WAGNER, UM MÚSICO DE VÁRIAS REVOLUÇÕES

Afonso Teixeira Filho

Duzentos anos de nascimento de um músico que provocou uma revolução sem precedentes na música

“Todo indivíduo, medianamente ambicioso, deveria ocupar-se apenas da política.”

Nenhum compositor, na história da música, foi mais polêmico do que Richard Wagner. Sua vida foi marcada por escândalos, que envolveram adultério, promiscuidade, posições políticas controversas, uma vida perdulária e o favor do rei Luís II, da Bavária.

Entretanto, o caráter do compositor era o caráter do artista romântico. Mais do que um artista romântico, Wagner foi um artista completamente devotado à arte, para o qual ela representava tudo. E a explicação de seu comportamento pode ser encontrada no ideal da época.

O pensamento de então foi bastante marcado pelas ideias de Arthur Schopenhauer. De acordo com ele, a vontade, como princípio motivador da existência, lançava o homem numa busca incessante por suas aspirações. Dessa forma, a busca pelo prazer resultava sempre na dor, pelo fato de ser essa busca insaciável. Para Schopenhauer, a dor era a única existência real, e o prazer, mero refúgio dessa existência. A saída para isso estaria, segundo ele, na Estética.

Schopenhauer considerava a música como a forma suprema da arte e realização extrema da ideia objetiva proporcionada pela Estética. Wagner viveu em perfeita coerência com esse pensamento e realizou, na música e na vida, a experiência estética da existência.

Primeiros anos

Wilhelm Richard Wagner nasceu na cidade de Leipzig, na Alemanha, em 1813 e morreu em Veneza, em 1883. O pai morreu quando Wagner tinha seis meses de vida. Pouco depois, a mãe casou-se com um dramaturgo e a família mudou-se para Dresden. Os primeiros anos da vida do compositor foram passados no ambiente teatral. Mais tarde começou a estudar piano e interessar-se pela Literatura.

Entre os anos de 1822 e 1831, estudou piano, violino, harmonia, composição e contraponto. Aos treze anos de idade, traduziu, diretamente do grego, a Odisseia de Homero. Nesse período, Wagner escreveu algumas peças para piano, marcadas pela influência de Beethoven, influência que desaparecerá quando Wagner passar a compor óperas.

A admiração de Wagner por Beethoven foi sempre destacada na autobiografia que Wagner escreveu ao longo da vida, Mein Leben (Minha vida). Os relatos que aparecem nessa biografia, no entanto, são discutíveis: muita coisa ali é fantasiada com o propósito de construir uma personalidade ideal. A influência de Beethoven é sempre destacada por Wagner, como se essa influência fosse um componente de uma nacionalidade alemã, a qual não existia, mas que viria a se formar em 1871.

Primeiras óperas

Wagner começou a compor uma ópera em 1832, O casamento, a qual não concluiu. Dois anos depois, terminava sua primeira ópera, As fadas, baseada na peça teatral A mulher serpente de Carlo Gozzi. Nessa época, Wagner assume o cargo de Choreinstudierer (preparador de coro) no Teatro Municipal de Würzburg. Várias óperas foram exibidas então em Würzburg. Em uma das apresentações, Wagner admirou-se da cantora Wilhelmina Schröder-Devrient, a qual se tornará a musa do movimento “jovem alemão”, do qual Wagner participará.

Wagner procurou levar sua ópera para Leipzig, mas as autoridades de lá se queixavam que a ópera era toda acompanhada de música, carecendo dos recitativos, ou partes dialogadas, que davam movimento à trama. Nessa ópera já encontramos a revolução que Wagner realizará no gênero e que será conhecida como “melodia infinita”. Será em Leipzig, que Wagner se envolverá com o movimento “jovem alemão”, o qual criticava a sociedade agrária alemã e procurava promover a classe média.

Em 1834, começará a compor uma ópera baseada na comédia de Shakespeare, Medida por medida. Como participante do movimento “jovem alemão”, Wagner rejeitará a cultura tacanha da época e promoverá um texto inglês e uma ópera à italiana. A ópera terá o título de A proibição de amar. No mesmo ano, Wagner conhece a atriz Christine Wilhelmine Planer (Minna), com quem se casa dois anos depois.

