Cisjordânia

Estar em uma prisão é mais seguro que ser um palestino em Hebron

"Israel" impõe restrição completa de direitos e estabelece sua segunda prisão a céu aberto. O sionismo amplia seu terror, aproximando a própria derrota

Em entrevista para a MintPress News, concedida em 8 de novembro deste ano, o ativista palestino Issa Amro relata como está sendo a vida na Cisjordânia, ou seja, fora da zona de guerra, da Faixa de Gaza, tanto antes como a partir do “início” do conflito, em 7 de outubro. O que se segue são 50 minutos de denúncias das mais variadas violências e arbitrariedades, uma verdadeira ditadura nazista imposta por “Israel”.

“Desde o início da guerra, nós palestinos que vivemos na Cisjordânia sofremos violência do exército israelense e dos colonos israelenses.” Os “colonos apoiam a evacuação de palestinos de suas casas.”

Ditadura total

Ainda, denuncia a divisão do território da Cisjordânia — a Palestina já é dividida entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. A vida já é praticamente impossibilitada por essa medida, mas a coisa vai além. Invasões às casas, toque de recolher, que é mais um toque para sair, visto que o tempo permitido fora de casa é quase inexistente. Assassinatos, sequestros, prisões, remoções, entre outras medidas se somam ao citado e a um clima de terror generalizado imposto pelas tropas e colonos sionistas.

“A Cisjordânia está dividida, não há continuidade entre norte e sul, leste e oeste, as principais estradas estão fechadas, os checkpoints estão fechados, então os vilarejos, cidades e comunidades estão divididos, e as pessoas estão desconectadas e isoladas umas das outras. Nada de trabalho, universidades, a maioria das escolas estão paradas.

“E os colonos e soldados israelenses atacam os vilarejos e cidades palestinas. Mais de 2.000 palestinos foram sequestrados e detidos por soldados e por colonos com uniforme do exército. 150 palestinos foram mortos, muitos deles sem razão alguma, sem representar qualquer ameaça para os soldados ou para os colonos. Um idoso em Tulcarém, de 65 anos, foi morto a tiros na rua, assim do nada. Um palestino aleijado com necessidades especiais em Yatta foi alvejado sem qualquer misericórdia. Você vê crianças palestinas sendo alvejadas, você vê colonos entrando em vilarejos palestinos como Qusra e atirando em seis, sete palestinos, matando-os.

“E invasões a casas de palestinos, assustando-os, intimidando-os, vandalizando suas casas, dando a eles 24 horas para sair. E você vê os soldados detendo palestinos e fazendo desafios do Tik Tok sobre como ser durões e como desumanizar palestinos, e torturar palestinos, então você vê muitos vídeos e fotos de soldados desumanizando palestinos detentos, forçando-os a estarem nus, algemados, vendados e então os espancam. E por volta de 20 comunidades palestinas deixaram suas comunidades em Hebron, muitos palestinos deixaram suas casas.

“Na cidade onde estou agora, tem um toque de recolher desde 7 de outubro, quer saber o que isso significa? Você não é permitido sair de sua casa, eles nos dão seis horas por semana para sair e voltar, para buscar comida, e o resto dos dias, o resto das horas, estamos presos em nossas casas e não somos permitidos nem de ficar no quintal. É um tipo de cadeia. É isso que está acontecendo em H2 em Hebron.

“E com a violência dos colonos, que jogam pedras nas casas, roubam coisas, espancam as pessoas, soldados engatilhando as armas para assustar e intimidar as pessoas. Muitos me ligaram, e me contaram de colonos vestidos com uniformes do exército que foram a suas casas e disseram ‘vocês têm 24 horas para sair ou nós viremos para matá-los’. Nos lembra do que aconteceu em 1948.”

“Você tem uma hora para sair de casa. […] Ao sair, nos checkpoints, levam de 5 a 10 minutos para revistar cada pessoa, e chegaram a me dizer para abrir os tomates e batatas para checar se tinham armas. Não só isso, as mulheres com o hijab, elas colocam canetas para prender o hijab, e eles as forçaram a retirá-las, é a esse nível, e as pessoas estão apavoradas, e a uma hora para voltar não é o bastante.”

As “visitas” dos soldados são exemplificadas por caso ocorrido com o próprio Issa Amro:

“Eu sinto aqui na minha casa que os colonos ou os soldados podem vir para me matar a qualquer momento. Há dois dias, um soldado mediu a minha casa, filmou a entrada e a saída, e então invadiu, roubou a minha GoPro e duas câmeras de segurança. Eu peguei ele fazendo isso e ele ameaçou me matar aqui. […] Isso é o que está acontecendo não só comigo, mas com muitos palestinos.”

O cárcere sionista

Ao amplo relato da entrevista, que contém ainda muito mais informações e denúncias, somamos outros casos. Mohammad Nazzal, um jovem menino, aparentando entre 12 e 13 anos, liberto a poucos dias do cárcere sionista, relatou as torturas:

“Eles (carcereiros israelenses) entraram para nos contar. Como de costume, eles nos contaram e começaram a nos bater. Sem nenhuma razão. Depois de meia hora, foram embora quando nos machucaram. Eu fui mais espancado do que todos os outros. Meu dedo e minha mão foram quebrados. Só trataram uma semana depois pela Cruz Vermelha. Eles (os israelenses) não me trataram de forma alguma.

