José Álvaro Cardoso

Graduado pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestre em Economia Rural pela Universidade Federal da Paraíba e Doutor em Ciências Humanas pela UFSC. Trabalha no DIEESE.

Coluna

A dura realidade da Argentina

"Milei não é Bolsonaro. É Bolsonaro turbinado na 5ª potência. O Bolsonaro deles é Macri, que já foi governo entre 2015 e 2019"

Com a eleição do ultradireitista Javier Milei na Argentina, vale projetar alguns impactos possíveis para a economia e para o povo argentino, nossos vizinhos na América do Sul.   A Argentina corre vários riscos, inclusive de uma hiperinflação. O povo argentino, especialmente os mais velhos, que eram adultos em 1989 e 1990, conhecem bem o fenômeno da hiperinflação, que simplesmente faz explodir a economia nacional, destrói empregos e espalha a miséria. Em 1989 havia filas no centro de Buenos Aires, para os desvalidos pela crise poderem tomar um prato de sopa.

A inflação anual neste momento está na casa dos 140%. Mesmo que não haja hiperinflação, o conjunto de fatores colocados na conjuntura, poderá levar a uma inflação muito mais elevada que a atual, liquidando o poder de compra dos salários, que vem caindo nos últimos oito anos. Os salários perderam inclusive no governo atual, de Alberto Fernández, que foi muito ruim para os trabalhadores, o que, aliás, facilitou a vitória de “El loco”.

Atualmente um dólar vale cerca de 350 pesos no câmbio oficial.  No paralelo, o blue, um dólar custa mais de 1.000 pesos. Milei quer que encareça ainda mais o dólar, pois deseja uma desvalorização ainda maior do peso. A razão disso é simples: um dos carros chefes de sua campanha é o fim do peso e a dolarização da economia argentina. Quanto mais caro estiver o dólar, mais fácil será converter o dólar na moeda nacional.  Em um contexto de desespero, trazido por uma eventual hiperinflação, a moeda nacional virará pó, a economia se dolarizará imediatamente. No caso da Argentina, a economia já é bi monetária, ou seja, os agentes econômicos usam muito o dólar, juntamente com a moeda nacional. Os ricos priorizam as transações em dólar, a própria classe média faz poupança na moeda norte-americana.

Com a hiperinflação, a economia automaticamente fugiria para o dólar, porque a sociedade necessita de uma referência monetária estável, que possa exercer as funções básicas do dinheiro: meio de troca, unidade de conta e reserva de valor.  Numa hiperinflação, o peso seria uma pedra de gelo, sob um sol de 60 graus Celsius.  As moedas, na sociedade moderna, são fiduciárias, ou seja, dependem da confiança da sociedade. A hiperinflação, que representa a desvalorização radical da moeda nacional, significa que não há mais confiança na moeda e ela perde suas funções. Se não há confiança na moeda nacional, as instituições como um todo, para uma boa parte da população, perderam também o crédito. Não foi por acaso que um sujeito que já afirmou que a Argentina é uma merda, foi eleito.

Tudo indica que Milei deseja a hiperinflação porque isso facilitará a aceitação da sociedade ao fim da moeda nacional. Com a vantagem adicional de o governo que está saindo, ser o culpado.  Se Milei, e as forças reacionárias e entreguistas que o sustentam, levarem adiante a aventura da extinção do banco central argentino e da moeda nacional, será uma experiência histórica muito impactante. Infelizmente.

Os três países que dolarizaram suas economias, Equador, Panamá e El Salvador, são pequenos e de economia muito frágil. O Equador, que dos três é o que tem economia mais robusta, se sustenta pela exportação de petróleobananacamarãoouro etc., ou seja, produtos agrícolas primários, as chamadas commodities. Vive também de transferências de dinheiro de emigrantes equatorianos que trabalham no exterior, o que ilustra a própria situação econômica do país.

A Argentina é um país muito importante na América do Sul. Possui o segundo maior território, o segundo maior PIB e a segunda população da Região. Tem muitos recursos agrícolas, minerais e indústria diversificada. Conta com grandes reservas de petróleo e gás. O Brasil possui, segundo a UNESCO, cerca de 700 pesquisadores por milhão de habitantes, abaixo da Argentina, que tem 1.200 pesquisadores por milhão de habitantes.

