Na semana passada, a Irlanda do Norte voltou a ser sacudida por violentas manifestações. As manifestações principais tiveram lugar em Belfast na linha divisória que separa um bairro predominantemente nacionalista (favorável à união com a República da Irlanda) de outro predominantemente unionista (favorável à permanência no Reino Unido).
Os dois bairros são separados por um muro fortificado. Grupos de jovens de ambos os bairros atacaram policiais com pedras e bombas de gasolina e outros projéteis. Um ônibus foi incendiado. Os distúrbios se estenderam por vários dias.
O estopim da revolta foi atribuído à decisão de não processar políticos do partido Sinn Fein que, em violação às regras de isolamento social devido à pandemia do COVID-19, compareceram ao funeral de um voluntário do Exército Provisório Republicano Irlandês.
Contudo, a insatisfação entre os unionistas já vinha crescendo desde a assinatura do acordo pelo qual o Reino Unido deixou a União Europeia (UE). Em razão desse acordo a Irlanda do Norte permanece no espaço comum europeu, mas fora do bloco comercial.
O acordo criou uma fronteira no Mar da Irlanda separando o território do restante do Reino Unido. O Protocolo da Irlanda do Norte, parte do acordo final da saída do Reino Unido da UE (Brexit), estabelece que algumas normas regulatórias da UE vigorem dentro da Irlanda do Norte. Bens que circulam entre o território e o restante do Reino Unido estão sujeitos a fiscalização. Em consequência, o comércio entre eles reduziu drasticamente.
Os distúrbios eclodem justamente quando se celebra o 23º aniversário do acordo de paz (Acordo da sexta-feira santa) que pôs fim a três décadas de violência na Irlanda do Norte. Os burocratas da UE têm afirmado que as disposições do protocolo reforçam os termos do acordo de 1998.
No entanto, ocorre justamente o contrário pois o ele desequilibra a balança em desfavor dos unionistas que estão se levantando contra uma legislação imposta de forma não democrática. O protocolo necessita da permissão do parlamento da Irlanda do Norte (Stormont) para que seus termos prevaleçam.
No entanto, a revogação do protocolo só pode ser efetuada após quatro anos após sua implementação que se deu em janeiro deste ano. Daí então é preciso aguardar um prazo de dois anos para que a revogação seja efetiva.
Todos os partidos unionistas se opõem ao protocolo, no entanto estão de braços amarrados. A paz que foi conseguida pelo acordo de 1998 encontra-se ameaçada. Mais uma vez os burocratas não eleitos da UE agem à revelia dos interesses das populações que estão sob a sua jurisdição e fazem eclodir a sua insatisfação.
Por sua vez, o Primeiro-Ministro britânico, Boris Johnson, durante sua campanha havia prometido que não consentiria num arranjo tal como o presente. No entanto, depois de eleito voltou atrás de sua promessa. Ao agir segundo seus próprios objetivos políticos ignorando o que se passa na realidade da Irlanda do Norte, a UE pode ter acendido o pavio de um barril de pólvora.




