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Victor Assis

Editor e colunista do Diário Causa Operária. Membro da Direção Nacional do PCO. Integra o Coletivo de Negros João Cândido e a coordenação dos comitês de luta no estado de Pernambuco.

Picaretagem

Jones Manoel não tem moral para falar de resistência ao golpe

Youtuber do PCB, que se aliou ao imperialismo norte-americano para apoiar a queda de Dilma Rousseff, agora aparece para criticar a política do PT na luta contra a direita

povo sem medo

No começo desta semana, o treteiro de Twitter Jones Manoel foi à TV 247 para dizer o óbvio: que a frente ampla “enfraqueceu a resistência contra o golpe” e que “não deu resposta nenhuma à prisão de Lula”. Pena que não pudemos contar com sua “sabedoria” à época — quem sabe, se o youtuber do PCB tivesse alertado antes, não teria havido golpe, nem prisão de Lula…

Que a frente ampla é uma chaga no interior do movimento operário e popular, já se sabe há, pelo menos, 90 anos, quando Leon Trótski analisou a política contrarrevolucionária do stalinismo mundo afora. Também não é novidade no Brasil: desde 2012, o PCO vinha denunciando o golpe de Estado e a prisão de Lula, convocando o povo à luta e criticando duramente as ilusões da esquerda com a direita golpista. Por que agora estaria Jones Manoel interessado em criticar a frente ampla na luta contra o golpe?

Se Jones Manoel estivesse de fato preocupado em travar uma luta contra a frente ampla do presente, usando o passado como lição para que a esquerda não volte a cometer os mesmos erros, o youtuber deveria fazer mais do que discurso  no sofá de casa contra a colaboração de classes. Deveria explicar quais são as tentativas de formulação de uma frente ampla no presente, criticá-las e atuar contra elas. O treteiro de Twitter, no entanto, está indo no sentido oposto: defendeu a participação do PSDB nos atos Fora Bolsonaro, defendeu a imposição do abutre Ciro Gomes (PDT) nas manifestações, mesmo sendo hostilizado pelo povo, se recusa a apoiar a candidatura de Lula, tem suas contas pagas pelo PSB, tem rabo preso com a Rede Globo e com Caetano Veloso e ainda teve a capacidade de ficar ao lado do Carrefour após um de seus seguranças assassinar barbaramente um trabalhador negro.

A crítica de Jones Manoel à frente ampla não é, portanto, uma crítica séria. A que serve então? Basicamente, a dois propósitos: aproveitar que está em campanha eleitoral e tentar passar uma borracha em seu passado negro, procurando fingir que era contra o golpe, e, ao mesmo tempo, criticar o PT por sua política equivocada.

Que o PT errou na luta contra o golpe, não há dúvida. E não se trata de um erro individual do PT: suas vacilações são a regra em todos os casos em que o nacionalismo burguês na América Latina se viu confrontado com o imperialismo. Foi assim com Getúlio Vargas, foi assim com João Goulart, foi assim com Salvador Allende, foi assim com Evo Morales: por mais que o nacionalismo burguês tenha uma fortíssima contradição com o imperialismo, a sua aliança com a burguesia nacional represa um enfrentamento decidido das massas com os grandes capitalistas. As vacilações do PT, neste sentido, não são um “defeito ideológico” do partido, mas sim a expressão das grandes contradições de um partido gigantesco, que tem em sua base um povo morrendo de fome, ao mesmo tempo em que suas direções estão ligadas a setores minoritários da burguesia nacional.

Mas se esse eterno conflito interno no PT impediu que o partido tivesse uma posição firme na luta contra a ofensiva golpista, também fez com que o partido fosse um dos mais ativos do último período. Sim, Jones Manoel pode alegar que o senador pernambucano Humberto Costa, do PT, em plena luta contra o golpe, tenha dito para “virar a página do golpe” e rifado a candidatura do próprio partdo em favor do PSB. Ou que Dilma Rousseff tenha errado em manter o suspeitíssimo José Eduardo Cardozo no Ministério da Justiça. O que o youtuber ignora, no entanto, é: nos últimos cinco anos, quais foram os principais partidos que atuaram nas ruas contra o golpe?

Todos os atos importantes nos anos de 2015 e 2016 contra a derrubada de Dilma Rousseff foram protagonizados pela CUT. E a CUT é dirigida pelo PT. Em 2017, houve uma série de mobilizações trabalhistas importantes e duas greves gerais. Novamente, a protagonista foi a CUT, do PT. Em 2018, ocorreu o momento de maior tensão de toda a luta contra o golpe: a luta contra a prisão de Lula no Sindicato dos Metalúrgicos. Lula é do PT, e a maioria que estava lá era base do PT. Em 2019, a campanha mais popular do ano, que formou milhares de comitês pelo país e mobilizou milhões de pessoas, foi a campanha “Lula Livre”, cuja base era maioria petista.

