Oriente Médio

Derrotar o Hamas é interesse dos sionistas, não dos palestinos

Ou as organizações de luta do povo palestino destroem o Estado sionista, ou os árabes serão varridos de seu território

Em seu mais recente artigo publicado no jornal bolsonarista Gazeta do Povo, Daniela Kresch, correspondente do Instituto Brasil-Israel em Tel Aviv, nos ensina que a solução para o conflito entre israelenses e palestinos seria a existência de dois Estados para dois povos vivendo lado a lado, em paz e cooperação”, e não um “jogo de soma-zero”, em que apenas um dos lados sairia vencedor. Ora, mas quanto altruísmo da parte de uma sionista, que estaria disposta a ceder uma parte de seu território para o sofrido povo palestino, não é mesmo?

Não há nada de altruísta, nem de diplomático na tese da senhora Kresch. A “solução” de dois Estados já foi comprovada historicamente que não passa de uma fraude. Em 1948, quando foi fundado o Estado de Israel, já estava prevista a criação de um Estado palestino. E o que aconteceu? Israel tomou mais e mais territórios da população nativa. Em 1993, após um acordo vergonhoso entre Yasser Arafat, Bill Clinton e Yitzhak Rabin, o Estado sionista se comprometeu em permitir que, no prazo de cinco anos, fosse estabelecido um Estado palestino. Novamente, tornou-se letra-morta.

Que novidade, então, Kresch traz com sua proposta de “cooperação”? Se for sincera sua proposta de “dois Estados” e se de fato ela sair do papel, a única mudança que causará é que o que hoje é um genocídio de um povo provocado pelas forças armadas de um Estado constituído passará a ser uma guerra entre dois Estados constituídos. Estabelecer o Estado palestino não servirá para “promover a paz”, mas sim escalar o conflito ainda mais.

Há quem defenda a “solução de dois Estados” por pura ingenuidade, motivada por preconceitos pequeno-burgueses pacifistas. Esse, contudo, não é o caso da representante do Instituto Brasil-Israel.

Daniela Krech inicia sua jornada de desonestidades logo no primeiro parágrafo, quando afirma que “o cessar-fogo recente é apenas uma trégua tática para o Hamas e a necessidade moral para Israel de reaver os mais de 240 reféns originalmente sequestrados em 7 de outubro diante de sua opinião pública”. Por parte do Hamas, a trégua seria necessária porque o grupo estaria “abalado com a perda de controle do Norte da Faixa de Gaza após a incursão terrestre do exército israelense”, de tal forma que “de seus cerca de 30 mil combatentes, mais de 5 mil foram mortos por forças israelenses”. Por parte de Israel, o interesse seria “a retirada dos reféns por uma obrigação moral em relação a seus cidadãos, mesmo que isso signifique retroceder em seus objetivos militares e políticos”.

Seria difícil distorcer a realidade mais que a sionista do Gazeta do Povo. Acreditar que Israel estivesse tão preocupado com seus reféns a ponto de suspender suas operações militares é absolutamente ridículo, uma vez que o trato com os seus próprios cidadãos nunca foi uma prioridade. Para comprovar isso, basta ver o que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, declarou nesta terça-feira (5): “não é possível” recuperar “todos os reféns”. E mais: no mesmo dia, o primeiro-ministro se reuniu com familiares dos reféns, que saíram revoltados do encontro. “Não vou entrar nos detalhes do que foi discutido”, afirmou um dos familiares ao Canal 13 de Israel, “mas toda essa atuação foi feia, insultante, bagunçada”, disse ele ao Canal 13 de Israel, afirmando que o governo transformou a questão em uma “farsa”. A mesma pessoa ainda relatou que os membros do governo “dizem: ‘fizemos isso, fizemos aquilo’. Sinwar [líder do Hamas em Gaza] é quem trouxe nosso povo de volta, não eles. Me irrita que eles digam que ditaram as coisas. Eles não ditaram um único movimento”.

O desprezo de Netanyahu com os reféns fica patente também em outras atitudes de seu governo. Segundo revelado pelo jornal norte-americano Wall Street Journal, Israel montou um sistema de bombeamento de água do mar, que pode ser usado para inundar túneis utilizados pelo Hamas, em Gaza. Caso faça isso, o Estado sionista assassinará todos os reféns israelenses, que provavelmente estão em túneis. Por fim, mas não menos importante: há farta documentação demonstrando que as forças armadas israelenses assassinaram um grande número de cidadãos seus no dia 7 de outubro. Parte desses assassinatos, inclusive, aconteceram como resultado de uma diretriz oficial do exército sionista – conhecida como Diretriz Aníbal -, que estabelece, segundo o jornal The Times of Israel, que “soldados usem quantidades potencialmente massivas de força para evitar que um soldado caia nas mãos do inimigo. Isto inclui a possibilidade de pôr em perigo a vida do soldado em questão, a fim de evitar a sua captura”.

