Ascânio Rubi

Ascânio Rubi é um trabalhador autodidata, que gosta de ler e de pensar. Os amigos me dizem que sou fisicamente parecido com certo “velho barbudo” de quem tomo emprestada a foto ao lado.

Ongueiro, porém honesto

Grana das ONGs estrangeiras é “solidariedade internacional”?

Dinheiro das ONGs estrangeiras escoa para quem diz o que o imperialismo quer propagar

A campanha do programa Greg News em favor da escolha de uma mulher negra para ocupar a vaga de Rosa Weber no STF já deu muito pano para manga. O próprio Gregório Duvivier, a voz que entoa o roteiro do programa, tem vindo a público explicar as próprias boas intenções, mesmo reconhecendo que, de improviso, não argumenta tão bem quanto “o programa”. Assim, nada mais natural que ser concedida a palavra ao roteirista, Bruno Torturra, que escolheu o canal da Revista Fórum, do amigo Renato Rovai, para explicar por que o dinheiro das ONGs internacionais é não só muito bem-vindo como também honesto.

Torturra, em sua fala, acusa de desonestos todos aqueles que levantam suspeita acerca das campanhas encabeçadas por ONGs financiadas por instituições como a Open Society Foundation, de George Soros, a Fundação Ford ou a Fundação Obama, do ex-presidente norte-americano, entre muitas outras entidades internacionais que distribuem dinheiro em países da América Latina, da Ásia e da África. Segundo Torturra, que reconhece já ter recebido muito “dinheiro internacional”, inexiste qualquer relação entre supostos interesses dos países imperialistas nos países da periferia do sistema e os recursos que a estes são destinados por tais entidades na forma de apoio a causas ecológicas e identitárias. A coisa se explica, nas palavras dele, por “solidariedade internacional”, o que nos leva a concluir que esse tipo de filantropia seria mais ou menos a mesma coisa que um país enviar ajuda humanitária a Cuba, que é vítima de um embargo econômico há mais de 60 anos.  Acredite quem quiser.

Torturra faz uma defesa quase apaixonada desse “dinheiro solidário”, que chegaria sem rubrica, enquanto Rovai assegura que o amigo vive sem luxos, dando a entender que ele é um cara legal, de classe média etc. A esta altura, estamos todos curiosos para saber como conseguir um pouquinho dessa solidariedade em nossa conta bancária, coisa que Torturra, ao que tudo indica, não achou oportuno explicar, como costuma fazer no Greg News para o gáudio da audiência.

Duvivier, falando aqui e acolá, já disse, entre outras platitudes, que o golpe de 2016 se deveu ao fato de Dilma ter incorporado Joaquim Levy ao ministério, o que teria posto contra ela a própria militância do PT, que, assim, em 2013, teria transformado as manifestações pela tarifa zero nos transportes em um movimento pró-impeachment. Convenhamos que o simplismo dessa explicação é bastante conveniente aos golpistas de 2016, que saem praticamente ilesos, se não como verdadeiros salvadores da pátria. Eis uma opinião que, veiculada por alguém com espaço na imprensa e notoriedade nas redes sociais, pode merecer uma gorjeta. Sabe-se lá.

Fato é que o próprio Gregório, irritado com a repercussão negativa do seu esquete político-humorístico, acabou revelando em rede social que a diretora do seu programa, Alessandra Orofino (que, como ele, também assinou coluna na Folha de São Paulo), é “fellow” da Fundação Obama. O termo “fellowship” é usado, no âmbito acadêmico, para designar bolsas de estudo, em geral, de pós-graduação (o famoso pós-doutorado) financiadas por uma universidade, por uma associação específica ou pelo próprio governo do país em questão. O patrocinador é que estipula os requisitos para a seleção dos bolsistas, conforme nos explica site especializado no assunto.

Em 2017, no pós-golpe, uma curiosa matéria publicada pelo jornal Valor (pertencente à Globo) informava o seguinte: “O Brasil é considerado um país-chave para os objetivos da fundação de Barack Obama. O país está na lista de prioridades do ex-presidente dos Estados Unidos, que dará uma palestra, nesta quinta-feira, em São Paulo, no Fórum Cidadão Global, organizado pelo Valor e pelo Banco Santander”. Nessa reportagem, que é uma espécie de release da Fundação Obama, ficamos sabendo que sua “missão” é “treinar jovens para atuar como líderes em questões referentes a transformações globais, como aquecimento climático, energia renovável, promoção de igualdade de direitos e segurança alimentar”. Até aí, parece tudo muito bom, embora não inspire muita confiança esse discurso de missionários do bem vindo do ex-presidente norte-americano que mandou grampear a presidenta Dilma Rousseff.

A matéria nos informa, em seguida, que Barack Obama “quer que a sua fundação se engaje em trabalhos com brasileiros” e que “ele terá encontros com 11 jovens de diversas regiões do país que atuam em áreas como educação, mobilização social e redução da desigualdade”. “Os jovens que trabalham com a Fundação Obama”, prossegue o texto, “são identificados a partir de programas e de processos de admissão. Muitos deles se candidatam, enquanto outros são procurados pela Fundação para tratar de seus projetos e discutir maneiras de evoluir.” Quem tiver paciência de ler o texto até o fim ficará sabendo que, à época, Obama pretendia criar em Chicago um centro de ideias, “onde as pessoas possam se formar e desenvolver projetos para atuar em suas comunidades” e que “o orçamento para a construção do Centro e os doadores da Fundação não foram informados”, pois “a organização mantém o sigilo quanto a esses aspectos”. Em suma, a única pergunta do jornalista não foi respondida, pois os financiadores dessa ação tão magnânima agem sob sigilo.

