Estado omisso

Com fim da quarentena, mães sofrem com a falta de creches

Com a reabertura de alguns setores da economia e sem escolas e creches funcionando, mais mães terão de voltar ao trabalho sem ter onde deixar seus filhos durante o expediente

Sem ter apresentado um plano consistente para o enfrentamento da crise econômica e sanitária, governantes começam a ceder à pressão da burguesia que está vendo seus negócios afundando durante o isolamento social.  Mesmo com os casos de contágio por coronavírus e dos óbitos pela Covid-19 continuarem aumentando em todo todo o país, vários municípios brasileiros começam a flexibilizar a quarentena. 

Em São Paulo, o prefeito Bruno Covas anunciou desde a semana passada o processo de abertura gradual da economia. Vários setores que estavam inativos ou funcionando de forma muito limitada, estão voltando à atividade regular.

Assim como não houve um planejamento adequado e competente para se iniciar as medidas para conter o avanço das contaminações, o retorno às atividades também é feito de forma completamente desarticulada. Um exemplo bem claro disso é que, apesar de as mulheres representarem, em 2019, 51,03% da força de trabalho no Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ou seja mais da metade das vagas de emprego são por elas ocupada, o retorno às atividades econômicas não as leva em consideração.

Muitas são mães e sempre contaram com escolas e creches para deixarem seus filhos em segurança durante o expediente de trabalho. Mas como irão se virar aquelas que não têm com quem contar para cuidar de seus filhos, uma vez que as escolas e creches não voltarão ainda a abrir suas portas por causa da pandemia?

Segundo a página da UOL na internet, o prefeito de São Paulo pediu “atenção às mulheres porque as escolas e creches não reabrirão e o cuidado dos filhos culturalmente recai sobre elas, que terão emprego ameaçado”. Quer dizer, não dão a menor garantia para que essas mães possam voltar ao trabalho: ou se viram para deixar os filhos com alguém, ou correm o risco de perderem seus empregos, pois contarão tão somente com a “sensibilidade” dos patrões, uma vez que o poder público não é capaz de intervir para garantir a proteção dessas crianças e/ou a manutenção do emprego e dos salários das mães trabalhadoras. Como sempre, as trabalhadoras mais pobres serão as mais prejudicadas porque possuem menos recursos para encontrar uma solução para conciliar trabalho e proteção dos filhos.

Esse foi, justamente, o caso de Mirtes Renata de Souza, a mãe do garoto Miguel, de 5 anos de idade, que caiu do 9º andar de um edifício de luxo no centro de Recife.

Apesar da pandemia, Mirtes continuava trabalhando normalmente como empregada doméstica para a primeira dama do município de Tamandaré. Com as escolas e creches fechadas, Mirtes deixava a criança aos cuidados de sua mãe, avó da criança, que naquele dia não poderia ficar com ela porque tinha de sair para ir buscar suas receitas médicas e ir ao banco. 

A solução encontrada foi levar o filho junto com ela ao trabalho. Tendo como tarefa levar os cães da patroa para passear, deixou a criança a seus cuidados. Mas como todo elemento das classes mais abastadas, a patroa não tem a menor consideração pelas pessoas pobres e, não só permitiu, mas contribuiu ativamente para que a criança seguisse sem nenhuma proteção para o 9º andar do prédio, onde a tragédia ocorreu.

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