentais” (idem). “Ao começar a viagem pela China, os estados islâmicos e árabes podem estar tentando reunir apoio global para apresentar a nações que têm apoiado Israel até agora” (idem).

Segundo Wang, a escolha da China como primeira parada indica a confiança que os países árabes têm dado à diplomacia chinesa. O ministro chinês, durante a reunião, também declarou que “a China sempre … apoiou firmemente a justa causa do povo palestino de restaurar seus legítimos direitos e interesses nacionais”.

Mas a influência da China no Oriente Médio vai além: em agosto, a China intermediou um acordo de paz entre Irã e Arábia Saudita, rivais históricos na região. Durante décadas, a Arábia Saudita foi um dos principais pontos de apoio do imperialismo norte-americano entre os países árabes, enquanto o Irã (desde a Revolução de 1979) era o principal impulsionador dos movimentos islâmicos nacionalistas (isto é, anti-imperialistas). Após o acordo mediado pela China, Irã e Arábia restabeleceram laços diplomáticos.

Randa Slim, pesquisadora sênior do Instituto do Oriente Médio, disse a Al Jazeera “a China sendo o primeiro destino visitado é uma mensagem aos Estados Unidos” (idem). De acordo com ela, Arábia Saudita e outros estados árabes estão dizendo aos EUA: “vocês não são mais a única potência na região”.

Pequim foi fundamental para incluir países árabes como novos membros do BRICS, entre eles Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes e Irã. As relações entre os árabes e China e os árabes se fortaleceu a partir do ano passado, principalmente com o aprofundamento da crise imperialista mundial observada com a guerra na Ucrânia e a derrota no Afeganistão após a vitória do Talibã em 2021.

Segundo o Instituto de Paz dos EUA, o acordo entre Arábia Saudita e Irã foi uma “vitória diplomática para a China, à medida que ela busca cada vez mais apresentar uma visão alternativa à ordem global liderada pelos EUA” (What You Need to Know About China’s Saudi-Iran Deal, 16/3/2023).

Acordos de normalização e imperialismo

Os chefes de Estado árabes alertaram o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, que o governo norte-americano buscaram normalizar as relações entre países árabes e islâmicos com Israel, mas deixaram de lado as reivindicações dos palestinos, contribuindo para a instabilidade na região (Biden didn’t make Israeli-Palestinian talks a priority. Arab leaders say region now paying the price, Associated Press, 17/10/2023).

Durante o governo Donald Trump, foram realizados os Acordos de Abraão, em 15 de setembro de 2020. Os acordos mediados pelos EUA estabeleceram a normalização das relações entre Emirados Árabes Unidos e Barém com Israel. Em outubro, o Sudão concordou formalmente em normalizar os laços com o Estado sionista. Em dezembro, em troca do reconhecimento dos EUA da reivindicação de Marrocos sobre o Sahara Ocidental, o país norte-africano aceitou normalizar relações. Em 2021, Omã e Jordânia também apontaram nesse caminho.

Neste ano, após o acordo Arábia Saudita-Irã, os EUA buscaram reagir. Em setembro, resultado dos Acordos de Abraão, foram realizados acordos durante a reunião do G20, em Nova Déli, Índia. Busca-se estabelecer o corredor Índia-Oriente Médio-Europa com um rota comercial que ligaria a Índia à Europa através do Golfo Pérsico. O porto de Haifa, em Israel, seria o local central para se conectar com a Europa através da Grécia. Essa medida é uma tentativa de competir com a China e sua Iniciativa Cinturão e Rota (ICR), e também explica porque a Índia adotou uma postura mais neutra em relação ao genocídio promovido por Israel (La censure militaire israélienne vous cache la vérité, Thierry Meyssan, Voltaire, 17/10/2023).

Arábia Saudita

Agora, no entanto, as relações políticas e econômicas do Estado sionista com os países árabes voltam a ficar instáveis, uma derrota para os EUA. Talvez a principal derrota seja a paralisação das negociações para normalização entre Arábia Saudita e Israel. Essas conversas dominavam as manchetes do Oriente Médio antes da operação do Hamas em 7 de outubro. Segundo o presidente dos EUA, Joe Biden, esse seria um dos motivos da operação do Hamas. Afirmando que não podia comprovar esse fato, Biden afirmou que o Hamas atacou Israel por causa das conversas com sauditas e israelenses (Insider Paper, X, 24/11/2023).

Um dos responsáveis pela paralisação (parcial ou total) das colaborações é, em primeiro lugar, a mobilização popular em apoio aos palestinos nas últimas seis semanas. Para os governos árabes que buscavam colaborar com o imperialismo e seu enclave no Oriente Médio, ficou claro que ou eles tinham uma atitude mais forte em defesa da Palestina, ou entravam em uma crise política gigantesca.

