A burguesia, de maneira cínica, pinta o futebol como algo meramente decorativo na vida do povo brasileiro. Entretanto, isso não passa de um julgamento incorreto sobre a realidade. O futebol é, assim como a música e a literatura, parte permanente e constante da cultura nacional. Não há como pensar no Brasil sem pensar no futebol e não há como viver no Brasil, no Brasil de verdade, sem estar em contato com o futebol.
A cultura nasce do modo de vida das pessoas e não o contrário. Portanto, a cultura reflete, em alguma medida, a política. Assim, se futebol faz parte da cultura nacional, influenciando a vida cotidiana do brasileiro, então ele está ligado à política.
Querer separar o futebol da política é uma mentira com o intuito de robotizar o futebol, tornando este uma mera ferramenta de dominação de uma classe sobre outra. É como a recorrente “escola sem partido”, que procura dar à educação um viés tecnocrático, robotizado, suscetível à dominação pelos que detêm os meios de produção.
Um grande nome do futebol brasileiro foi o jornalista, escritor, treinador e militante comunista, João Saldanha. Ele chegou a treinar o Botafogo e a Seleção Brasileira. É dito que João Saldanha foi demitido a poucos meses da Copa de 70 porque a ditadura não desejava ver um comunista levantando a Jules Rimet.
João Saldanha defendeu, até o fim da sua vida, o estilo de jogo brasileiro, com jogadores rápidos e habilidosos. Ele se posicionava totalmente contra o futebol defensivo aplicado pelos europeus e não aceitava que fosse aplicado no Brasil.
Outro grande vulto do futebol brasileiro e que sempre se posicionou ao lado do povo foi Reinaldo, o “Rei do Mineirão”, que comemorava seus gols com o punho direito para cima, como um Pantera Negra. Por esse gesto, acabou na reserva da seleção brasileira na Copa de 78.
Reinaldo foi perseguido de várias formas, pois sempre se posicionou de maneira crítica à ditadura militar brasileira. Suas declarações repercutiam bastante na imprensa. Ele é um exemplo claro de como o futebol tem, sim, força política.
Além da política, a amizade de Reinaldo com Tutti Maravilha, jornalista assumidamente homossexual, também foi utilizada para cortá-lo da Copa 82. Isso mostra que Reinaldo era um homem de vanguarda em defesa do combate à opressão e as opiniões reacionárias. Por isso, incomodava profundamente os elementos mais direitistas tanto da política quanto do futebol.
Outras figuras, mais ou menos conhecidas, sempre lutaram pelo futebol como ele deve ser, popular, legítimo. E é daí, a partir do posicionamento político de profissionais do futebol e torcedores, que o futebol brasileiro poderá se livrar da exploração capitalista, de romper com as amarras que o impedem de se desenvolver.
O futebol brasileiro tem características únicas, ligadas à cultura brasileira, e não deve continuar como vassalo de cartolas do além-mar. O futebol brasileiro, seus clubes, sua seleção, seus símbolos, devem ser, primeiramente, para os brasileiros. Qualquer coisa diferente disto é, dado contexto atual, atitude serviçal perante o imperialismo.