Os primeiros anos de casamento foram marcados pela insegurança e pelo ciúme de Wagner. Devido às dificuldades econômicas pelas quais o casal passava, a esposa abandonou-o duas vezes. Tudo isso resultou numa baixa produtividade artística para o compositor. Para escapar a essa condição de vida miserável, Wagner entusiasma-se com a ideia de compor uma ópera séria com tema heroico. Escolheu como personagem Cola de Rienzo, um líder popular do século XVI.

Em 1839, Wagner segue com a esposa para Londres e Paris para encontrar um teatro para a apresentação de A proibição de amar. Em Paris, conhece Giacomo Meyerbeer, principal compositor da Ópera de Paris. Meyerbeer dará cartas de recomendação a Wagner, mas Wagner se lembrará dele, mais tarde, com rancor. Isso servirá de motivo para que os críticos venham a imputar a Wagner um ideal antissemita, já que Meyerbeer era judeu e que Wagner escreveria um panfleto estético denominado O judaísmo na música, no qual fará observações pouco lisonjeiras a Meyerbeer. Esse ideal antissemita foi propagado, sobretudo, como campanha ideológica durante o nazismo.

A verdade é que o descontentamento de Wagner com Meyerbeer se deu por questões estéticas. Meyerbeer era o músico mais venerado de sua época. Sua obra era, contudo, meramente comercial: grandiosa, com cenários vistosos e destinada a agradar o gosto do público. Era também a obra que norteava os críticos, que reputavam Wagner como um compositor amador.

O período em Paris não foi de todo ruim para Wagner, que conseguiu algum dinheiro com seu trabalho. Na capital francesa, assistiu a uma apresentação da sinfonia dramática Romeu e Julieta, de Berlioz, música que virá a influenciar a partitura de suas próximas óperas. Notamos isso já na abertura de O navio fantasma eTannhäuser. Wagner, no entanto, já desiludido com a arte estrangeira e mais inclinado para uma arte nacional alemã, atribuirá essa mudança à “redescoberta” da Nona Sinfonia de Beethoven.

Foi, contudo, pela indicação de Meyerbeer que Wagner pôde apresentar Rienzi no Teatro da Corte Real de Dreden, em 1841. Ali, Wagner levou uma vida relativamente confortável como Mestre de Capela e pôde dedicar-se à composição de O navio fantasma. Essa ópera foi apresentada em 1843 e regida pelo próprio compositor, que já trabalhava na partitura de Tannhäuser.

Tannhäuser é a primeira ópera com tema alemão de Wagner. E assim serão todas as outras. Essa ópera conta a história de um cantor que levava uma vida promíscua, cercada de delícias e ambientado na caverna da deusa pagã Vênus. Ele se arrepende ao lembrar-se do nome da virgem Maria e faz uma penitência até Roma para se redimir.

O cristianismo é retratado em outras óperas de Wagner, como Lohengrin e Parcifal (ambas sobre o ciclo do santo graal), mas está ausente em Tristão e Isolda e na tetralogia do Anel. Pela lenda do herói Tristão e do mito de Siegrifield (O anel do nibelungo), Wagner procurará construir o mito formador da nacionalidade alemã. No entanto, apesar de essa tentativa ter sido utilizada como propaganda nacionalista durante o nazismo com propósitos racistas e imperialistas, reacionários, a ideia de Wagner era a unificação alemã e a substituição do regime semi-feudal por um regime democrático, ou seja, um propósito progressista e revolucionário. Wagner representa para a Alemanha (ainda inexistente) o mesmo que Verdi representou para a Itália, tanto na música quanto na política, pois, além de terem sido os maiores compositores de ópera de seus países, fizeram parte da construção dessas nações, sendo suas maiores expressões no terreno da arte.

A sedição de Dresden, em 1849

As ideias de unificação na Itália e na Alemanha ganharam força com a Revolução de 1848. Depois de um período de penúria por que passava a Europa desde 1820, período esse que começou com uma crise agrícola que dizimou as colheitas em diversos países, o descontentamento popular começou a agravar-se. Aliado a isso, o ascenso do movimento operário irá contribuir para agravá-la ainda mais. As medidas adotadas pelos reis de diversos países, como a França, resultaram em mais descontentamento.