Antes do início do conflito atual, os sauditas condicionaram as relações diplomáticas com Israel à resolução da ocupação israelense da Palestina. O governo israelense, naturalmente, era contra, criando um empecilho na mediação feita pelos EUA. Agora, com o massacre em Gaza que matou 15 mil palestinos e transformou a faixa em ruínas, a situação não se desenvolverá.

É um tapa na cara do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. Durante seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas em 20 de setembro, o premiê israelense segurou um mapa do “Novo Oriente Médio”, excluindo a Palestina. Ele disse: “a paz entre Israel e a Arábia Saudita realmente criará um novo Oriente Médio”, acrescentando que “tal paz irá longe para encerrar o conflito árabe-israelense. Isso incentivará outros Estados árabes a normalizar suas relações com Israel.”

Em 8 de outubro, um dia após a operação do Hamas, o príncipe Faisal bin Farhan, ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita, disse que seu país rejeita o ataque a civis desarmados “de qualquer maneira”, mas responsabilizou Israel pela ofensiva. Uma política capituladora, visto que condenava parcialmente a resistência palestina, mas que colocava a culpa principalmente em Israel.

No entanto, com o prolongamento do conflito e a crise dos regimes árabes frente a mobilização popular, os sauditas subiram o tom. Em 30 de outubro, Riade fortaleceu sua coordenação política com o Irã, através de uma reunião entre Farhan e o ministro das Relações Exteriores iraniano, Hossein Amir-Abdollahian. “Em 3 de novembro, os sauditas começaram a se comunicar com outros atores políticos não-ocidentais, liderados pela China, que desafiou repetidamente a posição dos EUA no Conselho de Segurança da ONU e sua obstinação em rejeitar um cessar-fogo imediato e incondicional”, informou Al Jazeera  (What’s behind the Arab-Islamic ministerial tour of UNSC states?, 23/11/2023).

Em 11 de novembro, os sauditas sediaram duas conferências, uma da Liga Árabe e outra da Organização de Países Islâmicos (OIC), articuladas por Farhan. No entanto, enquanto países como Síria, Irã, Catar e Turquia defenderam um boicote total a Israel, outros países, como Emirados, Marrocos e a própria Arábia não concordaram com essa política.

No entanto, a política saudita tem evoluído em direção oposta à do imperialismo. O príncipe herdeiro saudita Mohammed Bin Salman, chefe de facto da Arábia Saudita, denunciou os aliados de Israel, destacando que eles contribuíram “para o fracasso do Conselho de Segurança e da comunidade internacional em pôr fim às flagrantes violações israelenses das leis internacionais” (From Neutrality to Weapons Embargo: Evolution of Saudi Language on Israel’s War in Gaza, The Palestine Chronicles, 22/11/2023).

O príncipe Farhan destacou: “Estamos começando a ver uma mudança nas posições, ainda não o suficiente, mas caminhando na direção certa […] Estamos começando a ouvir que países que costumavam dar a Israel um cheque em branco agora falam sobre proteger civis e a importância de conduzir combates dentro dos limites do Direito Internacional Humanitário e pausas humanitárias”.

Portanto, embora os sauditas tenham descartado o uso de sua influência econômica e política para impor um embargo aos países ocidentais que apoiam e financiam a guerra israelense em Gaza, a Arábia Saudita subiu o tom contra Israel. Na cúpula extraordinária do BRICS em 21 de novembro, Bin Salman condenou “os crimes brutais que Gaza está testemunhando contra civis inocentes”, exigindo que a comunidade internacional “ponha fim a este desastre humanitário” (idem).

Ele voltou a condenar “a agressão israelense à Faixa de Gaza”, rejeitando qualquer “pretexto que a justifique” e, talvez mais importante, “instando todos os países a pararem de exportar armas e munições para Israel” (idem). Essa última fala demonstra uma mudança de atitude de Riade nos últimos dias.

A política saudita, no entanto, ainda é muito conciliadora diante da envergadura do massacre promovido por Israel na Palestina. Ao contrário, Síria, Líbano, Iraque e Irã estão mais diretamente envolvidos na guerra. Enquanto Turquia e Catar atuam como mediadores das negociações com o Hamas. Mesmo assim, a evolução da Arábia Saudita, país mais influente da Península Arábica, contra a política do imperialismo revela um grau alto da crise da dominação dos EUA no Oriente Médio. No entanto, o próprio regime saudita está ameaçado pelo povo diante da omissão na guerra. O povo árabe quer uma política mais direta contra o genocídio israelense, e está disposto a derrubar seus governos para isso. Quem não entender o recado, será ultrapassado.

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