HISTÓRIA DA PALESTINA

Como sionistas arrasaram vilarejo onde vivia mais de mil pessoas

Segundo Moshe Kalman, oficial judeu que liderou o ataque: “Deixamos para trás 35 casas destruídas e 60-80 corpos mortos' (muitos deles eram crianças)"

Entre os dias 14 e 15 de fevereiro de 1948, tropas do Palmach, o batalhão de elite da Haganá, uma das principais milícias fascistas do sionismo responsáveis pela violência desatada durante a Nakba, invadiu o vilarejo de Saasa, próximo à fronteira com o Líbano. Os ocupantes diziam haver ali combatentes palestinos, algo desmentido pelo que se seguiu. O que resultou foi mais um dos inúmeros massacres realizados durante a criação do Estado de “Israel”, mostrando que os sionistas sempre foram fascistas sanguinários.

O pequeno vilarejo já existia há centenas de anos e, devido à sua posição geográfica, havia servido como ponto de controle para viajantes, e para cobrança de impostos, durante o período do domínio otomano na região. No último censo realizado na região antes da Nakba, feito entre os anos de 1944 e 45, viviam em Saasa 1.130 pessoas, todos muçulmanos. Em meio a uma área majoritariamente rural, onde os habitantes plantavam cereais, azeitonas e frutas, havia cerca de cinquenta mil metros de área construída, algo como duas quadras, em que se encontravam uma mesquita e duas escolas, uma para meninos e outra para meninas. Era este o perigoso inimigo que os “bravos” soldados sionistas teriam de enfrentar.

O ataque a Saasa foi liderado por Moshe Kalman, oficial judeu da Palmach que, meses mais tarde, também lideraria o massacre à aldeia de Ein al-Zeitun e que já havia estado à frente do massacre do vilarejo de al-Khisas, em 18 de dezembro de 1947. Atuou sob o comando de Ygal Allon, comandante do Palmach ao norte, militar que eventualmente exerceria o cargo de primeiro-ministro de “Israel” de forma interina e também ascenderia à patente de general das Forças de Defesa do país.

Conforme relata o historiador judeu israelense Ilan Pappé, em seu livro A Limpeza Étnica da Palestina, Allon ordenou o ataque ao vilarejo em razão de sua localização e para mostrar que os sionistas deveriam tomar iniciativa. A ordem dada a Kalman foi a de que vinte residências deveriam ser explodidas, a fim de matar o maior número de palestinos o possível:

“Temos que provar a nós mesmos que podemos tomar a iniciativa […] Você tem que explodir vinte casas e matar o máximo de ‘combatentes’ [leia-se: ‘moradores’] possível”.

O ataque ocorreu à meia noite daquele fatídico dia, e o batalhão sob a liderança de Kalman contou com cerca de 60 soldados, os quais não encontraram qualquer resistência dentro do vilarejo de Saasa, conforme reportagem do jornal New York Times, de 16 de abril de 1948.

Posteriormente, Kalman iria oferecer relatos dos primeiros momentos do massacre.

Conforme retratado no livro de Pappe, o oficial da Palmach disse que, ao invadir Saasa na noite do dia 14, começaram a fixar explosivos TNT nas casas, a fim de cumprir as ordens dada por Ygal Allon. Então se depararam com um guarda árabe, que, segundo Kalman, “ficou tão surpreso que não perguntou ‘min hada?’, ‘quem é?’, mas ‘eish hada?’, ‘o que é isso?’ Um de nossos soldados que sabia árabe respondeu humoristicamente [sic] ‘hada eshf’ (‘isso é [em árabe] fogo [em hebraico]’) e disparou uma saravaida nele”.

Após eliminarem o guarda, as tropas de Kelman tomaram conta da rua principal de Saasa e explodiram uma por uma as casas da vila, enquanto as famílias palestinas ainda dormiam nelas, assassinando dezenas de pessoas, sem qualquer necessidade militar.

Ainda segundo relatos de Kalman: “Deixamos para trás 35 casas destruídas e 60-80 corpos mortos’ (muitos deles eram crianças)”, ainda expondo a cumplicidade do imperialismo britânico, que ajudou a “transferir os dois soldados feridos – machucados por destroços voando pelo ar – para o hospital de Safad”, conforme exposto por Ilan Pappé, em sua obra, já citada.

