Conheci o Thiago Souto em uma convenção de quadrinhos; no dia, ele divulgava a novela gráfica “Mikrokosmos”, de 2014, edição do autor. A trama é ficção científica, mas a referência à música erudita me chamou atenção, pois há um teclado na capa, sobre o qual pousam duas mãos, e “Mikrokosmos” é o título do ciclo de 153 peças para piano solo, do compositor húngaro Béla Bártok (1881-1945). Quem estuda piano, geralmente, já praticou com o “Mikrokosmos” devido à natureza didática das composições, o que não as reduz a peças fáceis de interpretar ou ouvir; o significado da palavra microcosmos, entretanto, no caso da HQ, deve ser expandido em outros sentidos sugeridos pela narrativa da novela.
Os sufixos gregos “micro” e “macro” se opõem; o primeiro significa “pequeno” e o segundo, “grande”. No texto da HQ, o macrocosmo é o cosmos em sua totalidade, sugerindo, pelo menos, três significados: (1) a sala dos estudos de piano – o protagonista é pianista, igualmente à mãe –; (2) a nave espacial – o pianista torna-se astronauta –; (3) o próprio pianista-astronauta, diante do universo. Nessa última significação, o pianista-astronauta pode ser reflexo do cosmos; o autor parece remeter ao simbolismo religioso do homem enquanto espelho do universo, isto é, o homem-microcosmo enquanto reflexo do macrocosmo.
Na linguagem do cinema, Stanley Kubrick redimensionou o papel da música erudita – principalmente a música erudita contemporânea –, atribuindo a ela outras funções além de ser mera trilha sonora, quer dizer, simples pano de fundo das ações; o famoso filme “2001, uma odisseia no espaço” é exemplo do que também ocorre em “O Iluminado”, “Barry Lindon”, “Laranja Mecânica”, “De olhos bem fechados”. Em seu “Mikrokosmos”, Thiago segue pelo mesmo caminho, valendo-se de Bártok, Schumann, Rachmaninoff, Chopin e Mozart para contar sua ficção científica.
Na HQ, semelhantemente ao cinema de Kubrick, a música não reflete apenas os estados passionais das personagens; por meio da tessitura musical e sua matemática, os domínios da numerologia, da música e da astronomia são correlacionados, permitindo, além das emoções, outros modos de compreender o mundo por meio da razão. Com alusões ao repertório erudito, de compositores clássicos a contemporâneos, Thiago harmoniza, via música, o homem e o cosmos; surpreendentemente, ele faz isso sem compor peças para piano, mas compondo HQs, valendo-se de sinestesias e de interdiscursividade entre as linguagens musicais, verbais e visuais, dando, assim, sentido às vidas de suas personagens.