A tese de que o Hamas estaria próximo a um colapso militar também é ridícula. O que há, na verdade, são vários indícios de que as forças armadas israelenses estariam em uma profunda crise. Uma vez que há uma censura brutal por parte do Estado de Israel, os indícios podem ser apenas a superfície de uma situação ainda mais grave. Entre os indícios que podem ser citados, estão as declarações de um coveiro de um cemitério onde estão sendo enterrados israelenses, que afirmou que a quantidade de funerais de militares é enorme, e notícias de que parte dos combatentes sionistas não estariam dispostos a voltar para a Faixa de Gaza após a trégua.

O número de militantes do Hamas abatidos também é pura mentira de Daniela Krech. Afinal, os dados mais atualizados dão conta de 16.248 mortos em Gaza, dos quais 7 mil crianças e adolescentes e quase 5 mil mulheres foram assassinados. Mesmo que todos os que não são crianças, nem mulheres fossem militantes do Hamas, não chegaria a 5 mil! A sionista, inclusive, não cita nenhuma fonte: é um número que tirou da própria cabeça apenas para fazer propaganda contra os guerrilheiros palestinos.

Toda essa série de falsificações serve para que Daniela Krech chegue à sua brilhante tese:

“Para o Hamas, no entanto, o objetivo do cessar-fogo é apenas um: rearmamento para uma nova rodada de ataques contra Israel. Para ele e todos os outros grupos jihadistas fundamentalistas (como Jihad Islâmica, Hezbollah, Estado Islâmico, Al Qaeda, Talibã, Boko Haram, Houthis e outros), o conceito de trégua é diferente. Não se trata de uma desaceleração das hostilidades com o objetivo, quem sabe, de negociar um acordo para o fim dessas hostilidades. Não. Cessar-fogo é um conceito previsto no Alcorão com a finalidade de reagrupar as tropas para a próxima fase da guerra. O Hamas e seus pares não entendem a noção de “win-win situation”, em que os dois lados possam terminar um conflito após fazerem concessões, mas conseguindo algumas vitórias. Quer dizer: nada de negociações e acordos de paz. Acreditam apenas no chamado jogo de “soma-zero”, a vitória completa de um lado sobre o outro. A guerra só termina quando um dos lados obliterar o outro, varrê-lo da face da Terra. E nem que isso demore décadas, séculos. Milênios”.

O que a sionista do Gazeta do Povo quer demonstrar, portanto, é que o Hamas seria o lado “insensato” do conflito, o fator que impede uma saída diplomática – isto é, uma situação em que “ambos saem ganhando”. Se o Hamas estivesse empenhado não em derrotar Israel, mas sim em chegar em um acordo com os sionistas, muito sangue seria poupado. A culpa estaria, portanto, na “ideologia” do Hamas, e não em circunstâncias materiais.

O fato é que é justamente porque o Hamas entendeu que o conflito com Israel é um jogo de “soma-zero” que conseguiu obter uma importante vitória, que foi o acordo de trégua. O acordo com Israel só foi possível não por uma negociação diplomática, mas sim porque o Hamas impôs, por meio da luta, este acordo. Ao contrário do que acusa Daniela Krech, foi Israel quem prendeu milhares de palestinos – o a iniciativa do Hamas de sequestrar reféns foi apenas uma resposta a isso.

O Hamas entendeu – e por isso é tão apoiado pelas massas palestinas – que o Estado de Israel em si é uma ameaça permanente a seu povo. O Hamas, inclusive, é o resultado de uma longa experiência do povo palestino com todo tipo de promessa diplomática: é da frustração com tais “negociações” que vem a força do Hamas. O fato de tantos jovens hoje estarem dando a sua vida pela palestina é a maior comprovação do fracasso da “saída diplomática”: se fosse possível um “jogo” em que “todos saem ganhando”, ele já teria sido jogado.

A coexistência entre Hamas e Israel – isto é, entre o povo palestino e Israel – é impossível porque o próprio sionismo concebe tal coisa como impossível. Os membros menos “políticos” – e, de certa forma, mais sinceros – do governo israelense não medem palavras sobre o que fazer com os árabes. Por eles, esses “animais” deveriam ser expulsos de toda a Faixa de Gaza.

A reação dos palestinos não pode ser, portanto, outra. Se Israel é uma ameaça à sua existência como povo, deve ser destruído.

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