Victor Assis

Editor e colunista do Diário Causa Operária. Membro da Direção Nacional do PCO. Integra o Coletivo de Negros João Cândido e a coordenação dos comitês de luta no estado de Pernambuco.

Hipocrisia

Mamãe, falei!

Mais uma vez, esquerda pequeno-burguesa se mostra mais escandalizada com as palavras do que com os canhões

Quem compareceu à principal arena da política nacional na internet, o Twitter, na noite da última sexta-feira (4), deparou-se com o escândalo da vez: as declarações escatológicas do deputado estadual Arthur do Val (PODE-SP) sobre as mulheres do Leste Europeu. Com a palavra, o senhor deputado.

Acabei de cruzar a fronteira a pé aqui da Ucrânia com a Eslováquia. Maluco, eu juro… eu, nunca, na minha vida… ó, eu tenho 35 anos. Eu nunca na minha vida, nunca, vi nada parecido assim em termos de ‘mina’ bonita. (…) Mano, eu estou mal. Estou mal, estou mal. Eu passei agora… são quatro barreiras alfandegárias. São duas casinhas em cada país. Mano, eu juro para vocês. eu contei: foram 12 policiais deusas. Deusas, mas deusas, assim, que você casa e, assim, você faz tudo o que ela quiser. Eu estou mal, cara. (…) E detalhe, vou te dizer: elas são fáceis porque são pobres.

Sua fala é de um verdadeiro animal. Eslovacos, ucranianos, russos, poloneses, tchecos e todos os povos eslavos têm todo o direito do mundo de esfregar sua cara no asfalto. Trata-se de um filhinho de papai que vem de outro país para, assim como fazem muitos norte-americanos e europeus, se aproveitar da condição miserável de muitas mulheres do Leste Europeu para prostituí-las.

Os áudios vazados causaram uma repulsa generalizada. Parlamentares do PT entraram com uma representação no Conselho de Ética da Alesp contra Arthur do Val, sua própria namorada anunciou publicamente o fim do relacionamento, o Podemos anunciou que abrirá um processo disciplinar e a deputada Isa Penna (PSOL-SP), amiga do deputado, se mostrou indignada.

Por mais nojento que seja o que Arthur do Val tenha dito, é direito seu dizê-lo. Não há por que pedir qualquer sanção de suas atividades enquanto deputado. Quanto à indignação, a esquerda tem todo o direito de senti-la e deve, sim, denunciar publicamente que esse cidadão, que é um dos cabos eleitorais do ex-juiz Sergio Moro (PODE-PR) é um inimigo das mulheres. Mas o que chama a atenção é: por que foi preciso esperar que se vazasse um áudio para que de repente o PSOL, o PT, a Rede Globo e a “opinião pública” inteira se voltasse contra Arthur do Val?

Pergunto isso porque se suas declarações mostram um desprezo em relação às mulheres, suas ações são ainda mais graves. Todo mundo sabe que o tal deputado ficou conhecido nacionalmente por ser um provocador de manifestações da esquerda. Apelidado de “Mamãe Falei”, alcunha que ele próprio usou para nomear o seu canal no YouTube, Arthur do Val já foi em atos de primeiro de maio, mobilizações da CUT e até mesmo e ocupações de escolas para tentar intimidar os manifestantes. Não é à toa que foi violentamente expulso várias vezes. E o pior de tudo: o “Mamãe Falei” está na Ucrânia para lutar ao lado de milícias nazistas para defender a ditadura de Volodymyr Zelensky!

Isso, no entanto, não impediu que a imprensa golpista o chalerasse, nem que o PSOL, por exemplo, mantivesse relações.

Em 2018, a própria Isa Penna participou amistosamente de um programa com o “Mamãe Falei”. Em 2021, a deputada esteve junto com Arthur do Val de um comício organizado por João Doria. Tratar as mulheres do Leste Europeu como prostitutas, no entanto, é que teria sido a gota d’água… Por quê?

Não tem nada a ver com a questão da mulher. Até porque, como dito acima, a depender de como os deputados da direita, seguindo o exemplo de canalhas como Bill Gates e Joe Biden, tratam suas mulheres e amantes, a esquerda não deveria nem lhes dar bom dia. É pura hipocrisia. Sem falar que, por mais abjeto que seja dizer que vai trepar com as loirinhas do Leste Europeu porque elas estariam dispostas a trocar o corpo por um prato de comida, as ações de Arthur do Val são muito mais criminosas do que sua fala. Ao trabalhar para o golpe de 2016, ele está contribuindo diretamente para desgraçar milhares de vidas, incluindo das mulheres. Ao trabalhar para a OTAN e a ditadura de Zelensky, ele estará contribuindo para manter o regime mais nazista que existe no mundo atual.

Os desempregados, os mortos pelo coronavírus e os famintos de hoje no Brasil devem, à sua situação, a ratos como o “Mamãe Falei”. Assim como os que serão mortos em Donbass serão perfurados por balas de facínoras como o deputado brasileiro. Nos últimos oito anos, ao menos 14 mil ucranianos foram assassinados pelas milícias nazistas. Quantas dessas vidas seriam de mulheres?

E que fique claro: Arthur do Val apoia essas monstruosidades com plena consciência do que faz. O MBL, grupo que atuou para impulsionar sua figura, é notoriamente financiado por organizações ligadas ao Departamento de Estado norte-americano. E quanto à Ucrânia, todos do meio em que Arthur do Val circula sabem que é um laboratório da extrema-direita mundial, tanto que forneceu treinamento à bolsonarista Sara Winter, cuja atuação muito se assemelha à do “Mamãe Falei”.

O mistério do repentino “cancelamento” do “Mamãe Falei” é bastante simples de ser desvendado. É a política da moda do imperialismo e da esquerda pequeno-burguesa bem pensante: “faça o que quiser, só não fale para ninguém”. Se você, por exemplo, deixar que a polícia mate 28 pessoas na favela do Rio de Janeiro em uma única operação, como fizeram Eduardo Paes e o sucessor de Wilson Witzel que ninguém sabe o nome, não tem problema. Você não será “cancelado”, nem processado. Agora, se alguém falar alguma coisa, rapidamente o vespeiro identitário entra em ação. Isso, obviamente, depois de receberem o sinal verde da Rede Globo.

O grande crime do “Mamãe Falei” para a esquerda pequeno-burguesa e identitária foi, portanto, falar. Se tivesse ido metralhar mil russos e voltasse quietinho, poderia continuar comendo um croissant com Isa Penna nos cafés da manhã da Alesp.

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