Na França, o movimento organizou-se em torno de Louis Banqui, um líder operário. Governava o país o rei Luís Filipe, aliado da burguesia conservadora. Essa burguesia reagiu às manifestações populares tentando, em primeiro lugar, sufocar o movimento operário, que a incomodava mais do que a rebelião geral em si. O tiro saiu pela culatra e os operários tomaram a frente das revoltas. O governo finalmente conseguiu controlar a revolta promovendo uma repressão virulenta em primeiro lugar, e, posteriormente, para apaziguar os ânimos, promulgando uma constituição e proclamando a república.

Entretanto, a ressurreição alastrava-se por toda a Europa Central e do Leste. O Absolutismo e os ideais do Congresso de Viena começaram a ruir. Na Áustria, por exemplo, Metternich, o principal propagador daqueles ideais, viu-se obrigado a renunciar. Essa revolução, que ficou conhecida como A Primavera dos Povos, chegou à Alemanha, à Hungria, à Itália e até mesmo ao Brasil, onde manifestou alguns focos, como a Revolução Praiera, em Pernambuco.

A burguesia acabou por não realizar a revolução democrática, capitulando diante da aristocracia fundiária.

Na Alemanha, as lutas começaram em Berlim. A burguesia alemã viu, nessas revoltas, uma oportunidade de unificar o país, algo que só se concretizaria mais de vinte anos depois, em 1871, quando o reacionário prussiano Bismark, depois de derrotar Napoleão III, da França, consegue unificar a Alemanha.

Em 1849, a revolução estourou em Dresden, uma cidade onde já se impunham ideais liberais e democráticos. Nessa época Wagner vivia em Dresden, onde levava uma vida tranquila como Kapellmeister do Teatro da Corte de Dresden. Ali, havia estreado três de suas óperas: RienziO navio fantasma e Tannhäuser. Na mesma época, aprofunda o interesse pela tragédia grega e começa a compor Lohengrin e a estudar a mitologia nórdica e os épicos alemães.

Entretanto, Wagner se dispôs a empreender uma reforma no teatro que comandava. A qualidade da orquestra era bastante precária, pois os músicos ganhavam pouco e os instrumentos eram ruins. O salário de um instrumentista era irrisório se comparado ao de um cantor. Wagner se insurgiu contra isso e as intrigas contra ele começaram. Ao mesmo tempo, ele toma contato com Bakúnin e sente-se atraído pelo anarquismo. Para Wagner, a verdadeira cultura alemã era a cultura popular, a cultura do Volk, o povo, e a Alemanha só poderia formar-se como nação em torno do povo. Só em uma Alemanha unida sob o povo as óperas de Wagner fariam sentido. Então, ele se engaja na revolução. Junta-se à Guarda Comunal Revolucionária e escreve diversos panfletos revolucionários, nos quais alia os ideais da revolução política com ideias de revolução na música. Acaba por desenvolver o conceito de “melodia infinita”, o que proporcionará uma revolução na ópera, influenciando a ópera do século XX.

O conceito de “melodia infinita” parte de um tema musical que percorre toda a ópera, desde a Apertura até o final. É algo que aparecerá na ópera de Debussy e da Escola de Viena e que será, também, aproveitado pelo cinema e pelos musicais. “Melodia infinita” é uma espécie de Revolução Permanente na música, pois exigirá, a cada momento na trama, uma mudança e um avanço na organização estética da obra. Estará presente nas óperas seguintes, sobretudo no Anel (que começaria a compor em 1848 e tomaria dele 26 anos) e em Parcifal.

Wagner participou ativamente da sedição de Dresden: recolhia armas, inspecionava as barricadas e organizava a tomada de impressoras para a publicação de panfletos que insuflavam a revolta. Com o esmagamento da revolução, Bakúnin é preso, junto com outros revolucionários, e condenado à morte (pena que, mais tarde, seria comutada em prisão perpétua). Wagner fugiria para Weimar, onde foi acolhido pelo compositor Franz Liszt (o qual, mais tarde seria sogro de Wagner), que acolheu Minna e sugeriu a Wagner uma rota de fuga para que alcançasse Paris. Wagner ficaria 11 anos no exílio, fora da Alemanha.

