Vergonha e demagogia

Aílton Krenak consegue diminuir o índio em montagem de O Guarani

A destruição da obra de Carlos Gomes apresentada no Municipal resultou no contrário do que os identitários esperavam: o "índio real" foi transformado num pobre coitado

Estivemos na última quarta-feira (17) na montagem da ópera O Guarany, de Carlos Gomes, no Theatro Municipal de São Paulo. Mais especificamente, estivemos na apresentação do que foi a “concepção” alternativa de Ailton Krenak para a obra.

Conforme amplamente noticiado pela imprensa burguesa, Krenak “concebeu” a obra para “corrigir ‘dano cultural enorme’”, segundo artigo do Estado de S. Paulo. Conforme já mostramos em artigo neste Diário, a burguesia brasileira está financiando a demagogia identitária à custa da destruição de uma obra importantíssima da cultura nacional, como tem feito com toda a história do Brasil.

O que está sendo visto no Theatro Municipal – as apresentações vão até dia 21 – é exatamente isso: a tentativa de destruir a obra de Carlos Gomes. 

Carlos Gomes está entre os maiores compositores da história da música brasileira. Sua peça mais famosa é justamente O Guarani cuja estreia ocorreu no Teatro Alla Scala, em Milão, Itália, em 19 de março de 1870. É uma ópera brasileira, escrita em italiano, feita para o público europeu. Não há nenhum problema nisso, na realidade, O Guarani foi pensada justamente como uma espécie de apresentação de temas brasileiros para os europeus, algo que despertava bastante interesse na época.

O obra foi concebida para ser um grande espetáculo, não apenas por sua música belíssima e poderosa, mas toda a apresentação. A ópera, em quatro atos, contém um coral numeroso e um balé no terceiro ato. Tudo para dar o aspecto de grandeza e aventura épica que a história transmite. É uma grande realização da cultura nacional.

Mas como a cultura nacional não vale nada para os identitários, chegamos ao resultado da montagem atual no Theatro Municipal. Todo o espírito da obra foi aniquilado. Não há aventura, não há guerra, não há luta, os conflitos foram reduzidos ao máximo. Ou melhor, talvez o conflito que mais tenha aparecido foi justamente a tentativa de Ailton Krenak de destruir a obra. Mas também nisso, Krenak não foi muito bem sucedido, o que o público pode ver foi que a transformação de um espetáculo grandioso em algo incompreensível.

A música permaneceu, ali havia a orquestra e os cantores, mas o aspecto cênico tão necessário para a obra foi trucidado, liquidado e enterrado. Substituíram tudo por elementos de uma arte genericamente indígena. Desenhos tribais que passeavam num telão super moderno (“Como é ser civilizado?”*) pela cabeça dos espectadores, projeções descoladas da história que estava endo contada, frases com um pseudo protesto que apareciam fora de tempo e de lugar. Chegou ao ponto tal que, durante o belo solo da soprano que interpretava Ceci, passaram imagens antigas em um telão, com frases desconexas sobre a ação de antropólogos em tempos imemoriais, concorrendo a atenção com uma parte importante da peça.

A palavra aventureiro, que consta na peça, foi “traduzida” ideologicamente como “explorador”, e várias coisas absurdas como essa.

Um diretor que se propõe a fazer uma montagem de uma peça tende a realizar de acordo com uma interpretação que ele faz da obra. Atualmente, essas interpretações tem sido uma verdadeira lástima. Mas suponhamos que a tentativa de interpretação de O Guarani proposta por Krenak fosse séria. Se esperaria algo que fosse interessante de se assistir, ainda que a concepção ideológica por trás da interpretação fosse errada. O que se assistiu no Municipal, no entanto, foi algo vergonhoso, de muito mau gosto.

Segundo o que se noticiou na imprensa e as próprias declarações de Krenak, a intenção da montagem era opor o índio apresentado na ópera ao índio que, segundo eles, é o índio “real”. Mas isso não fica claro ao espectador. Colocaram um índio mudo para servir como uma espécie de sombra ao tenor que representava Peri, meio que numa relação da dupla Zorro e Tonto. A única sensação que conseguiram passar foi a de ridículo, como se costuma dizer popularmente, uma vergonha alheia.

Mas é ainda pior do que simples ridículo. Ao enxertar na peça elementos supostamente indígenas, Krenak apenas conseguiu o vexame de colocar os índios que estavam ali numa posição desfavorável. Esse, aliás, é o único resultado possível quando se contrasta o “tiro de canhão” que é uma ópera super complexa do romantismo com elementos simples da cultura dos índios.

Aqui, vale um parêntese: a cultura do índio apresentada ali já não é nada mais do que uma cultura popular brasileira. Um violão e uma rabeca (talvez um violino, pois não era possível enxergar direito), instrumentos trazidos pelos europeus, acompanhando alguma percussão indígena. É provável que Krenak, em toda a sua vontade demagógica, nem tenha parado para pensar que aquela música apresentada como sendo dos índios eram no máximo um resquício de cultura indígena. Não há nenhum problema nisso, é assim a cultura folclórica brasileira, uma mistura de elementos europeus, indígenas e africanos,  mas é preciso notar esse tipo de coisa para mostrar a incoerência da ideologia identitária.

Krenak, ao tentar prevalecer na montagem sua concepção do “índio real” como “protagonista”, acabou conseguindo o efeito contrário. Transformou o índio num pobre coitado.

Enquanto Carlos Gomes na obra enaltece os índios, Krenak os torna pequenos. Os românticos enalteciam os índios porque eles entendiam – e é verdade – que os índios constituíam parte essencial da formação social e cultural do Brasil.

Por isso Peri – que foi chamado de ridículo por Krenak -, é o grande herói da peça, por isso os Aimorés são apresentados como grandes e temidos inimigos pelos próprios portugueses e espanhóis.

Krenak pensou tanto que o Peri de Carlos Gomes (e de José de Alencar) era ridículo que ele mesmo acabou concebendo e introduzindo um Peri ridículo. O terceiro ato, que é o mais importante da peça, foi reduzido a nada. O cacique dos aimorés foi transformado numa figura europeia que não se sabe exatamente o que está fazendo ali, tiraram o balé dos aimorés, que simboliza a preparação para matar e comer o prisioneiro Peri.

A assim, depois de transformar Peri num ridículo, Krenak também transforma os aimorés em algo sem importância.

Se Carlos Gomes procurou exaltar o índio para um público europeu ávido por conhecer o que na época era algo exótico, Krenak fez o contrário. No final das contas, quem assistiu à montagem fica sem saber exatamente o que pensar dos índios.

Na verdade, temos a impressão que os índios foram enganados de novo. Um cara que foi eleito pela burguesia para ser seu representante, ganhou um cargo no Theatro Municipal ligado à prefeitura do MDB-PSDB, para vender o peixe de que ali eles seriam “representados”.

Fizeram foi uma enorme sacanagem com os índios!

Os supostos defensores atuais dos índios se mostram muito mais inimigos dos índios do que os românticos do século XIX. Isso sim um grande aprendizado para as novas gerações!

* Essa pergunta foi aberta em uma faixa no palco

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