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Ascânio Rubi

Ascânio Rubi é um trabalhador autodidata, que gosta de ler e de pensar. Os amigos me dizem que sou fisicamente parecido com certo “velho barbudo” de quem tomo emprestada a foto ao lado.

Todos, todas e "todes"

O identitarismo e a armadilha das palavras

As listas de termos “incorretos” ou “ofensivos” não passam de uma tentativa de disciplinar a liberdade de expressão


Nos últimos tempos, o que não falta é quem diga o que deve e o que não deve ser dito ou ainda como se deve dizer aquilo que se pensa. A reiteração do discurso proibitório normaliza um fato que deveria soar escandaloso: afinal, nossos pensamentos agora têm de se encaixar em fórmulas de dizer, consideradas “corretas” ou “não ofensivas”, pensadas por outros. Tais fórmulas pululam na internet em incontáveis matérias jornalísticas do tipo “saiba quais são as palavras que você não deve usar mais”.

Segundo a revista “Capricho”, que foi uma publicação da editora Abril voltada para adolescentes e hoje se apresenta como “produtora de conteúdo, eventos e produtos licenciados, […] consultoria de tendências especializada em adolescentes para atender marcas”, muitas das palavras da língua portuguesa “devem hoje ser evitadas a todo custo, pois são heranças de uma sociedade machista e racista”. Essa é basicamente uma política dos adeptos do identitarismo, segundo a qual as divisões fundamentais da sociedade estão ligadas à identidade das pessoas, daí seu foco em racismo, machismo e homofobia.

Tais problemas, de fato, existem na sociedade e não há como negar isso. Ocorre, porém, que, para os identitários, a causa desses males é subjetiva ou psicológica, não socioeconômica. Desse ponto de vista, seríamos todos racistas, machistas e homofóbicos por alguma motivação psíquica inconsciente. Assim, para corrigir essa mácula que nos foi legada pela sociedade patriarcal, temos de agir sobre nossa herança cultural: destruir estátuas, jogar na fogueira as obras de escritores e artistas do passado, bem como os livros de história, e – tarefa mais difícil ainda, se não impossível – revisar a língua que falamos.

Nem é preciso dizer que esse movimento tem caráter conservador, pois omite da equação o seu dado essencial e potencialmente revolucionário, que é a luta de classes. Agrupa todas as mulheres, ou todos os negros, ou todos os homossexuais, como se esses indivíduos constituíssem categorias homogêneas, independentemente de sua posição de classe. Essa homogeneidade, no entanto, é falsa, o que torna toda a teoria uma grande farsa.

A luta de classes, estrategicamente ocultada do debate, é, na verdade, o que determina os ganhadores e os perdedores. Basicamente, os pobres, como são maioria nas referidas categorias oprimidas (mulheres, negros, LGBT), fornecem as estatísticas de que se valem os que já angariaram posições melhores na sociedade e estão prontos para obter “visibilidade” ou algum cargo importante. Na prática, alguns representantes das identidades (os de classe média em ascensão) usufruirão, com grande alarde, de cargos e posições de destaque na sociedade e, em troca, devolverão ao sistema o discurso político da “representatividade simbólica” dos demais. Em suma, entra em ação a velha máxima de Lampedusa de que algo tem de mudar para que nada mude.

Essas ideias, como quaisquer outras, devem ser discutidas, mas seus adeptos, em geral imbuídos da intransigência dos fanáticos, não abrem espaço para questionamento, pois se veem como arautos de uma verdade libertadora que prescinde de demonstração. Qualquer semelhança com um dogma religioso não será mera coincidência – mais ainda se levarmos em conta que o veto a certas palavras e expressões tem claro sentido moral.

Esse sentido moral, no entanto, aparece revestido de um saber supostamente produzido com base em pesquisa. Assim é que lançam mão daquilo que apresentam como o sentido etimológico (portanto, a um só tempo, “verdadeiro” e oculto) dos termos que todos usamos sem perceber que, ao proferi-los, estamos reforçando as estruturas de um “patriarcado branco e heteronormativo”. A terminologia pomposa de que se valem como justificativa das “proibições” serve para garantir um ar de elaboração intelectual, o que, em si, funcionaria como uma espécie de argumento de autoridade, ainda que dificilmente alguém atribua essas ideias a um autor.

Nas matérias da imprensa, como a da revista Capricho e outras, nem mesmo aparece a preocupação em justificar o que quer que seja. Tais ideias são, por óbvio, a “coisa certa”, portanto os textos têm o tom de uma conversa em que um amigo mais experiente explica aos demais como se comportar.  