Exílio

Da França, Wagner vai para a Suíça. Em Zurique, junta-se à esposa e, algum tempo depois conhece o banqueiro Otto Wesendonck, que dará ao compositor ajuda substancial, tanto em dinheiro como em moradia. Wagner vive alguns meses na propriedade dos Wesendoncks e acaba apaixonando-se, platonicamente, pela esposa de seu mecenas, Mathilde Wesendock. Esse contato foi importante, pois foi nesse período que Wagner chegou à sua ideia mais radical em relação à música. A paixão por Mathilde, mulher de seu benfeitor fê-lo lembrar-se do herói Tristão, apaixonado por Isolda, esposa de seu tio e, também, benfeitor. Wagner abandona a composição do Anel e inicia a da ópera Tristão e Isolda.

A ópera será encenada pela primeira vez muitos anos depois, graças ao patrocínio de Luís II. Mas ela contém uma passagem que fará uma verdadeira revolução na música. A ária da morte de Tristão, cantada por Isolda, foge aos padrões do sistema tonal, que predominou na música europeia por quase mil anos.

O sistema tonal baseia-se numa sequência de sete notas que define a tonalidade da música. Vez ou outra, aparece na partitura uma ou outra nota estranha àquela tonalidade, o que dá um colorido à música, para que ela não se torne monótona. Durante o romantismo, os artistas procuraram libertar-se de todos os padrões que servissem de empecilho à criatividade. Da mesma forma que os poetas desobedeciam as normas clássicas, os músicos inventavam artifícios pelos quais pudessem criar com mais liberdade. Wagner usou de maneira tão recorrente as notas estranhas à tonalidade, colorindo a ária de tal modo que não mais se reconhecia a tonalidade na qual a música se sustentava. Era o começo do fim do sistema tonal.

Esse recurso utilizado por Wagner em Tristão e Isolda é a base da música do século XX. Chamava-se cromatismo (porque fazia uso de 12 notas em vez de 7) e resultará no atonalismo (abandono da tonalidade) e no dodecafonismo, da Escola de Viena (Schoenberg e outros).

O convívio com os Wesendonks terminou com uma cena de ciúme de Minna e o casal foi obrigado a deixar a propriedade. Dirigiram-se a Veneza onde se separaram definitivamente. Expulso de Veneza, em 1859, Wagner volta para Paris, a convite de Napoleão III, para encenar a ópera Tannhäuser. As récitas foram marcadas pelo escárnio dos críticos, as vaias dos frequentadores de camarote da Ópera e, sobretudo pela admiração de Baudelaire que ficou extasiado com a composição e indignado com os críticos.

Wagner manifestou-se, em seguida, com um panfleto polêmico, Das Judentum in der Musik (O judaísmo na música), tido como um libelo antissemita. É fato que a Ópera de Paris (que pouco depois seria destruída pelo fogo) tinha na figura de Meyerbeer, que era judeu, uma espécie de ditador, e Wagner acreditava que os discípulos de Meyerbeer haviam organizado os apupos contra o Tannhäuser, o que é muito comum no mundo da ópera. Contudo basta ler o ensaio para se perceber que se trata de algo bastante diferente. O panfleto é, na verdade, sionista, no sentido que o termo tinha na época. Wagner conclama o banqueiro judeu Rothschild para que se dedique à criação de um Estado judeu na Palestina e que ele, Rothschild devia empenhar-se mais em ser o rei dos judeus do que o judeu dos reis. Há nisso um verdadeiro ataque às monarquias.

O próprio Nietzsche acusará Wagner de antissemitismo. Mas o antissemitismo era algo muito mal visto entre as pessoas cultas e poucas pessoas educadas se manifestavam de forma preconceituosa contra os judeus. O episódio, no entanto, seria aproveitado por Cosima Wagner (filha de Liszt) muitos anos depois, já na velhice, quando se entusiasmou pelas ideias nacionalistas da Alemanha que resultariam no III Reich. Wagner morreu em 1883, mas Cosima só morreria em 1930.

