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A serviço da terceira via

O “trotskista” que amava os tucanos

Para defender o PSDB, dirigente do PSOL ataca PCO e black bloc


O dirigente da corrente Resistência, do PSOL, publicou em seu perfil do Facebook, no dia 4 de julho, um texto com uma análise sobre as últimas manifestações do dia 3 e o movimento fora Bolsonaro.

Na publicação, Arcary critica, sem citar o PCO, as ações que acabaram culminando na expulsão do bloco do PSDB do ato. Segundo ele, foram “agressões gratuitas a ativistas tucanos LGBT’s. Não foi uma ação de autodefesa diante de um ataque de fascistas. Os militantes do PSDB não são fascistas, e estavam, legitimamente, presentes apoiando o programa Fora Bolsonaro.”

Vejamos com cuidado a argumentação de Arcary. Em primeiro lugar, chama a atenção que o dirigente do PSOL tenha transformado o PSDB num partido de ativistas. O principal partido da burguesia pró-imperialista no Brasil seria composto por militantes que foram para a avenida Paulista defender o “fora Bolsonaro”. Segundo essa ideia, então, os militantes do PSDB não são fascistas e, portanto, não seria justificado o ataque contra o bloco dos tucanos.

Além de tudo, tratava-se de ativistas LGBTs do PSDB, segundo Arcary. Realmente, diante de um partido tão democrático e com tanta preocupação com as causas dos oprimidos. Segundo as ideias de Arcary, os manifestantes que decidiram colocar para correr o bloco do PSDB seriam quase fascistas que atacaram gratuitamente pobres inocentes LGBTs que só estavam lá para pedir o fora Bolsonaro.

Trata-se, obviamente, de uma falsificação cujo único objetivo é defender o PSDB. Primeiro, como dissemos, não há militantes do PSDB, nem LGBT, nem nada. Segundo, não havia um bloco dos tucanos, o que havia era um pequeníssimo bloco com uma faixa da campanha eleitoral de Bruno Covas. Terceiro, o PSDB não é a favor do fora Bolsonaro, nem mesmo o impeachment foi assinado pelo partido.

Por que, então, tanto esforço para defender a presença do PSDB? A resposta é simples: Arcary é parte dos defensores da frente ampla com a direita, ou seja, um partidário da entrega das mobilizações para a direita. E o objetivo fundamental disso é a busc pela “terceira via” da direita nas eleições. Não à toa, Arcary faz tanta questão de dizer que quem estava lá foram os “militantes LGBTs” dos tucanos. Justamente no momento em que a direita tenta emplacar a candidatura de Eduardo Leita, o “BolsoLeite”, governador gaúcho que se declraou gay.

O jornal do grupo de Arcary, o Esquerda online, publicou no dia 9 um artigo assinado por Gibran Jordão intitulado “Parte da esquerda no Brasil ainda não entendeu que estamos enfrentando o neofascismo”. Ali, as posições de Arcary são reafirmadas com críticas diretas ao PCO. O artigo afirma que o “PCO é inimigo da unidade de ação para derrubar Bolsonaro!”.

“Assim, num momento onde as manifestações convocadas pela campanha Fora Bolsonaro ganham força de gravidade suficiente para atrair a base social da direita que se deslocaram em apoio aos atos, o que faz o PCO? Organiza um destacamento para agredir fisicamente setores ligados ao PSDB no meio dos atos”

Eis mais uma falsificação política. Para justificar a presença do PSDB nos atos, a corrente do PSOL afirma que se trata de atrair a base social da direita nos atos. Arcary “acredita” que o PSDB tem militantes, já Gibran acredita em algo ainda mais fantasioso: que o PSDB tem base social. Justamente o partido que, com todo o apoio da máquina da burguesia mais poderosa do País e não consegue emplacar nenhum candidato viável na eleição.

Arcary pode não saber, mas ao atacar o PCO e defender o PSDB, ele está servindo de cabo eleitoral para os tucanos. Quer dar aos tucanos uma base social que não é deles, uma “ajudinha” para a terceira via.

A “unidade da ação” aqui é mais uma falsificação. Segundo o artigo do Resistência, Leon Trótski seria a favor da unidade com a burguesia para derrotar o fascismo. Mas Trotski não defendia uma unidade abstrata nem uma unidade com a burguesia imperialista. A unidade a que Trótski se refere é entre as organizações operárias, mais ainda, entre as bases dessas organizações operárias. Adequar o PSDB, um partido sem base, sem militantes e representante da burguesia imperialista nessa teoria é uma falsificação.

Pior ainda, o PSDB, além de tudo isso que dissemos, nem mesmo é a favor de derrubar Bolsonaro. Os tucanos estão mais para aliados de Bolsonaro naquilo de mais essencial em sua política, que são os ataques ao povo.

Para defender o PSDB, Arcary não ataca apenas o PCO. Ele volta suas críticas ao que ele chama de “adeptos anarquistas da tática black bloc”. Os jovens que estão legitimamente revoltados contra a ditadura dos golpistas contra o povo são atacados pelo dirigente do PSOL que pede inclusive a repressão contra eles: “Seria um erro ultraesquerdista imperdoável não garantir o controle da segurança das próximas mobilizações.”

Aqui, a palavra ultraesquerdismo serve para esconder o peleguismo e conservadorismo de uma esquerda que se esforça para agradar, de todas as maneiras possíveis, a burguesia. Não tem nada de “ultraesquerdismo” defender o direito desses jovens se rebelarem. Mas mais grave ainda é chamar que o próprio movimento se organize para reprimir esses companheiros. A desculpa de que os atos dos black bloc são usados pela extrema-direita é a mais rasa possível, se Arcary fosse um inexperiente participante do movimento poderíamos levar em conta a ingenuidade de seu argumento, mas qualquer pessoa que conhece minimamente os movimento populares sabe que a direita sempre vai usar qualquer coisa para atacar a mobilização.

Qualquer amor platônico dessa esquerda pequeno-burguesa sobre as mobilizações radicalizadas em outros países – como recentemente aconteceu no Chile, por exemplo – não passa de discurso demagógico, porque na prática eles são a favor mesmo de “atos cívicos” com a participação do PSDB e a aprovação da direita. A grande pergunta é: se as mobilizações precisam da aprovação moral da direita, como o movimento vai conseguir derrubar Bolsonaro?

Essa é a esquerda a serviço da frente ampla, ou sendo mais exato, a serviço da “terceira via”.

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