Comecemos com uma breve análise global da possibilidade de imprecisão dos dados no Brasil – e aqui, por enquanto falaremos apenas de “imprecisão”, não de falsificação descarada com objetivos políticos e claros, que é nosso caso, e que vamos expor mais adiante: O Brasil faz uma média de 296 testes de COVID-19 por milhão de habitantes; na Alemanha, são mais de 60 mil testes por milhão; os EUA (que apresenta um número considerado baixo de testes por milhão, em verdade) fazem pouco mais de 7 mil testes por milhão.
Na Alemanha, que está no continente mais afetado pela pandemia, tínhamos 123 mil casos e 2,8 mil óbitos até segunda-feira, segundo o Instituto Robert Koch, órgão do governo alemão que contabiliza dados no país sobre a pandemia – mesmo que o país tenha demonstrado controlar a epidemia muito mais eficientemente que todos os demais países europeus. Nos EUA, que são o país com o maior número de casos e mortes no mundo, os dados da Universidade Johns Hopkins contabilizaram 530 mil casos confirmados e 20,6 mil mortes, com uma média de 2 mil mortes ao dia – como comparou o G1, é como se os EUA experiencias sem diariamente a queda de 10 aeronaves Boeing 737, que caiu em janeiro no Irã e matou todos os passageiros. Voltemos ao Brasil e vamos reiterar nossa convicção sobre a subnotificação de casos: compare novamente os dados apenas entre os três primeiros países apresentados no primeiro parágrafo e saberemos que é impossível que nossos atuais números estejam sequer próximos de retratar a verdade, mesmo que apenas por questões práticas – com os dados oficiais apontando atualmente mais de 25 mil casos e 1,5 mil mortos.
Agora passemos à análise das falsificações. No estado do Rio de Janeiro, os casos, que oficialmente passaram neste mesmo período de 3,2 mil para 3,4 mil, com elevação de 42 óbitos em um único dia (passando de 142 a 224 mortes), parecem indicar que tudo está num ritmo “bom”, “sob controle”, típica lógica ditatorial (velha herança) de ocultamento de cadáveres, “mortes justificáveis”, distorção de causa mortis e o máximo de abafamento sobre o que é catastrófico e criminoso da parte do Estado. Mesmo o governador (notório assassino amigado às milícias) W. Witzel sendo o mais recente caso notório do Rio, isso nada mais seria que um “ponto fora da curva” nos registros do vírus em terreno carioca : seus sintomas são “leves”, e está tudo, mais uma vez, “sob controle”! O número de casos e mortos demonstram ser, de acordo com diversas instituições (dentre elas a PUC-RJ, NOIS – Núcleo de operações e Inteligência em Saúde, Fiocruz e Instituto D’or), ao menos 4 vezes maior no estado – e estima-se que de 12 a 15 vezes maior para todo o Brasil
Diferentemente de como ocorre em todos os outros países, considerando apenas nossos dados oficiais, claro, temos a boa “tranquilidade brasileira” dando prova de que aqui, mesmo sendo o país que menos aplica testes em sua população dentre os 15 mais atingidos e já estar na 14ª posição dos mais afetados, o vírus “não está matando tanto assim” e podemos confiar nas medidas que estamos tomando. Até mesmo o Chile, país irmão que passa por claro apuro econômico e opressão popular explícita há tempos, e cujo sistema de saúde é “misto” – as garras do setor privado estão por toda parte e eles não possuem nada que se pareça com o SUS – realiza 2,5 mil testes por milhão de habitantes (2,2 mil testes a mais por milhão de habitantes que o Brasil).
Se o governador contraiu o vírus, que diremos das populações que mal chegam aos hospitais e que não são atendidas, ou testadas, ou cujas mortes entram em diferentes índices – resumindo, que nem exatamente “um número” se tornam? Costuma-se dizer que o mais baixo para um indivíduo é “tornar-se apenas um número”… Nosso Estado, quando bem observado, sempre nos mostra que isso é um equívoco (mais uma herança de outros períodos): pode também ainda ser “um número” mentiroso – um apagamento, um “não-número”. No mês de março, por exemplo, houve um aumento de 10% de mortes registradas como insuficiência respiratória em relação aos dados do mesmo período em 2019 no Rio de Janeiro, além de 6,8% a mais nos registros de morte por pneumonia.
Witzel pode operar suas funções (muitas delas envolvendo o planejamento do genocídio de populações pobres, como o extermínio de negros nas favelas) com facilidade, de forma a atender uma série de exigências pessoais de precaução e isolamento, tem atendimento médico de ponta e torna-se, como se demonstrou, certamente um desses 296 a cada milhão, caso uma febre lhe abata. Em sua atual “rincha” com Bolsonaro, que é meramente uma disputa de poder no interior do mesmo projeto fascista – como acontece entre o presidente e João Dória – ambos estão de mãos muito bem dadas e agem na mesma direção. Como colocaria o marxista italiano Domenico Losurdo, um “bipartidarismo de um partido só”.
Lembremo-nos de mais uns “detalhes” agravantes que fazem os números do contágio, das mortes (e claro, do genocídio) “baterem mal” com a oficialidade: o Brasil possui uma população de 48% sem saneamento básico, ou seja, mais de 100 milhões de habitantes (no Rio de Janeiro, são 46%); apenas como comparativo, podemos acrescentar que os EUA não sofrem desse problema, mas estão sendo brutalmente castigados com a pandemia. Como 110 milhões de habitantes se protegem (nem falemos de isolamento aqui…) sem saneamento básico? Na cidade do Rio, o abastecimento de água tratada chega a 99,16%, mas alcança apenas 66,16% da população. No ranking de saneamento das 100 maiores cidades do país, o estado do Rio de Janeiro possui 5 delas dentre as piores: Nova Iguaçu (82º), São João de Meriti (89º), Duque de Caxias (91º), São Gonçalo (92º) e Belford Roxo (95º).
Em suma, podemos concluir que o projeto tanto de Witzel quanto de Bolsonaro é muito semelhante: “não precisamos trocar as balas pelo vírus, basta que possamos combiná-los, e talvez poupemos munição”. Talvez assim seu genocídio venha a sair mais barato.





