Afonso Teixeira

Tradutor, formado em Letras pela USP e doutorado em Linguística com tese em tradução. Tem formação como músico, biólogo e cientista político.

Crise no Afeganistão

Por que não devemos temer o Talibã

Uma consideração sobre a vitória do grupo islâmico

Por Afonso Teixeira

Pode um grupo tão violento e atrasado como o Talibã fazer um governo melhor do que o de uma força “civilizada” de ocupação?

Hoje, coloquei uma observação num grupo de Direito sobre a tomada do poder no Afeganistão. Como eu me posiciono sempre a favor da autodeterminação dos povos, fui logo criticado. As críticas consistiam em coisas que as pessoas ouvem falar. Por exemplo: educação das mulheres, uso da burqa, amputação por roubos, apedrejamento etc.

Todavia, foi uma observação que me chamou mais à atenção: teria havido, durante a ocupação norte-americana, um avanço na condição das mulheres? E esse é o assunto deste texto.

Em primeiro lugar – e que fique bem claro: não houve avanço algum na condição das mulheres. A única coisa que os invasores fizeram foi matar mulheres. Mais de 100 mil pessoas perderam a vida durante a ocupação e o país foi totalmente desorganizado e saqueado.

Está certo, liberou-se o uso da burqa, que deixou de ser obrigatória. Mas essa liberação surtiu pouco efeito. As mulheres, em sua maioria, continuaram a usá-la. É uma tradição no país, bem anterior à invasão. Tampouco, não é apenas usada no Afeganistão. É usada por grupos religiosos em vários países islâmicos e, também, em Israel, por algumas seitas. O uso é sempre obrigatório para os crentes.

Por outro lado, não houve no país, praticamente, nenhuma melhora na condição de vida da população durante a ocupação. As taxas de educação continuaram baixas; a saúde foi privatizada; a mortalidade infantil é a maior do mundo hoje; a renda per capita é a 8ª menor do mundo; o analfabetismo é o 6º maior; a expectativa de vida de homens e mulheres é de 44 anos; o IDH é maior apenas que o de 10 países da África e um da Ásia, o Iêmen que, por sinal, está em guerra; a educação é a 16ª pior do mundo.

Além disso, os Estados Unidos, como país ocupante, deveriam vacinar o povo do Afeganistão. Tinham a obrigação de fazê-lo, tanto por administrá-lo indiretamente, como por terem sido eles um dos desenvolvedores de vacinas. Não o fizeram. Apenas 1,9% da população foi vacinada com uma dose (0,56% foi totalmente vacinada).

Outro argumento é que as mulheres puderam ir à escola e, durante o regime do Talibã, não podiam (na verdade, podiam ir para se alfabetizar apenas, até aos dez anos de idade). Mas, como será a educação no Afeganistão, depois de vinte anos de ocupação?

As mulheres podem ir à escola, mas poucas vão. As escolas, no país, são muito precárias. Os caminhos até elas, muito perigosos. Os pais não estimulam as filhas a irem estudar e muitos as proíbem. Mulher indo à escola no Afeganistão é motivo de piada para os homens: quando passam na rua, são ridicularizadas. Nas estradas, são molestadas. Além do mais, muitas escolas não têm sequer edificação. As aulas são dadas em tendas ou no meio do mato.

O índice de educação do país, durante o regime do Talibã, subiu, em cinco anos, de 0,125 para 0,226. Em vinte anos de ocupação, subiu de 0,226 para 0,365. Ou seja, em cinco anos de Talibã, o índice subiu 80%; em vinte anos de ocupação, subiu apenas 60%.

Diante desses dados, houve algum avanço no nível e vida da mulher? Nenhum! Algumas deixaram de usar a burqa. Só isso. Em suma, a deposição do Talibã, considerada por alguns como uma revolução, foi apenas uma revolução de vestuário.

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