Na lista dessa publicação, aparece, por exemplo, a expressão “língua materna”, considerada problemática porque o adjetivo “materna” reforçaria “o papel da mulher perante a sociedade patriarcal: o de ser a responsável pelo cuidado da casa e dos filhos, enquanto o pai é o provedor que trabalha na rua”. Seria ocioso explicar que a língua materna é a que pessoa recebe no país do seu nascimento, como o leite materno é o leite que recebe da mãe, sendo fato que, até agora, as pessoas têm nascido de uma mulher, a “mãe”. Talvez o autor do texto ache melhor usar a expressão “língua pátria”, em alusão ao pai, como era comum na época do regime militar.

Outro item da lista é a palavra “mulata” (posta no feminino), que se segue desta explicação: “o substantivo vem de ‘mula’, animal derivado do cruzamento de um burro com uma égua. Era como as filhas bastardas de homens brancos, geralmente Senhores do Engenho, com mulheres negras, geralmente escravas, eram chamadas”. O verbete termina com uma advertência: “Sobretudo, é um termo racista”. 

Do ponto de vista biológico, “mula” é o resultado do cruzamento do cavalo com a jumenta ou do jumento com a égua. O animal é um híbrido, sendo daí vinda a associação da pessoa fruto da mistura de branco com negro com essa ideia. Na interpretação algo fantasiosa da matéria jornalística, nem mesmo se considera a existência do termo no gênero gramatical masculino (“mulato”). 

O mais provável é que tenha prevalecido na analogia o traço semântico de mistura ou hibridismo. Independentemente de sua origem, o termo não é usado de forma pejorativa, ou seja, com o intuito de ofender ou diminuir o valor de alguém, sendo antes uma caracterização física – tanto é que somente agora, com a doutrina identitária, é que se “convencionou” tratar a palavra como depreciativa.

O autor da matéria, muito criativo, explica ao público adolescente que “doméstica” também é uma palavra pejorativa. Segundo ele, “a palavra, usada hoje para retratar secretárias do lar, vem do termo ‘domesticado’, que é tudo aquilo que o homem pode domesticar, incluindo animais”.  Com ares de sabichão, prossegue: “Surgiu em meados do século XVI, da necessidade de patrões brancos encontrarem um termo para classificar as escravas negras que trabalham para eles e eram domesticadas através da tortura”.

Uma consulta ao dicionário faria bem ao escrevinhador. Tivesse feito isso, teria descoberto que o adjetivo “doméstico” vem do latim “domus”, que quer dizer “casa”, “morada”, “habitação”, “domicílio” – uma adaptação do grego “dómos”, ou seja, “casa”, “habitação”, “morada dos deuses”. A datação da palavra em português remete ao século XIV, nada a ver com patrões brancos “domesticando” escravas negras. A empregada doméstica é uma pessoa que trabalha “na casa” de alguém. A título de curiosidade, “secretária”, na origem era quem guardava segredos, sendo o termo usado para designar um móvel, a escrivaninha. 

O fato é que, no funcionamento espontâneo da língua, os termos realmente depreciativos são percebidos como tais por todos os falantes, que, às vezes, fazem uso deles com a intenção de ofender mesmo. Sim, as pessoas usam as palavras para xingar, ofender, expressar múltiplas e variadas emoções. Importa aqui lembrar que o sentido das palavras se constrói coletivamente, não por um ou outro grupo que resolve atribuir novos significados a termos de uso comum.

O significado original de uma palavra pode alterar-se, pois as sociedades não são estáticas. Isso não quer dizer, no entanto, que alguém – ou algum grupo político – tenha o poder de arbitrariamente dizer o que é ofensivo ou depreciativo e o que não o é. É preciso haver o acordo tácito entre os falantes, que é o que permite a comunicação. Os xingamentos nos dão um bom exemplo, pois são percebidos como ofensivos, mesmo que seu significado literal pouco represente na sociedade moderna. O que vale é o acordo silencioso: tal palavra ou expressão ofende, é um palavrão. 

Por essas e por outras é que as listas de termos “incorretos” ou “ofensivos” não passam de uma tentativa de disciplinar a liberdade de expressão, inculcando um sem-número de informações falsas na cabeça das pessoas, que, de boa-fé, se submetem a essa lavagem cerebral. A tentativa de controle das línguas mais parece um experimento, cujo objetivo pode ser qualquer um, menos o de tornar o mundo um lugar mais “saudável”. 

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