Dinheiro fácil para empresas

Impressão de dinheiro do FED mantém empresas parasitas nos EUA

As transferências de dinheiro para as grandes empresas e bancos é uma das características desta crise capitalista

Nas crises capitalistas um grande número de empresas vai à falência, desaparecem e são absorvidas por outras. Ao final da crise o capital está mais concentrado e as empresas se agigantam. Até a crise de 2008 essa era a regra, mas, desde a crise de 1929, uma parte das grandes empresas que acabariam quebrando passaram a ser subsidiadas pelos governos. E a partir da crise econômica de 2008 o que era exceção passou a ser regra, os governos passaram a evitar a quebradeira das empresas. Uma parte delas por justificativa de que são estratégicas de algum modo, ou acabam sendo úteis socialmente, por exemplo empresas envolvidas na garantia de segurança alimentar, ou são úteis para a preservação do poder estratégico militar, neste caso incluem-se não somente as empresas produtoras de armamentos, mas as de tecnologia de comunicação, as de pesquisa em biotecnologia e também as empresas financeiras. Neste último caso, os bancos e financeiras há muito se beneficiam de um apoio dos governos porque têm, especialmente nesta fase monopolista e de hegemonia do capital financeiro, a capacidade de tornar uma crise em sistêmica e arrastar consigo boa parte da economia internacional. Mas isso vale especialmente para os países imperialistas. Para os países atrasados, muitas vezes em presas estratégicas são as primeiras a desaparecerem, por pressão dos países imperialistas. No caso brasileiro é bom lembrar o ataque do imperialismo às grandes empreiteiras, à Embraer, à Petrobras, à Eletrobrás e a outras como o Centro de Excelência em Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), do Rio Grande do Sul.

Na atual crise, segundo Ricardo Mioto, no site da Epicurus Financeira usando dados do Deutsche Bank, 20% das empresas norte-americanas conseguem sobreviver mesmo tendo seu custo da dívida maior que os seus lucros. São empresas que deveriam ter fechado, mas continuam como zumbis porque conseguem rolar suas dívidas e até aumentá-las por conta de taxas de juros extremamente baixas. “Dos hotéis Marriott à Delta Airlines, da Gap à locadora de carro Avis, muitas das empresas mais atingidas pelo coronavírus estão emitindo bilhões em títulos de dívidas. Quem de se importa que seus lucros tenham desaparecido e que suas operações sejam inviáveis? Enquanto o Fed estiver ajudando, os investidores estão dispostos a emprestar”, escreveu a Bloomberg. (Seudinheiro, 21/6/2020). “O efeito colateral da ação do Fed é manter vivas empresas improdutivas, o que no fim vai reduzir a taxa de crescimento de longo prazo da economia”, disse Torsten Sløk, o economista-chefe do Deutsche Bank Securities (idem).

Os governos têm adotado uma postura de muita flexibilidade monetária, especialmente para bancos, financeiras e grandes empresas, inclusive emitindo dinheiro para esse fim. No caso brasileiro, por exemplo, até mesmo a Constituição foi alterada. Aqui o governo não teve os escrúpulos que os FED (Banco Central norte americano limitou os recursos transferidos a bancos e empresas), as regras aqui foram de tal ordem favoráveis aos bancos que não há mais regra. O Congresso Nacional recentemente aprovou a Emenda Constitucional 106, “que autorizou o Banco Central atuar diretamente no mercado de balcão e comprar qualquer tipo de ativo privado, inclusive os podres, emitidos em qualquer lugar do mundo, sem transparência ou controle, sem estabelecer o prazo de validade do papel, e mais: sem limite de valor, podendo comprometer recursos públicos na ordem de trilhões de reais, e sem risco de punição aos agentes operadores” (Auditoria Cidadã da Dívida, 16/6/2020). Isso já significou algo como R$ 1,5 trilhão repassado aos bancos. Mas pode superar facilmente o dobro disso. O Banco Central vai ficar com os títulos podres encalhados nas tesouraria dos bancos privados desde 2008. E mais, para garantir que nenhum operador do Banco Central vá para a cadeia, estão exigindo que o Congresso aprove uma lei que isenta os operadores do Banco Central de penalidades legais por gestão de recursos financeiros, como se tentou com a MP 930 e se voltou à carga na MP 966.

Esses trilhões que o Banco Central está transferindo aos bancos e aos emissores de títulos comerciais podres, vão ser pagos pelos trabalhadores, pois todo o prejuízo do Banco Central é transferido ao Tesouro (Art. 7º da Lei de Responsabilidade Fiscal).

Para as pessoas que não compreendem as transformações que estão ocorrendo no capitalismo, parece que o que os governos estão fazendo é algo “antinatural” porque evita que o capitalismo se atualize, deixando que empresas moribundas sejam substituídas por empresas mais dinâmicas. Esse tipo de situação nunca ocorreu de fato no capitalismo de forma “natural”, sempre houve empresas que foram salvas e sempre houve uma forte presença do Estado na gestão da economia. Estado este, diga-se de passagem, que sempre se comportou como um “comitê administrativo dos interesses comuns da burguesia”. Na atual crise, para o capitalismo a manutenção de empresas improdutivas e a transferência de recursos gigantescos para os capitalistas tem a função de garantir taxas de lucros, reduzindo contradições internas do capitalismo entre o crescimento de forças produtivas e seu conflito inevitável com uma produção crescente, que não consegue ser consumida (por isso ressurge ideias liberais como a renda mínima e outras semelhantes, como meio de evitar a superprodução-subconsumo).

Os bancos centrais dos países de capitalismo desenvolvido estão em sintonia com os conflitos de mercado e as disputas comerciais que vão se avolumar no decorrer da crise, especialmente, quando se amenizar os efeitos da pandemia do novo coronavírus e de suas prováveis mutações. Isso não significa que quebradeiras sejam totalmente evitáveis e que novos arranjos produtivos se estabeleçam com maior concentração de capital e de renda, com maior exploração do trabalho e expropriação de recursos naturais dos países atrasados ou em desenvolvimento.

Essa movimentação de dinheiro em nada tem a ver com o apoio financeiro que se precisa dar para que pequenas empresas sobrevivam, com créditos facilitados ou mesmo garantias de aquisição de bens e serviços de empresas culturais, pequenos produtores rurais familiares etc. São mundos muito diferentes. O apoio a pequenos produtores e microempresários não chega à casa de poucos bilhões de reais, enquanto que as transferências a bancos e grande empresas superam vários trilhões.

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