O Afeganistão realizou sua primeira execução oficial desde a tomada do poder, em agosto de 2021. Em mais de um ano em que o Talibã retomou o controle do país dos norte-americanos, apenas uma pessoa foi morta de acordo com a lei, após receber a pena capital.
A informação apareceu para os membros da Organização das Nações Unidas como “muito preocupante” e tem causado estardalhaço na imprensa burguesa internacional, que gosta muito de falar sobre direitos humanos de países oprimidos e ignorarem todos os absurdos que ocorrem em países imperialistas.
A prova disso é que os casos, por exemplo, dos Estados Unidos, não são nem mesmo citados. Entre agosto de 2021 até hoje, 23 pessoas foram executadas oficialmente pelo governo dos EUA — em oposição a uma pessoa no Afeganistão.
A pena de morte, obviamente, em tempos de paz, não é democrática — a pior pena que uma pessoa pode receber é a de ter a sua vida retirada. Atualmente ela é permitida em 29 estados dos EUA, sendo alvo de discussão periodicamente. Os líderes de Estado na maioria das vezes se posicionam a favor da medida, demonstrando um nível de barbarismo enorme dentro do país.
O leitor poderia perguntar: mas, mesmo sendo apenas uma exceção no Afeganistão, o erro não é o mesmo? A diferença é que o Afeganistão é liderado pelo Talibã, retratado como um grupo até mesmo terrorista. Os EUA, entretanto, são um país que faz questão de exaltar seu “progressismo”, seu “respeito às minorias” e, além de tudo, criticam o Afeganistão por meio de suas organizações imperialistas como a ONU. São retratados como civilizados.
Até 2003, por exemplo, adolescentes acima de 16 anos poderiam ser executados pelo Estado por determinados crimes. Existem mais três execuções marcadas ainda para 2022 — e muitas mais marcadas até o ano de 2026. A pressão psicológica que uma burocracia como essa causa em um detento e em sua família é enorme, uma vez que este possui um dia marcado para morrer, seja lá qual o motivo, pela mão do Estado, não tendo ninguém a quem recorrer.
A pena de morte nos EUA é, por padrão, com uma injeção letal, procedimento que causou muitas controvérsias em seu início por não poder ser o suficiente para assassinar o indivíduo, dependendo de algumas de suas condições biológicas. Isso fazia com que o preso agonizasse por minutos até que finalmente perdesse a consciência, ou simplesmente não funcionava. Apesar disso, ao funcionar, é considerada o método mais humano dentre as alternativas, que incluem cadeira elétrica, enforcamento, fuzilamento e morte por câmara de gás – algo simbólico para um regime que se diz humano, mas que por dentro é o mais parecido com o III Reich atualmente.
Um aspecto importante é que tudo isso são mortes oficiais. Algum juiz olhou o caso e, conforme a lei norte-americana, decidiu se o indivíduo deveria ou não viver. Mas, além disso, poderíamos citar as milhares de mortes não oficiais que ocorrem por parte do governo dos EUA tanto dentro como fora do país. Nos últimos meses, de acordo com informações do jornal The Washington Post, mais de 1000 pessoas foram assassinadas pela polícia — isso considerando ainda que uma estimativa afirma que apenas um terço do que ocorre está registrado, uma vez que os policiais não são obrigados por lei a relatar essas ocorrências durante o trabalho.
No âmbito externo poderíamos citar as centenas de guerras causadas pelos EUA, incluindo, também, os 20 anos de invasão e ocupação do Afeganistão, no qual foram registradas oficialmente 176 mil mortes em decorrência direta da guerra: 46.319 civis, 69.095 soldados e 52.893 guerrilheiros. Esses números, no entanto, desconsideram os milhares que morreram em decorrência da fome, da sede, de doenças e outras diversas consequências da guerra.
Iraque, Síria, Irã, Vietnã, Palestina — esses são apenas alguns países oprimidos pelo imperialismo nos quais sua população foi morta arbitrariamente, direta ou indiretamente, pela pena de morte informal norte-americana. São anos de guerra que destroem esses países e proporcionam uma situação muito pior do que qualquer lei da xaria que possa existir.
É sempre válido lembrar, por exemplo, das 110 mil mortes causadas pelos EUA em poucos dias no final da Segunda Guerra Mundial, quando o país lançou duas bombas atômicas nas cidades de Hiroxima e Nagasaqui, matando milhares de civis que nada tinham a ver com a guerra, tudo com a desculpa de fazer o país se render, sendo que esse já havia se rendido.
O fato é que a imprensa e o imperialismo irão reagir a qualquer atitude do Talibã com extremo exagero e hipocrisia. Isso porque o grupo encabeçou uma verdadeira revolução ao retomar seu país de volta, ainda mais quando o fizeram com praticamente nenhuma resistência. Isso provocou uma imensa desmoralização do imperialismo, que, quando comparado ao exército norte-americano, foi derrotado por um pequeno grupo de pessoas, com pouquíssima tecnologia e que estava subjugada há décadas ao imperialismo.
Essa derrota faz com que a propaganda contra o Afeganistão quando seus líderes fazem qualquer coisa seja extremamente aumentada, desconsiderando todo o atraso do país, os costumes da região e até mesmo as atitudes do próprio imperialismo frente à sua população. A campanha da burguesia contra os países atrasados irá continuar enquanto esses procurarem sua independência e lutarem por isso.