“Alguns detentos morreram. Algumas mortes não foram anunciadas. As unidades de repressão (israelenses) matam os detidos. Eles espancam os detentos até a morte. Havia um homem de 70 anos. Ele morreu de espancamento. Graças a Deus, eu estava chorando e orando. Louvado seja Deus, que ouviu minhas orações.”

Hebron aos olhos de uma criança

Outra criança, a jovem Salwa, de 13 anos, moradora de Hebron, relata como é a vida na cidade. O meio do centro de comércio, ela aponta, tem grades nos vãos entre as marquises das lojas. As grades estão repletas de lixo, jogado por colonos que ocuparam partes de Hebron.

“Vivemos situações em que, se eles nos veem descendo a rua, começam a jogar pedras em nós. As pedras atravessam as grades. Alguns dias atrás, atiraram pedras em nós, e era como se estivesse chovendo, de tantas pedras que eles estavam atirando. Eu realmente não me sinto segura aqui. Queria poder ir embora.”

Colonização

A tomada da Palestino pelos sionistas visa uma conquista total, sobre a cultura, a religião, a etnia, nesse sentido, não é uma merda ocupação, mas uma colonização. O controle “racial” — os judeus não são uma etnia, algo forjado, parte do mito sionista — do território é garantido por leis abertamente supremacistas raciais e de colonização, como descrito por Akram Al-Deek no Monitor do Oriente Médio:

“As chamadas Lei do Retorno e do Estado-nação de Israel, por exemplo, são o cúmulo do racismo. Por um lado, asseguram direitos automáticos a judeus de qualquer lugar do mundo que queiram emigrar às terras colonizadas da Palestina. Por outro, nega aos nativos deslocados à força seu direito legítimo de retorno simplesmente porque não são judeus. Pior ainda, trata os palestinos que vivem dentro de suas fronteiras, os chamados ‘árabes israelenses’, mais de 20% da população, como cidadãos de segunda classe. Grupos de judeus da antiga União Soviética, por exemplo, recorreram a uma reivindicação de ancestralidade judaica, para se assentar em terras palestinas. Judeus etíopes — muitos dos quais imigrantes sob promessas humanitárias, instalados em campos segregados — são explorados como mão-de-obra barata, de modo que mesmo a integração entre tais grupos é de fato problemática.

“A Lei de Cidadania veta, além disso, a unificação de famílias palestinas, à medida que ‘árabes israelenses’ que eventualmente se casem com palestinos da Cisjordânia ou da Faixa de Gaza perdem direitos. Como se não bastasse, impede a unificação entre cônjuges de ‘Estados inimigos’, como Líbano, Síria, Iraque e Irã. Todo o quadro discriminatório se baseia em afiliações étnicas, nacionais e religiosas, à medida que Israel clama para si suposta democracia. De fato, até que tais parâmetros segregacionistas sejam desmantelados, não há democracia, mas sim apartheid — sionismo e Israel são sinônimos de racismo.”

Regime fechado

Ainda, também no Monitor do Oriente Médio, Soraya Misleh denuncia os ataques, no que constituem verdadeiros assassinatos daqueles dedicados a cobrir a situação na Palestina:

“Cenas da barbárie sionista são capturadas pelos jornalistas palestinos, enquanto perdem famílias, amigos, animais, casa, tudo. Às lágrimas, eles iniciam a cobertura: ‘ainda estou vivo’, ‘ainda estou viva’ – mais de 60 deles já tombaram, juntamente com centenas de médicos, artistas etc. Não há proteção ou lugar seguro em meio a um genocídio.”

As prisões chegam ao ponto de realizadas em massa, ainda mantendo os assassinatos e desaparecimentos ocorridos no cárcere:

“Os presos políticos palestinos se ampliam assustadoramente. Há informações de que, agora, somam de oito a 10 mil – até o começo de outubro, eram 5.200. Israel também tem ampliado as bárbaras torturas e sumido com prisioneiros. Caso do cidadão brasileiro-palestino Islam Hamed, desaparecido há cerca de 40 dias.”

Qualquer protesto contra a situação aviltante, mesmo que simbólico, ou meramente digital, nas contas pessoais da população palestina, estão sujeitos a uma repressão implacável:

“Se tentam realizar um protesto contra o genocídio, ou mesmo fazer uma postagem nas redes, um soldado israelense imediatamente bate à sua porta e os detém.”

Saída militar, melhora diplomática?

A solução de dois Estados jamais resolverá o problema, tendo em vista a posição imperialista de “Israel” como base militar do imperialismo. Aparentemente, apenas uma vitória militar completa sobre o Estado sionista seria capaz de enfim trazer a paz para a região. Contudo, a pressão política cresce de maneira exponencial contra o regime sionista. As recentes revelações de que as próprias forças armadas israelenses carbonizaram seus próprios civis deliberadamente no dia 7 de outubro vieram à luz.

Ao mesmo tempo, os reféns tomados pelo Hamas e libertos, em contraste aos reféns tomados por “Israel”, revelam o tratamento humano, digno, garantido pelos militantes do partido. E são proibidos pelo governo sionista de falar com a imprensa, mesmo a israelense.

A pressão também cresce internacionalmente, enquanto diversos governos pelo mundo rompem relações ou retiram seus embaixadores do enclave imperialista, a exemplo de Irlanda, Bolívia, Belize, África do Sul, Turquia, Chade, Colômbia, Chile e Jordânia.

A situação do Estado sionista está insustentável, e a cada dia, sua posição crítica se acentua, e a queda do regime parece, a cada dia, mais inevitável e mais próxima.

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