O que demonstra que a ação era parte de uma ampla campanha de fascista, cujo objetivo matar o maior número possível de palestinos e expulsá-los de suas terras.

Kalman estudaria depois na “conceituada” universidade de Columbia nos Estados Unidos e, depois de uma vida confortável trabalhando como consultor de investimentos, morreria de câncer em 1980.

Embora parte da população já tivesse fugido da aldeia depois do massacre de fevereiro, a expulsão completa dos palestinos de Saasa só viria a ocorrer alguns meses depois, como parte da Operação Hiram, quando as tropas da Haganá ocuparam o vilarejo. O objetivo geral da operação era expulsar os palestinos da região da Galileia, o que eles conseguiram: depois do dia 30 de outubro não sobraria mais palestino algum em Saasa. Sobre o segundo ataque ao vilarejo, Ilan Pappe expõe as ordens recebidas pela Brigada Golani, quase sejam:

“A ocupação não é para permanência permanente, mas sim para a destruição da vila, mineração dos escombros e das áreas próximas.

 

[…]

 

Se houver escassez de soldados, você tem o direito de limitar (temporariamente) a operação de limpeza, a tomada e destruição das vilas inimigas em seu distrito.”

O que demonstrava que o plano era, de fato, a expulsão dos árabes palestinos de suas terras.

Segundo informações do sítio Palestine Remembered, houve outro massacre durante esse período de ocupação, que se deu pelas mãos das gangues da Sétima Brigada. Contudo, não há informações suficientes sobre ele.

Os arquivos referentes ao morticínio realizado neste dia ainda não foram abertos aos historiadores. Apesar disto, figuras como Moshe Kalman e Ygal Allon, que comandavam as tropas ocupantes no norte da Palestina na época e que teriam longas carreiras como políticos “israelenses”, admitiram os massacres ali cometidos contra os palestinos. Uma investigação realizada por Emmanuel Yalan, major das tropas ocupantes, sugere que vários aldeões, incluindo deficientes, foram mortos durante a ocupação da Saasa.

O massacre também foi abordado pelo historiador palestino Walid Khalidi, em seu livro All That Remains: The Palestinian Villages Occupied and Depopulated by Israel in 1948, do ano de 1992, que descreveu o que restou do vilarejo após a limpeza étnica perpetrada pelos sionistas:

“Algumas das antigas oliveiras sobrevivem, e um número de muros e casas continuam de pé. Algumas das casas são hoje usadas pelo kibbutz Sasa; uma delas tem um arco em sua entrada e janelas em arcos. Uma grande parte de território no entorno é composto de florestas, o resto é cultivado por fazendeiros ‘israelenses’”.

Quatro dias após o massacre, ocorreu uma reunião envolvendo os políticos que comandava o corpo burocrático que viria a conformar o Estado de “Israel”. Nela, conforme exposto por Pappé, o já referenciado historiador israelense, Ben Gurion, fundador de “Israel”, “gostou da operação em Sa’sa pela forma como ‘fez os árabes fugirem’”. Disse também que deveriam “continuar a aterrorizar as áreas rurais… por meio de uma série de ofensivas… para que o mesmo clima de passividade relatado… prevalecesse”. Ygal Allon, por sua vez, o comandante da Palmach que deu a ordem a Kalman para atacar Saasa, “continuou a expandir sobre as lições aprendidas com as operações Lamed-Heh na reunião de meados de fevereiro do Conselho: ‘Se destruirmos bairros inteiros ou muitas casas na vila, como fizemos em Sa’sa, causamos impacto’”.

O exposto acima serve para demonstra que o Estado de “Israel” não se trata de um Estado legítimo, mas uma entidade política fundada por um movimento fascista, o sionismo, apoiado pelo imperialismo britânico, norte-americano e o stalinismo, que para consolidar o projeto de um Estado judeu na Palestina precisou recorrer à limpeza étnica da região, expulsando quase 1 milhão de árabes palestinos, recorrendo a inúmeros massacres para esse fim.

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