No fim das contas, as forças mais importantes em toda a luta contra o golpe foram o PCO, que sempre esteve na vanguarda do movimento, e o próprio PT (junto com as organizações que dirige, como a CUT e o MST). Coube ao PCO mostrar ao caminho, fazer uso da experiência histórica, organizar o movimento e dar o impulso necessário e coube aos setores mais combativos do PT, que possuem uma liberdade relativa em relação aos setores mais direitistas, massificar essa luta.

Jones Manoel, no entanto, ignora sumariamente essa realidade. A partir do momento em que simplesmente finge criticar a “frente ampla”, dá a entender que a política do PT teria sido a única responsável por impedir a luta contra o golpe, que teria acontecido de maneira totalmente independente do PT. Se assim fosse, a única salvação para a esquerda seria fazer uma macumba para que o PT deixasse de existir — não duvidamos que Jones Manoel o faça. E se assim também fosse, Jones Manoel, para ser minimamente honesto, teria que apontar quem representava a luta contra o golpe e teria sido impedido de lutar pelo PT.

Uma pergunta que convém muito neste momento é: onde estava Jones Manoel neste momento? Será que ele acha que ele era quem realmente estava enfrentando os golpistas, enquanto “o PT” o impedia? Ao que parece, é isso o que ele quer passar aos incautos que assistiram à sua entrevista. Mas a realidade é diametralmente oposta e o youtuber sabe muito bem: Jones Manoel apoiou o golpe.

É tudo, portanto, muito pior do que parece. Não só a crítica de Jones Manoel à frente ampla é papo furado e não só sua crítica ao PT é um oportunismo cretino, como ele é quem esteve envolvido na mais ampla das frentes: a aliança com o imperialismo contra o povo brasileiro. Jones Manoel, assim como o seu partido-grife, o PSB, e o seu partido-patrono, o PSOL, são cúmplices do movimento que levou o bolsonarismo ao governo.

Antes de prosseguir, um lembrete: Jones Manoel, na mesma entrevista, disse que a alegação de que ele apoiou o golpe de 2016 era uma “fake news” do PCO. Mas se é uma fosse uma “fake news”, seria uma “fake news” que ele próprio divulgou em outra entrevista, há cerca de um ano, concedida ao articulador petista Breno Altman.

Naquela entrevista bastante reveladora, Jones Manoel admite que atuou diretamente para sabotar, embora não tivesse influência política alguma, a campanha pela liberdade de Lula. Com a palavra, Jones Manoel:

Eu mantive na época a posição de que isso [campanha pela liberdade de Lula] não deveria ser pauta central da esquerda e continuo mantendo a posição de que isso não é pauta central das esquerdas. Especialmente nos espaços que estavam sendo construídos de mobilização de base, por exemplo, por educação, saúde, não se deveria empurrar o “Lula Livre” e todas essas pautas específicas. Lutei inclusive nos espaços em que eu estava inserido enquanto militante sindical contra isso de ‘a gente vai fazer uma campanha salarial pelo aumento do salário dos professores e a gente vai colocar um Lula Livre lá’. Não vai, não.

Jones Manoel disse ter participado de alguns poucos atos pela liberdade de Lula — até onde sabemos, não há registro disso —, mas confessou que “não fui muito animado”.

A declaração do youtuber é clara. Um militante de esquerda não ter uma posição sobre a perseguição ao ex-presidente Lula já é um erro grave, pois é isentar-se de um dos aspectos mais importantes da luta de classes. Mas Jones Manoel vai além: ele procurou desmobilizar um movimento que já existia em torno da liberdade de Lula. Ele fez o papel intriguento, reacionário e canalha da Folha de S.Paulo e da imprensa golpista, que, sempre quando o povo se radicaliza, aparece com os “sábios conselhos”. E os conselhos são sempre os mesmos: “o que importa é a educação, nada de partido, nada de PT, nada de esquerda, nada de vermelho”. Em outras palavras: que o movimento seja dirigido pelos setores e pelas ideias mais atrasadas possíveis.