A proposta de tornar o dólar a moeda oficial da Argentina, além de implicar numa renúncia absoluta da soberania nacional, se depara com obstáculo nada banal: o governo da Argentina não tem dólares. Exatamente por isso tem um grande endividamento com o FMI, contraído no governo de Maurício Macri.  O empréstimo com o FMI tomado originalmente pela Argentina durante o governo de Macri foi de US$ 57 bilhões, o maior da história do Fundo. No entanto, ao assumir a presidência, no final de 2019, o atual presidente, Alberto Fernández, renunciou às parcelas pendentes, renegociando-as em 2021 em um acordo total de US$ 44 bilhões. Obviamente, a Argentina também não poderá emitir dólares, a fonte principal da moeda é o comércio exterior, ou seja, basicamente os valores obtidos nas exportações de commodities agrícolas e minerais. O país tem o considerável problema de consumir mais dólares do que aqueles que consegue “produzir”, isto é, os que acumula através de seu comércio exterior.

Milei, um ultra neoliberal da Escola Austríaca de economia (sem experimentação em nenhuma parte do mundo), afirma que vai acabar com os subsídios governamentais para o gás, eletricidade, transporte público. Isso irá provocar um aumento do custo de vida das famílias, porque esses subsídios são fundamentais para manter o poder aquisitivo de grande parte da população.  A proposta do Milei é desregulamentar tudo.  Preço da gasolina, aluguéis e outros, que hoje são regulamentados pelo Estado, vão ficar ao sabor da “livre concorrência”.

Se o dólar sai de 300 pesos para mais de 1.000 (como está hoje no paralelo), se acabam os subsídios públicos, se os alugueis e a gasolina são desregulamentados, se a inflação aumenta e tem uma recessão, não se pode prever o que acontecerá.  Estagflação (estagnação com inflação alta) implica em alto nível de desemprego, o que irá aumentar a pobreza, que já está em 40% da população. Entre os jovens a pobreza é ainda maior.

O processo na Argentina pode combinar nos próximos meses:

a.uma forte alta da inflação que pode durar meses;

b.uma brutal recessão, com crescimento explosivo do desemprego;

c.queda das importações em função da recessão;

d.políticas de incentivo às exportações, porque o dólar oficial vai aumentar muito e estimular as exportações.

Os representantes do futuro governo da Argentina, falam em seis meses, a partir da posse, muito duros. Estão preparando a população para o pior. E tem dito que vão usar a violência se necessário for.  Mas, o futuro governo terá força para impor um programa de guerra contra a população como esse, partindo já de um índice de pobreza acima de 40%? A população vai aguentar isso? A repressão será suficiente?

Aparentemente, Milei pretende lançar um pacote de medidas logo depois de assumir, que contenha todo o estrago que pretende fazer, incluindo a privatização da YPF (estatal de petróleo). E que faça tudo rapidamente.  A Argentina tem uma grande reserva de petróleo e gás, que Milei promete que vai privatizar. O programa de governo dele, como um todo, significa uma renúncia integral à soberania nacional. Aliás, é um puxa saco explícito do governo norte-americano.

O modelo que Milei pretende implantar na Argentina é muito mais duro que o modelo de Pinochet no Chile, porque, além de mais profundo, a estratégia é implantar rapidamente, e fazer o que for preciso pra isso. O novo governo irá tentar implantar esse programa inédito na história do capitalismo, partindo de um nível de pobreza que já supera os 40%, e com um nível altíssimo de informalidade do trabalho.

Milei não é Bolsonaro. É Bolsonaro turbinado na 5ª potência. O Bolsonaro deles é Macri, que já foi governo entre 2015 e 2019. Tudo indica que Milei é um novo padrão de direita, que o imperialismo quer implantar na América Latina como um todo.  Como já ocorreu antes, os impressionantes acontecimentos na Argentina requerem toda a atenção dos brasileiros.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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