Munique e Cosima Liszt

Em 1860, Wagner foi anistiado e pôde voltar à Alemanha. Não obstante, continuou a viver fugindo por causa de dívidas. Em 1864, Luís II torna-se rei da Bavária e, encantado pelas óperas de Wagner, convida o compositor para ir morar na corte em Munique. O rei responsabilizou-se pelas dívidas de Wagner, concedeu-lhe uma pensão anual e uma moradia repleta de luxos. Wagner chamou à corte o regente Hans von Büllow, um dos maiores pianistas da época, casado com Cosima, filha de Liszt. Logo desenvolveu-se um triângulo amoroso, suportado por Von Büllow para manter o emprego na corte, segundo alguns biógrafos. Cosima engravidou de Wagner e Von Büllow reconheceu o filho como seu para evitar o escândalo. Mas o escândalo logo se formou e alguns membros da corte, enciumados dos favores que o rei dava ao compositor, acabaram por forçar o rei a demitir Wagner.

Pouco depois, Cosima divorciou-se de Hans von Büllow e casou-se com Wagner, com quem teve três filhos. Um deles chamou-se Siegfried, em homenagem ao personagem do Anel. Siegfried tornou-se compositor e, mais tarde, seria, como a mãe, um instrumento do fascismo alemão. Siegfried morreu no mesmo ano que a mãe, 1930.

O divórcio de Cosima fez com que o pai, Liszt, rompesse relações com a filha e com Wagner. Com o tempo, o rancor foi arrefecendo, mas, em nenhum momento Liszt deixou de admirar o compositor alemão. Cosima, que assistiu o pai no leito de morte dele, disse que as últimas palavras de Liszt foram “Tristão”. Tristão e Isolda provocará uma revolução na música, como já dissemos. Liszt pressentiu isso e, ao mesmo que temia essa revolução, admirava o caráter da composição; chegou, por exemplo, a compor uma versão para piano da “Morte de amor”, a ária revolucionária da ópera de Wagner.

A relação entre Wagner e Cosima foi sempre de respeito mútuo e de amor apaixonado. Cosima era muito mais compreensiva com Wagner do que o fora Minna. Entretanto, Cosima deve ter exercido sobre o marido uma influência religiosa, o que explicaria, em parte, o fato de Wagner ter-se tornado conservador depois doAnel.

A unificação alemã, Nietzsche e a obra de arte total

Wagner foi banido da Bavária, em 1865, mas continuou a receber a pensão do rei Luís II. Estabeleceu-se com Cosima em Tribschen, na Suíça. Enquanto isso, alastrava-se a campanha de Bismark para a unificação alemã. Luís II ficara do lado da Áustria. Com a derrota da Áustria para a Prússia, o exército da Bavária capitulou. A Luís foi permitido conservar a coroa.

O reino da Bavária (ou Baviera) manteve-se como parte do Império Alemão até 1918, com o fim da I Grande Guerra. Em 1886, o rei foi deposto com a alegação de insanidade por parte de seus opositores. Um dia depois de ser deposto, o rei apareceu morto misteriosamente, afogado em um lago.

Em 1868, Wagner conheceu, em Leipzig, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que dava aulas de Filosofia na Universidade da Basileia. Nietzsche já conhecia algumas passagens do Anel e não se entusiasmara com elas, mas se encantara sim com Lohengrin. O entusiasmo do filósofo por Wagner fora tão grande que publicaria, em 1872, um livro dedicado a ele, A origem da tragédia, no qual o filósofo opõe a ordem apolínea (as artes plásticas) ao frenesi dionisíaco (a música). Para ele, Wagner representava o espírito de Dioniso na arte.