Em matéria da mesma época, publicada na revista Isto É Dinheiro, tomamos conhecimento dos requisitos para se candidatar a uma dessas bolsas da Fundação Obama: “é preciso comprovar experiência em liderança social, por meio de ações e colaborações em projetos que impactem a comunidade no próprio país”, além de duas cartas de recomendação e de testes de proficiência em inglês.

Em 2019, a revista Carta Capital entrevista um rapaz que foi um dos 11 escolhidos para participar daquele programa de Obama. A matéria começa assim: “Um sorriso acanhado estampa um rosto simpático e sempre disposto a conhecer novas iniciativas de empreendedorismo. O trabalho desenvolvido pelo publicitário baiano Paulo Rogério Nunes o fez ser escolhido para estar em uma reunião privada que o presidente dos Estados Unidos Barack Obama fez com onze lideranças jovens brasileiras. Paulo era um dos três convidados negros, o único ativista, sentou-se à direita de Obama e falou sobre a questão racial no Brasil, das oportunidades econômicas, da cobertura da mídia e sobre Salvador”.

A reportagem nos mostra que o rapaz foi levado para vários países do mundo, ouvido como palestrante nos Estados Unidos, publicou livro no Brasil, fundou a empresa Vale do Dendê, virou consultor de diversidade, fundou ONG etc. etc. e, lá pelas tantas, segundo revela, teria pensado em ficar nos Estados Unidos e fazer doutorado, mas preferiu voltar para a sua comunidade na Bahia, onde é uma “liderança”. A esta altura, vamos percebendo como funciona o sistema ongueiro de “solidariedade internacional”.

As ONGs locais, que recebem “apoio” estrangeiro, fazem a triagem das lideranças locais, às quais serão dadas oportunidades inimagináveis (veja-se a história do rapaz contada na Carta Capital) de viajar, estudar etc., de modo que se tornem lideranças de projetos gestados em outros países. Assim, pessoas que poderiam liderar movimentos sociais em seu próprio país são convertidas em arautos do empreendedorismo, que não passa de uma política de glamorização do trabalho precário. Esse é um exemplo. Se tiver canal na internet e muitos seguidores, a pessoa também será detectada pelo radar de alguma ONG, mas desde que faça o discurso certo: empreendedorismo, identitarismo, diversidade, ambientalismo, todas causas que fazem parecer superada da agenda a luta de classes e os movimentos genuínos da sociedade.

Bruno Torturra acusa de conspiracionistas e desonestos os seus críticos e, ao mesmo tempo, afirma que eles são contrários à indicação uma mulher negra para o STF, dando a entender que, além de malucos, são racistas empedernidos. Quem distorce a discussão, arguindo a própria inocência ao defender o patrocínio das ONGs do imperialismo, é o roteirista, que, sim, tem agenda e quiçá financiamento “solidário” dessa “turma do bem” que prossegue na campanha pela “mulher negra”  no STF.

Na “lista tríplice” da ONG Mulheres Negras Decidem, que recebe o apoio de outra entidade, chamada Pulsante (“resultado da parceria entre LuminateOpen Society Foundations e Fundación Avina, que busca ampliar o espaço cívico por meio da consolidação de uma cidadania ativa”, segundo o próprio site), está Adriana Cruz, que, especializada em lavagem de dinheiro e crimes contra o sistema financeiro, foi magistrada instrutora no gabinete de Luís Roberto Barroso no STF em 2015, no auge da golpista Operação Lava Jato. Essa é uma das três que pleiteiam tomar um cafezinho com o presidente Lula para convecê-lo de sua competência para o cargo.

Outra candidata é Lívia Sant’Anna Vaz, uma das autoras do livro “A Justiça é uma Mulher Negra”, apresentado desta forma: “Confrontar a branquitude e a epistemologia ocidental estabelecida no universo jurídico é um ato que, por si só, confere identidade singular à criação das autoras, Lívia Sant’Anna Vaz e Chiara Ramos. Trata-se de uma obra multidisciplinar que coloca em diálogo o Direito, a história e uma visão afrodiaspórica interseccional na construção de uma justiça pluriversal”. A terceira é Soraia Mendes (foto acima), tratada pelo Brasil de Fato como “candidata ao STF” em matéria que traz entrevista com ela. Soraia diz muita coisa, inclusive que o identitarismo é “profundamente marxista”, defende “representatividade” e “teoria crítica” e “reconhece a legitimidade da escolha de Zanin” por Lula – enfim, faz média com todo o mundo, mostrando sua capacidade de adaptação ao novo ambiente.

Por óbvio, não se trata de ser contra uma mulher negra no STF só por ser mulher e por ser negra, como enviesam Torturra e Rovai no título do vídeo da Revista Forum.Trata-se, isto sim, de saber por que interessa custear campanha internacional para pressionar o presidente brasileiro na escolha de um ministro da mais alta corte do país. Por acaso, os brasileiros sugerem quem deve integrar a Suprema Corte dos EUA? Como dizia um velho bordão de campanha do Lula: “Deixa o homem trabalhar”.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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