“Estamos diante de uma crise financeira inédita, porque ela nasceu no coração do sistema, os Estados Unidos, e não em sua periferia, e afetou simultaneamente o mundo inteiro”
A avaliação acima, do antigo diretor-geral do FMI, Dominique Strauss-Kahn, em 2008, ressalta a grandeza da crise do sistema capitalista, mas, como não poderia deixar de ser, não esclarece que tal crise não é algo passageiro ou estranho ao sistema.
Bolsas de Valores e de Mercadorias e Futuros de todo o mundo amanheceram em baixa ontem, dia 5, não apenas como reflexo das tensões comerciais entre China e Estados Unidos, como muitos analistas têm apontado, mas porque o capitalismo vive de crises e ainda não se recuperou da última, que estourou em 2008, a qual está indo em direção de um aprofundamento, como parte da crise histórica do capitalismo.
Se, do ponto de vista prático e geopolítico, isso que tem sido interpretado como guerra comercial entre duas das maiores economias do mundo, e com manifestação de força de ambos os lados, é importante para entender alguns movimentos do ‘mercado’, não explica a incapacidade de, em mais de uma década, o capitalismo não ter contornado os problemas expostos no já longínquo 2008.
Os Estados Unidos anunciaram uma nova tarifa de 10%, válida a partir de 1º de setembro, sobre as importações chinesas, chegando ao valor de 300 bilhões de dólares, que se somam ao gravame de 25% imposto anteriormente aos produtos chineses, no valor de 250 bilhões.
A China, por sua vez, anunciou na segunda-feira, pela manhã, a suspensão, por parte de suas estatais, de importações de produtos agrícolas norte-americanos, além da imposição de tarifas sobre todos os produtos desse setor vindos dos EUA.
A desvalorização da moeda chinesa, o Yuan, em relação ao Dólar americano, gerou forte impacto sobre o mercado financeiro em todo o mundo, conforme refletido nas bolsas de valores.
Tudo isso pode ajudar a entender a ressaca desta segunda-feira e a nos acordar para a ilusão de que há soluções simples, ou um manual para nos ajudar a imunizar do que pode resultar dessa queda de braço, mas não explica o principal.
A grande verdade, vamos insistir, como o marxismo explica, e o Partido da Causa Operária vem reforçando de maneira recorrente, é que a crise de 2008 – que se prolonga até hoje e não vai mais ceder, é permanente[1]. A depressão tornou-se o estado normal da economia mundial. Todas as políticas de austeridade, que foram impostas por praticamente todos os países do mundo, com um endividamento crescente, não teve efeito algum na contenção efetiva da crise e representou, para a maior parte da população, o empobrecimento, o aumento da desigualdade, a incapacidade de as famílias lidarem com suas dívidas, o desemprego, a fome, guerras e migração sem precedentes.
Mesmo os economistas burgueses têm que admitir que a ‘crise’ não é temporária e que seu problema diz respeito à fase em que se encontra o próprio capitalismo. Paul Krugman, em 2013, já perguntava, diante do quadro enfrentado pelos EUA após o estouro da bolha de 2008:
Mas e se o mundo em que vivemos nos últimos cinco anos for o novo normal? E se condições parecidas com a depressão estiverem a caminho de persistir, não por mais um ano ou dois, mas por décadas?
Ele mesmo, Krugman, comenta que o secretário do Tesouro do governo Obama, Larry Summers, o principal conselheiro econômico entre 2009-10, disse em conferência anual do FMI:
… nos tornamos uma economia cujo estado normal é o de depressão leve, cujos breves episódios de prosperidade ocorrem apenas graças a bolhas e empréstimos insustentáveis.
O mesmo se pode dizer sobre todas as tentativas de minimizar ou dar conta das crises do capitalismo nas ultimas seis décadas pelo menos. Falharam e falharão porque não há remédio para uma doença incurável.
Os economistas norte-americanos, da consultoria Rosa & Roubini, Nouriel Roubini e Brunello Rosa, em artigo de 2018, previam uma “crise financeira” e uma “recessão global” em 2020.
O mesmo Roubini, em artigo de 14 de junho de 2019, acreditava terem acertado a previsão sobre a crise, e sobre a recessão que a caracterizaria, e alerta para o fato de que
nas economias desenvolvidas, a caixa de ferramentas de políticas para enfrentar as crises continua limitada. As intervenções monetárias e fiscais e os batentes do setor privado usados após a crise financeira de 2008, simplesmente não podem mais ser implementados, com os mesmos efeitos, hoje em dia.
Eles, como outros economistas ‘do sistema’, acreditam que crise de 2008 não foi superada e que a especulação no mercado financeiro é muito superior ao crescimento real da economia mundial. Num cenário em que os mecanismos de contenção da crise de 2008 são insuficientes, ou equivocados, para lidar com os efeitos da nova crise que se avizinha, o horizonte é dos piores possíveis:
Do ponto de vista fiscal, a maior parte das economias desenvolvidas tem déficits maiores e dívidas públicas mais altas hoje do que antes da crise financeira global, o que as deixa com pouco fôlego para gastos com estímulo à economia.
De forma que “o choque nos mercados mundiais seria suficiente para acarretar numa crise global, independentemente do que os principais bancos centrais façam”.
Pesquisador no Departamento de Política, Instituições e História na Universidade de Bolonha, na Itália, historiador e membro do conselho editorial da WorkingUSA, e dos coletivos Edu-fábrica, UniNômade e de Il Manifesto, Gigi Roggero, lembra que “a financeirização foi a resposta capitalista para a crise dos processos de acumulação, determinada em escala mundial pelas lutas operárias e proletárias dos anos 1960 e 1970”.
Naquele momento, as lutas colocaram em discussão o comando sobre a força de trabalho dentro do ciclo produtivo da fábrica, ao passo que o capital intensificava o processo de subsunção da sociedade inteira. A chamada financeirização, por sua vez, indicaria a potencial valorização, para o capital, de qualquer atividade humana.
Essa situação é mais que um sintoma da crise ou das crises do capitalismo, é a expressão da crise de superprodução, numa sociedade em que a imensa maioria da população está impedida de ter acesso ao consumo de bens e serviços produzidos no capitalismo por conta da concentração cada vez maior dos recursos nas mãos de um punhado de monopólios capitalistas, destacadamente os bancos e conglomerados financeiros, .
Enfim, além de não ter-se recuperado da crise de 2008, todos os sinais indicam que outra ainda maior e de maior intensidade vai estourar. Não há e nunca houve ‘salvação’ dentro do capitalismo, ainda mais na sua etapa atual de decadência e de crise histórica. Não podemos esperar soluções, mudanças dentro e a partir dele. Não se espere, portanto, que essa ‘guerra comercial’ entre China e Estados Unidos vá arrefecer ou que movimentos de simulação de conciliação vão evitar o estouro de uma nova crise.
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