Para o desenvolvimento da concepção da tetralogia O anel do nibelungo – um conjunto de quatro óperas entrelaçadas: O ouro do RenoA ValquíriaSiegfried e O crepúsculo dos deuses – Wagner aplicou uma ideia que já vinha desenvolvendo havia algum tempo, a de Gesamkunstwerke ou “Obra de arte total”, a teoria mais ambiciosa jamais idealizada por um artista. Consistia ela na união de todas as formas de arte a serviço da dramaticidade. O primeiro elemento seria o tema ou assunto dramático, a ser colhido da mitologia nórdica (ou germânica); o segundo elemento é o poema, invocando a forma dos poemas alemães antigos, o poema aliterativo; o terceiro elemento é a orquestra, totalmente submissa ao drama – predomina a valorização do timbre e da variedade dos instrumentos em detrimento da harmonia e da melodia; o quarto elemento é a voz humana, ela também totalmente submissa ao drama; o cantor de Wagner nunca se destaca do conjunto: na ópera de Wagner não há lugar, por exemplo, para a prima donna. O quinto elemento é a cena, para a qual confluem todas as artes: a arquitetura (cenário), a indumentária, a engenharia (movimentação dos painéis e das máquinas de palco), a pintura, a escultura, etc.: enfim, tudo aquilo que será usado mais tarde para criar os efeitos cinematográficos na sétima arte.

Para a realização de uma ópera, estruturada sob o conceito de obra de arte total, seria necessário a construção de um teatro como não havia no mundo todo. Wagner conseguiu alguma doação de Luís II, mas teve de angariar fundos para concluir seu ambicioso projeto. O teatro acabou sendo construído na cidade de Beyreuth, em meio caminho entre Munique (cidade de Luís II) e Berlim (capital do novo Império Alemão).

Mas o sonho do novo império já estava concretizado. O sonho que não pode ser realizado foi o de um novo drama. A maior revolução de Wagner fora mesmo o cromatismo de Tristão e Isolda. Com o Anel, logrou-se a utopia de uma síntese de todas as artes. A ideia era de Hegel e só poderia constituir-se quando o espírito se libertasse na história. O momento seria o da criação do Estado moderno, o Estado constitucional, o qual Hegel nunca chegou a ver na Alemanha. Seu país unificou-se em 1871. De acordo com Hegel, seria esse o momento da liberdade do espírito. Mas não foi. Foi sim o momento em que a burguesia alemã pôde dar início à sua expansão industrial e começar a sonhar com um império comparável ao da França e ao Britânico. O resultado desse sonho foi um período de 40 anos que ficou conhecido como “paz armada”. A consequência inevitável desse período, e sua síntese, foi o advento do imperialismo e com ele a Primeira Grande Guerra. Nada de liberdade para o espírito.

O conceito wagneriano de obra de arte total fundamentava-se na Fenomenologia do espírito, de Hegel. O único espírito que a história permitiu libertar-se foi o espírito do homem burguês dos entraves medievais, espírito partilhado por Wagner. Mas outro espírito se impunha na história, como consequência, ou antítese do primeiro, o proletariado. Foi ele que fez a revolução de 1848 e foi ele também que capitulou. A revolução enfrentou a aristocracia sob a direção da burguesia e esta, com medo da revolução proletária, parou a meio caminho e capitulou diante da aristocracia agrária dos junkers. Na Alemanha, a burguesia não poderia promover a libertação do espírito nem mesmo nos seus próprios termos. Da mesma maneira não pôde aceitar a concepção de uma obra de arte total, já que o espírito não estava pronto para ela.

Mas a ideia de Wagner contaminou outras esferas da arte como, por exemplo, o cinema. Entretanto o cromatismo do Tristão expôs, de fato, a antítese da arte, ao desmoronar o sistema tonal que nascera mil anos antes dentro das catedrais da Idade Média.

E essa antítese, já percebida por Liszt, assustou também ao próprio Wagner, que recuou de seus ideais e se propôs a uma música mais conservadora e que atendesse, se não ao gosto público em geral, pelo menos ao gosto dos wagnerianos que já o veneravam como deus da música. A ópera Parcifal foi a última de Wagner. Recolhia um tema medieval, mas da literatura do ciclo arturiano: a lenda de Sir Percival, um dos cavaleiros da famosa távola redonda do Rei Artur. A missão de Percival era encontrar o Cálice Sagrado, no qual Jesus tomara o vinho da Última Ceia.

