Canção brasileira

Erotismo e pornografia na música popular brasileira

A arte erótica de Chico Buarque

No álbum de Chico Buarque e Maria Bethânia com a gravação ao vivo do show de 1975, realizado no Canecão, Rio de Janeiro, Chico Buarque interpreta, entre outras canções, “Flor de idade”, uma composição sua. Eis a letra da canção, que está, certamente, entre as mais obscenas do repertório da MPB: 

“A gente faz hora, faz fila na vila do meio-dia / Pra ver Maria / A gente almoça e só se coça e se roça e só se vicia / A porta dela não tem tramela / A janela é sem gelosia / Nem desconfia / Ai, a primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor // Na hora certa, a casa aberta, o pijama aberto, a família / A armadilha / A mesa posta de peixe, deixe um cheirinho da sua filha / Ela vive parada no sucesso do rádio de pilha / Que maravilha / Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor // Vê passar ela, como dança, balança, avança e recua / A gente sua / A roupa suja da cuja se lava no meio da rua / Despudorada, dada, à danada agrada andar seminua / E continua / Ai, a primeira-dama, o primeiro drama, o primeiro amor // Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo / Que amava Juca que amava Dora que amava / Carlos amava Dora que amava Rita que amava Dito / Que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava / Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava / A filha que amava Carlos que amava Dora / Que amava toda a quadrilha” 

Diferentemente das colunas anteriores, quando, discorrendo sobre erotismo, moralismo e pornografia, menciono vários exemplos de histórias em quadrinhos, filmes, videoartes, performances etc., ao tratar da canção brasileira, escolhi apenas uma; no caso, algo exemplar do erotismo na MPB, tema bastante apreciado entre nossos compositores, de Domingos Caldas Barbosa, no século XVIII, a Arrigo Barnabé, compositor de vanguarda dos séculos XX e XXI. Dessa maneira, entre tantos exemplos, por que preferir a “Flor da idade”? Antes de tudo, porque Chico Buarque está entre os grandes compositores da MPB – para mim, ele é o melhor de todos –; e porque, vale repetir, tanto em seu repertório quanto em toda canção brasileira, os versos dessa composição estão entre os mais obscenos, prestando-se a polemizar, com os eternos moralistas, temas tais quais liberdade de expressão vs. censura, erotismo vs. pornografia, política, arte, religião. 

Não vou me distrair fazendo análises literárias da poesia de Chico Buarque, contudo, a engenhosidade da letra de “Flor da idade” merece atenção. A canção é formada por três estrofes semelhantes entre si melódica e poeticamente, terminando numa quarte estrofe formada por outras modulações e com alusões explícitas ao conhecido poema de Carlos Drummond de Andrade “Quadrilha”, cujos versos são estes: 

“João amava Teresa que amava Raimundo / que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili / que não amava ninguém. / João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, / Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, / Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes / que não tinha entrado na história.” 

Retomando “Flor da idade”, percebe-se ser, logo nos primeiros versos, uma canção sobre a masturbação, mas não apenas isso, pois a inspiradora das muitas punhetas, a tal Maria, comove, além da vizinhança, os próprios parentes com sensualidade, enquanto é estimulada pelo sexo emergente em cada situação cotidiana, do almoço em família às canções tocadas no rádio. Dessa maneira, embora comece no vício solitário, o roçar inicial termina na fruição do sexo, quando todos se amam, tematizando-se a sexualidade geral e concreta, da qual a masturbação faz parte. 

Ainda na primeira estrofe, o erotismo se explicita por meio de metáforas, pois janelas, portas e fretas designam também o sexo de Maria, motivo da primeira festa, ou seja, do primeiro gozo; na segundo estrofe, a exposição continua na casa aberta, no pijama aberto, alcançando as relações familiares, pautadas pela promiscuidade; atenção para o verso em que na mesa posta, outra metáfora erótica, o odor do peixe remete ao perfume da vagina, numa relação quase incestuosa entre pai e filha, quem exala sensualidade, rebolando seminua e despudoradamente pela casa. No final da canção, seja festa, seja drama, em vez da linha heterossexual e de mão única traçada por Drummond em sua “Quadrilha”, na quadrilha de Chico Buarque todos transam, inclusive homens com homens, mulheres com mulheres, o pai com a filha. 

Cantada no calor do show e das baladas, talvez poucos se deem conta o quanto há de supostas pornografias nos versos de Chico Buarque; para conferir isso, façamos um exercício de imaginação e, no lugar da canção, inventemos o filme chamado “Flor da idade”. No filme, haveria algumas crianças, adolescentes… pensando nos atores e atrizes da minha mocidade – nasci em 1964 –, imagino atrizes tais quais Helena Ignez, Sônia Braga, Katia D’Angelo, Claudete Joubert ou Adele Fátima, quando mocinhas, no papel de Maria… o pai poderia ser vivido por Franscisco Coco, Geraldo Del Rey ou Jardel Filho, quando na maturidade… Carlos, Dora, Lia, Léa, Paulo, Juca, Rita e Dito, eu deixo por conta imaginação do leitor. Dessa maneira, exibindo na tela meninos se masturbando, musas rebolando seminuas, jovens transando e um coroa com tesão na própria filha, que tipo de filme seria? Ora, com a direção de Carlos Diegues, talvez fosse filme pautado pela sensibilidade, com Ana Carolina, por situações insólitas, com Tony Vieira, uma pornochanchada… e para os moralistas, o que seria? 

Há pouco tempo, a canção “Com açúcar, com afeto”, do mesmo compositor, foi alvo de censura não porque seria pornográfica, mas por, supostamente, diminuir a mulher. Pois bem, se a pornografia degrada homens e mulheres, não parece difícil imaginar os julgamentos dos censores de “Com açúcar, com afeto” a respeito de “Flor da idade”. Não cabe, no final de nossas reflexões, analisar essa segunda canção, mas se houve confusão entre diminuir socialmente as mulheres e refletir, mediante a poesia, constrangimentos semelhantes ao sofrido pela narradora da canção “Com açúcar, com afeto”, não se deve esperar nada diferente daqueles críticos além de outras confusões sobre a sexualidade e suas muitas formas de expressão, entre elas, a masturbação, gays, lésbicas, incesto, sexo explícito etc. 

A sexualidade, das manifestações sutis às libidinosas e fesceninas, sempre foi tema de canções, sejam populares, sejam eruditas; entre os trovadores medievais, famosos por suas composições, apenas as de louvação religiosa escapam do tema, bastando ler com atenção as cantigas de amor e de amigo para se encontrar sexo… àqueles que dispensam metáforas e preferem ir diretamente ao assunto, recomendo as cantigas de escárnio e de mal dizer, certamente, tão obscenas quanto “Flor da idade”. 

Por fim, a gravação mencionada pode ser encontrada no Youtube, neste endereço:

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