No caso do golpe de Estado, Jones Manoel enrola ainda mais, mas não consegue esconder de que lado ficou. Segundo confessou a Breno Altman, o youtuber considerava que “a ameaça de impeachment era muito mais um jogo da burguesia brasileira para forçar o governo petista a intensificar o processo de ataques à classe trabalhadora e retirada de direitos”. Podemos dizer, novamente, com base nesse discurso, que Jones Manoel já teria cometido um grave erro em ignorar a luta contra a derrubada do governo do PT. Afinal, a conclusão óbvia de quem acha que o impeachment não é real é a de que não é necessário lutar contra ele. No entanto, mais uma vez, o youtuber foi além e se mostrou um verdadeiro militante antipetista.

Sem nenhum escrúpulo, Jones Manoel relembrou o que falava naquela época: “eu dizia que a gente tinha que muito mais focar no combate ao ajuste fiscal antipopular do que numa luta contra o golpe”. Novamente, suas ideias se encontram com a Folha de S.Paulo: em vez de o povo se preocupar em defender os “ladrões e corruptos do PT”, deveria se preocupar com a “saúde”, a “educação” e blá blá blá. O que nem a imprensa burguesa, nem Jones Manoel deixavam claro era que o “defensor da saúde e da educação” era Michel Temer…

E tem mais. Na entrevista, o youtuber lembra ainda um caso que o torna uma réplica negra e pernambucana do fascista bombadinho Arthur do Val (Podemos), o “Mamãe Falei” do MBL: “teve um ato no final de 2015 que eu ia brigando com os seguranças da CUT porque eu peguei o microfone para falar e falei contra o ajuste fiscal, pedi a cabeça do Joaquim Levy”.

Isso mesmo: a disposição de Jones Manoel em impedir a luta contra o golpe era tanta, tanta, que ele foi a um ato contra o golpe para defender… o golpe! Sorte dele que contou com a benevolência nem sempre conveniente da CUT…

Visto esse brevíssimo histórico do treteiro de Twitter, contado por ele mesmo, agora fica claro porque o pré-candidato ao governo de Pernambuco pelo PCB decidiu atacar a “frente ampla”. Não é porque ele seja contra a política de colaboração entre as organizações que representam o povo trabalhador e os carrascos do povo. É simplesmente porque ele, como uma boa viúva do stalinismo e um bom político enrolão e picareta, quer tentar apagar a história. Quer dizer que o responsável pela desgraça cotidiana do povo nada tem a ver com as suas ações e de seus chefes, mas sim de terceiros.

Pode ser que Jones Manoel nunca tenha defendido publicamente a nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, nem dito que o parlamento iria salvar o povo, nem apoiado o nome de Michel Temer para vice de Dilma Rousseff. E é tão somente isso que ele tem na manga para criticar a “frente ampla”.

No entanto, o apoio ao golpe de Estado e à prisão de Lula é a mais bem acabada frente ampla. É a colaboração mais rasteira e podre com o imperialismo norte-americano. Uma colaboração que não vem das ilusões com a possibilidade de um setor da burguesia apoiar um movimento poderoso, como o lulismo, mas que vem puramente do interesse. Uma colaboração que visa a um cargo, a um prestígio junto ao regime político. Um ataque direto ao povo tão somente em nome de uma carreira de deputado, de professor universitário ou de colunista de um jornal dos patrões.

Jones Manoel encerra em sua figura os lados mais sinistros da frente ampla. Se o PT é um partido vivo, que está em uma luta interna entre os setores que querem derrotar o golpe e os setores que querem se adaptar ao golpe, o youtuber traz consigo somente a disposição ininterrupta de colaborar com o imperialismo. Jones Manoel não oscila entre lutar e não lutar: está sempre atento ao que diz a imprensa burguesa, ao que falam os deputados do PSOL e ao que ensinam as universidades norte-americanas para fazer exatamente o que o mestre mandar. Afinal, o faro que o pequeno-burguês não tem para prever um golpe de Estado ou uma conspiração do imperialismo, ele tem para saber onde tem dinheiro.

A sabotagem de Jones Manoel à luta contra o golpe no Brasil não é o único caso de um pseudo-esquerdista que tenha apoiado a derrubada do PT. Jones Manoel é a expressão da chamada “nova esquerda”: um grupinho de universitários, vindos da classe média ou cooptados das periferias por instituições como ONGs, que se especializam em atacar a ala esquerda do regime e lamber as botas do imperialismo. Jones Manoel é produto do mesmo laboratório que fabricou o presidente eleito no Chile, Gabriel Boric, o índio equatoriano golpista Yaku Pérez e o pré-candidato do PSOL ao governo de São Paulo, Guilherme Boulos.

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