1917 - 2022

Do terrorismo, parte 2

A esquerda acusa os bolsonaristas nas ruas de terroristas abandonando totalmente a sua tradição de lutar contra a repressão e de respeitar a luta dos oprimidos

A parte 1 dessa coluna tratou do Terror em seu significado clássico, marxista, o terror revolucionário. Em dezembro veio a tona nas redes sociais a inauguração pelos bolcheviques da estátua de Robespierre o criador do regime do terror durante a Revolução Francesa. Agora é preciso tratar da questão do terrorismo como é usado hoje, em geral para se falar dos árabes inimigos do imperialismo, as vezes de outros muçulmanos e raramente de organizações nacionalistas como o IRA e o ETA. Esse terrorismo, quando é uma ferramenta de luta dos oprimidos contra o imperialismo, é legítimo.

O terrorismo dos atentados a bomba, tentativas de assassinato, atropelamentos etc também não uma novidade do fim do século XX. O movimento operário principalmente com os anarquistas já passou por uma fase de terrorismo. O Czar Alexandre II foi assassinado pelos Narodnkis russos, o rei Umberto I da Itália foi assassinado por anarquistas, o mesmo aconteceu com o presidente dos EUA William McKinley. Em 1914 arquiduque Francisco Ferdinando foi assassinado por um nacionalista sérvio, o que foi a faísca para a 1ª Guerra Mundial.

Essa era a política de alguns setores pequeno-burgueses, tanto da esquerda como nacionalistas, que foi muitas vezes criticada pelo marxismo, principalmente quando ela substituía a luta política. Os anarquistas, por exemplo, assassinaram chefes de Estado mas eles mesmo nem se propunham a tomar o poder. Esses assassinatos em si também não costumavam ajudar na organização da classe operária e serviam de justificativa para aumentar a repressão. O que não significa que o marxismo defende que sempre se respeite a lei, a questão é que se for para quebrá-la é preciso que se esteja tomando a política certa, a insurreição de Outubro na Rússia por exemplo.

Conforme o movimento operário superou as tendências que defendiam o terrorismo, este passou as ser mais tradicionalmente ligado a organizações nacionalistas. Os atentados a bomba e sequestros que são o caso mais famoso desse tipo de ação política foram muito praticados pelo Exército Republicano Irlandês, que lutava contra a ocupação inglesa, e o Pátria Basca e Liberdade (ETA) que lutava contra a ocupação espanhola. Este foi fundado em 1959 e oficialmente matou 829 pessoas até a sua dissolução em 2018. Outro grupo, este mais esquerdista, que também praticava atentados era a Fração do Exército Vermelho, na Alemanha.

O terrorismo passou a ficar mais ligado aos árabes após a Revolução de 1979 no Irã, quando o Oriente Médio saiu do controle do imperialismo e assim se tornou um alvo de ataque. Os muçulmanos difundiram o homem-bomba e outros atentando em que o agente se suicida, o que com a ampla propaganda imperialista se tornou quase que sinônimo de terrorismo. Este também é uma clara ferramenta de movimentos nacionalistas, de uma das regiões mais oprimidas do planeta devido a sua riqueza em petróleo.

Aqui chegamos ao mais famoso de todos os atentados terroristas, a destruição das torres gêmeas em Nova Iorque. O seu organizador, Bin Laden, eram um saudita revoltado com a opressão monstruosa que os EUA faziam no Iraque. Durante a década de 1990 as sanções econômicas contra o país, que tinham como objetivo derrubar Sadam Hussein, levaram 500mil crianças a morte. Esse massacre levou a radicalização de muitos árabes e um setor mais organizado resolveu contra atacar o imperialismo por meio do atentado em 11 de setembro de 2001.

Não há como condenar um grupo que após uma guerra, a 1ª Guerra do Golfo, e uma década de sanções pesadíssimas resolve se defender com violência. Foram 3mil mortos em Nova Iorque, no Iraque mais de um milhão. Condenar o atentado é defender que só os opressores podem usar a violência, que os oprimidos não tem o direito de reagir, de lutar contra a sua opressão. É nesse sentido que os atos terroristas, como ferramenta de luta contra o imperialismo, são atos legítimos. O que não é o mesmo que defendê-los como tática política, nem para os árabes, e nem para a esquerda brasileira.

No Oriente Médio por exemplo há uma organização que também é tachada de terrorista mas não tem o costume de fazer atentados nos países imperialistas, o Talibã. Essa organização, baseada na religião muçulmana, organizou uma gigantesca insurreição armada que após 20 anos de luta expulsou o imperialismo de seu país. Sua estratégia política foi mais eficiente que a de Osama Bin Laden. No Iraque por exemplo Sadam Hussein manteve o governo de direita durante as sanções. Já no Irã o governo toma medidas sociais devido a Revolução de 1979, mesmo com sanções a população não sofre tanto e o regime é muito mais estável.

Os Aiatolás iranianos também não basearam sua política no terrorismo, eles na verdade organizaram uma das maiores revoluções da segunda metade do século XX. No Brasil a esquerda durante a ditadura militar organizou atos que poderiam ser tachados de terrorismo. Era correto lutar contra a ditadura, inclusive usando violência, mas os movimentos armados lançados após o golpe de 1964 também não seguiam a política correta, o principal motivo para terem sido derrotados.

Aqui se volta ao ponto crucial, o que liga Marighella, o assassino do Czar Alexandre II, Osama Bin Laden, a Fração do Exército Vermelho e o IRA? Todos ousaram lutar contra os opressores de armas na mão, nenhum revolucionário pode condenar sua atitude. Eles são considerados terroristas por lutarem. O terrorismo nesse sentido é uma acusação da direita, dos repressores que querem manter os regimes reacionários no poder. A esquerda não só não deve condenar os chamados terroristas como deve abolir esse termo de seu vocabulário.

Nesse sentido as manifestações bolsonaristas não podem nem sequer serem chamadas de terroristas. São atos ate agora bem democráticos, o máximo que fizeram foi atear fogo em ônibus. Contudo chamá-los de terroristas ainda é jogar água no moinho da direita, é fortalecer as forças de repressão, que tem no terrorismo, desde o século XIX, um de seus argumentos principais para reprimir os trabalhadores e as suas organizações. Os atos bolsonaristas não serão combatidos pela repressão do Estado burgues, mas pela luta política da classe operária organizada.

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