Esse elemento cristão não estava presente originalmente no ciclo arturiano. Tratou-se de uma contaminação cristã tardia. A missão original era encontrar o reino místico de Avalon. Mas Wagner deve ter optado por um tema cristão por influência de Cosima. O músico revolucionário, que nascera com a revolução burguesa-proletária de 1848, se transformava em conservador com a derrota desta revolução e com a realização por meios políticos reacionários dos objetivos da revolução, a unificação não democrática da Alemanha, mas a unificação imperial de Friedrich Wilhelm, coroado em Versalhes, após a derrota militar da França e a tranformação do latifúndio em grande empresa agrária capitalista sob o controle dos junkers, que Marx descreveu como a “via prussiana”. A religiosidade de Wagner é a expressão da desmoralização dos ideiais democráticos revolucionários que o haviam alimentado.

O abandono das raízes míticas da arte por Wagner e sua volta ao cristianismo significava, para Nietzsche o fim do Wagner dionisíaco. Isso representou o rompimento entre ambos.

O anel do Nibelungo e Parcifal

Em 21 de novembro de 1874, Wagner concluiu a última parte do AnelO crepúsculo dos deuses. O final da obra representou um duplo problema para a música. O teatro elaborado por Wagner deixava de ser um teatro de entretenimento em que as pessoas iam para conversar, jogar cartas, comer, beber e observar os vestidos e joias das madames e as casacas dos burgueses. Wagner exigia que as luzes do teatro ficassem apagadas e apenas o palco seria iluminado. Tudo confluiria para a dramaticidade do espetáculo. A partir dele, o público iria à ópera para assistir ao espetáculo. O outro problema foi a própria grandiosidade do espetáculo que ele criou, o que estava acima da capacidade de outros teatros.

Contudo, o final da ópera representou também um problema para a música de Wagner e também para toda a sua filosofia. A ópera de Wagner é a obra de arte da época em que Deus estava morto, de acordo com as palavras de Nietzsche em Assim falou Zaratustra. Na modernidade não havia mais lugar para Deus, tampouco para os deuses. Os deuses, contudo, já haviam morrido havia muito tempo, juntamente com a sociedade que os criara, o mundo grego.

Quando Wagner se propôs a construir, ou reconstruir, uma mitologia germânica, pensou, como Nietzsche, em dar um fundamento clássico à arte de sua nação; pensou em construir uma nação. Quando essa nação já estava consumada, tudo isso perdeu o sentido. E, ao final do Crepúsculo, Wagner põe termo à existência dos deuses dizendo que o verdadeiro fundamento do mundo era apenas o amor. Ele parte de uma concepção crítica à filosofia de Schopenhauer, para quem apenas a estética (entendida ou como arte ou como moral) serviria de alívio à dor do viver. Para Wagner, o alívio à dor de existir era o amor. Mas, no Crepúsculo, havia algo de cristão nesse amor.

E tanto é verdade isso que o Festspielhauss de Beyreuth se tornou um templo de adoração. E, ali, Wagner era o próprio deus.

Crepúsculo

A Grécia e a Itália, como berços da civilização clássica, era o destino de férias dos românticos e seu local de inspiração. Com o término da composição de Parcifal e sua apresentção em Beyreuth, Wagner dirige-se para Veneza, na Itália, com a família, para passar o inverno. No dia 13 de janeiro de 1883, recebe a visita de Liszt que lhe apresenta uma composição que fizera sobre Veneza: A gôndola fúnebre, que procurava retratar, por meio de sons, uma procissão fúnebre pelos canais da cidade. Um mês depois, Wagner começa a escrever mais um ensaio, “Acerca do feminino no masculino”: “Não obstante, o processo de emancipação da mulher produz-se só em circunstâncias de convulsões estáticas: amor, tragédia…” O texto termina aqui, e com a palavra “tragédia” termina a existência de Wagner.

Óperas completas:

  1. As fadas (1834)

  2. A proibição de amar (1836)

  3. Rienzi (1840)

  4. O navio fantasma (ou O holandês voador) (1841)

  5. Tannhäuser (ou O torneio de canto de Vartburgo) (1845)

  6. Lohengrin (1848)

  7. O anel do Nibelungo (tetralogia)

O ouro do Reno (1854)

A valquíria (1856)

Siegrified (1871)

O crepúsculo dos deuses (1874)

  1. Tristão e Isolda (1859)

  2. Os mestres cantores de Nurembergue (1867)

  3. Parsifal (1882)