A atenção recente ao Oriente Médio, com a Copa do Catar, levou inclusive o núcleo da imprensa imperialista a buscar fazer demagogia com a região. Em coluna do New York Times, de seu editorialista de política internacional desde 1995, reproduzida em português no jornal “brasileiro” golpista Folha de São Paulo, se fala que o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, pode salvar o Oriente Médio a partir de investimentos ambientais. Uma noção histórica e politicamente ignorante, que propõe uma suposta paz em torno de uma união para a defesa de recursos naturais.
A coluna noticia um acordo entre Jordânia, Israel e Emirados Árabes Unidos com uma suposta ajuda do enviado dos EUA para o clima, John Kerry. A colaboração consiste nos Emirados Árabes garantirem capital de investimento para a construção de uma usina solar pela Jordânia, com capacidade de 600 megawatts. Essa energia então seria acessada por Israel, para suas usinas de dessalinização (que correspondem a quase 90% da água doce utilizada por Israel), que bombeariam parte da água para o Mar da Galiléia e então para o Rio Jordão, de modo que ele volte a ser o transportador regional e natural de água. A capacidade do rio vem se reduzindo com o passar dos anos e as mudanças climáticas.
O Rio Jordão já teve 100 metros de largura em determinado ponto mas, hoje, no trecho especificado na matéria, ele varia de cinco a dez metros. Onde o rio permitia o cultivo de uma variedade de frutas e verduras, hoje apenas tamareiras são cultivadas, uma árvore resistente ao clima e à falta de água. O que se coloca é que nem mesmo as tamareiras irão resistir caso a tendência atual continue.
Segundo estudo da ONG EcoPeace, a recuperação do vale do Jordão e do próprio rio, com o tempo, poderiam garantir um incentivo conjunto de bilhões de dólares a “israelenses, palestinos e jordanianos da área”. Segundo a coluna, caso o governo Joe Biden consiga trabalhar pela efetivação do acordo, será a maior medida para a paz no Oriente Médio tomada pelos EUA desde 1978.
O discurso oculta a hipocrisia do imperialismo e uma farsa completa. Toda a instabilidade no Oriente Médio, os golpes de Estado, as guerras, a escassez e o atraso são de responsabilidade direta do imperialismo. Para garantir seu domínio sobre a região, grupos religiosos foram impostos através de guerrilhas, financiamento e armamento. O próprio atraso cultural é de responsabilidade direta das grandes potências.
A propaganda imperialista que hoje se apressa em falar dos direitos das mulheres, de liberdades sexuais etc., sempre se esquece de mencionar que tais direitos foram diretamente ceifados pela intervenção imperialista. O próprio ”Estado” de Israel se configura numa base militar do imperialismo imposta à região, assentada sob a ideologia de supremacia racial dos judeus, o sionismo, com o emprego direto de uma verdadeira limpeza étnica tanto na sua fundação, como até hoje, com a expansão territorial pela colonização de territórios do que seria a Palestina através da expulsão armada, destruição de infraestrutura e economia, inclusive de recursos naturais, como as tradicionais oliveiras.
As oliveiras são árvores palestinas tradicionais e ancestrais, demoram décadas para amadurecer, e são cortadas para expulsar da terra pessoas pobres, agricultores. É um escárnio a política proposta de “paz ambiental”.
A questão da água torna essa farsa numa coisa ainda mais aberrante. Na faixa de Gaza, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, 97% da água bombeada do único aquífero de Gaza, que vem se extinguindo, é inadequada para o consumo humano, falhando em corresponder a padrões mínimos de qualidade para água potável. O Estado de Israel controla os recursos hídricos e restringe o uso pelos palestinos. Na Cisjordânia ocupada, palestinos são proibidos de cavar novos poços, proibidos de utilizar água do Rio Jordão e são forçados a comprar quase um quarto da água que utilizam de Israel.
Que Estados árabes realizem acordos com Israel nesse sentido é uma aberração, ainda piorada pela interferência dos Estados Unidos. A causa de todos os problemas, seja da água, seja a questão ambiental e todos os outros é a intervenção imperialista. Em especial de Israel, estabelecido com a função de explorar o Oriente Médio e principal mantenedor do que é efetivamente uma gigante base militar de operações naquela região.
A única forma real de solucionar os problemas dos povos oprimidos do Oriente Médio é pela expulsão do imperialismo daquela região, e não com planos mirabolantes em tratados com o imperialismo decadente.




