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Ascânio Rubi

Ascânio Rubi é um trabalhador autodidata, que gosta de ler e de pensar. Os amigos me dizem que sou fisicamente parecido com certo “velho barbudo” de quem tomo emprestada a foto ao lado.

TRIBUNAL DO IDENTITARISMO

Cancelamento é “civilização”?

Quem, afinal, decide o que e quem é “cancelável”? Vamos lembrar que o identitarismo não é um movimento de massas que tensiona o sistema


Na semana passada, na esteira do linchamento virtual do podcaster Monark, empreendido pelos identitários, foi publicado na Folha de São Paulo um texto que se propôs defender abertamente a “cultura do cancelamento”. De saída, seu autor já foi avisando que “gente que faz bobagem, ou comete crimes, passa por um momento de execração social, mas não passa disso”. Chama a atenção a pretensão de substituir a justiça no julgamento de crimes pelo justiçamento de internet, como se todos estivéssemos num programa de auditório ou, quem sabe, dando nosso voto no paredão do tal Big Brother da TV Globo.

O autor do texto não demonstrou habilidade para discutir seriamente coisa nenhuma, tanto que logo resvalou para afirmações bizarras como “Hilter não teria se viabilizado hoje. O cancelamento viria com os primeiros discursos” ou “Se houvesse a tal ‘cultura do cancelamento’ nos séculos XVI e XVII, gente preta não teria sido escravizada no continente africano”. Segundo ele, não teria havido colonização, mulheres não seriam mortas pelos maridos… e por aí vai.

Num exercício de anacronismo e de malabarismo com ideias típicas do senso comum, nosso amigo resolveu os problemas da humanidade por meio da mera adesão à “cultura do cancelamento”, que, embora para ele seja o ápice da civilização, mais não é que uma operação de censura, difamação e linchamento em nome do “bem”.

Não, o texto não saiu na seção de entretenimento, não era apresentado como piada. O que preocupa quando se lê uma coisa dessas, escrita a sério, é pensar que muitos desses identitários não têm a menor noção do que estão fazendo. Parece não se darem conta de que não passam de funcionários do sistema capitalista.

O exército de publicitários propagandeia essa nova moda como se fosse um avanço na relação dos consumidores com as marcas, já que eles estariam atrelando seus hábitos de consumo ao engajamento das empresas em certas causas. Sim, certas causas – particularmente as dos identitários.

A cultura do cancelamento é o tribunal do identitarismo. O cidadão, convertido em consumidor “consciente”, faz da ida ao supermercado ou ao shopping uma ação “política”. Diante da gôndola, o ativista escolhe não só produtos “saudáveis”, orgânicos, sem agrotóxicos, não testados em animais, veganos etc. como também marcas comprometidas com a preservação do meio ambiente, com a igualdade de gênero e com a inclusão social. Esse tipo de consumidor, em geral vindo de classes mais abastadas, é o alvo ideal do marketing de causas, ligado ao consumo de produtos mais caros (como se vê, ser do bem não é para todo o mundo).

Essas pessoas têm simpatia por um vago ideário de esquerda (tipo PSOL ou Cynara Meneses, a jornalista que sugeriu ao Lula trocar a picanha por um prato vegetariano), pois são “gente do bem” (não vamos confundi-las com os “cidadãos de bem”, que são outra turma), mas não têm nenhuma identificação com a luta do povo pobre e oprimido. O mais próximo da pobreza que conhecem é alguma história ouvida da empregada doméstica, a quem consideram tratar com muito respeito. A ação política dessa “esquerda pompom” se resume a gastar seu dinheiro com produtos engajados e empresas igualmente comprometidas com as tais causas.

Vale a pena entender qual é o grau de compromisso das empresas com essas causas, em si legítimas, pois esse é o ponto central do problema. Quando o departamento de marketing do Magazine Luiza inventou uma turma de trainees todos negros, a senhora Trajano viu as vendas da empresa se elevarem significativamente. A ação de marketing teria beneficiado vinte ou trinta pessoas negras de classe média, como se contratá-las fosse um grande favor, já que são negras. Quem ganhou mais com isso, a população negra oprimida ou o Magalu?

O reverso da moeda é o boicote, que os empresários fingem temer. Ou alguém acha mesmo que as decisões dos empresários estão sujeitas à vontade da turba da internet? Quem, afinal, decide o que e quem é “cancelável”, ou seja, quem manipula essa histeria? Vamos lembrar que o identitarismo não é um movimento de massas que tensiona o sistema – muito pelo contrário, ele é um movimento totalmente adaptado ao sistema capitalista e às suas regras. Sua reivindicação é um pedaço melhor ou maior do bolo para alguns de seus representantes, mas sem questionar quem é o dono da festa.

Os patrocinadores do Flow Podcast, por exemplo, só estavam preocupados com a audiência do programa, não com aquilo que ali se discutia… até que alguém (quem?) pescou uma frase do tal Monark e  soltou o busca-pé nas redes sociais, que logo tacharam o rapaz de nazista (ah, sim, ele disse que um partido nazista poderia ser legalizado – era uma “tese”, não uma peça d oratória nazista, mas o pessoal, tão inteligente, estudou análise de discurso só pela orelha dos livros).

Para o empresário, faz pouca diferença tirar o dinheiro daqui e botar ali, pois ele continua dando as cartas (é, afinal, o dono do dinheiro). Um caso concreto pode ajudar a enxergar melhor essa patacoada. O iFood foi uma das empresas que se apressaram a retirar o patrocínio do Flow e, como as demais, ficou bem na foto, certo?

Por outro lado, alguém já viu a tropa de linchadores virtuais se insurgir contra uma empresa que explora seus funcionários, recusando-se a reconhecer a relação patrão-empregado para furtar-se à concessão de direitos legais a trabalhadores ultraprecarizados? Ah, o aplicativo não é o empregador, pois ele apenas “faz a ponte” entre o trabalhador e os restaurantes. Então tá.

Os entregadores enfrentaram a pandemia desde o primeiro dia, sem vacina, sem apoio, sem nada (já que não têm direitos trabalhistas, pois não têm empregador!) para abastecer a despensa da esquerda pompom que ficou em casa brincando de identitarismo na internet. Esse tipo de coisa não leva essa gente simpática a cancelar o iFood e outras empresas do gênero. Explorar empregado é parte do jogo, está tudo certo; o que não pode é patrocinar programa cujo apresentador diga alguma coisa que não pertença à cartilha identitária.

A propósito, quantos negros (e brancos e mulheres e homossexuais pobres) estarão pedalando doze horas por dia para ganhar menos que um salário mínimo sem nenhum direito trabalhista? Bom, isso não é problema do identitarismo nem do tribunal de cancelamento.

O cancelado é sempre um indivíduo que, sozinho, arde na fogueira virtual feito as feiticeiras da Idade Média, enquanto os donos do dinheiro se divertem com esse novo poder de controle. Ninguém cancela quem tem poder: empresas, o Bolsonaro etc., o que mostra que essa “cultura do cancelamento” não é “civilização”, como quer o senhor Dodô, articulista da Folha, mas oportunismo e covardia.

O cancelamento, diga-se de passagem, segue a mesma lógica do embargo que os Estados Unidos impõem à Venezuela e a Cuba sob a justificativa de que fazem isso porque esses países “não respeitam os direitos humanos” – quem quiser que acredite nessas “boas intenções” do centro do imperialismo, que se vende como “o bem” ou “a civilização”.

*A opinião dos colunistas não representam, necessariamente, a posição deste Diário

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