Nas últimas semanas, veio completamente abaixo a tese de que a pandemia de coronavírus iria dissolver as diferenças entre a direita e a esquerda. A pandemia, como se tem visto, aumentou a miséria em todo o mundo — como consequência, seria inevitável que a polarização política crescesse.
Por um lado dessa polarização, podemos citar a defesa pública que Ciro Gomes (PDT), Rodrigo Maia (DEM) e o PSDB fizeram do governo Bolsonaro. Todos esses deixaram claro que não estavam dispostos a derrubar o presidente ilegítimo. Por outro, podemos citar a ação nas ruas dos torcedores e dos trabalhadores em geral, que saíram para combater a extrema-direita, e as declarações do ex-presidente Lula e de Gleisi Hoffman, presidente do PT, contra a formação de uma aliança com a direita.
A polarização está corroendo o já bastante debilitado centro político, impondo à realidade duas únicas políticas existentes: a colaboração com um governo de extrema-direita e inimigo do povo ou a luta pela derrubada imediata de Jair Bolsonaro. Qualquer política que procure se colocar nesse meio será, inevitavelmente, uma fraude: aqueles que titubeiam em organizar a derrubada do governo estão, obrigatoriamente, lhe servindo de sustento. A política da chamada “frente ampla” é uma dessas falsificações grotescas.
Se o povo quer a derrubada do governo, como seria possível que a esquerda se aliasse a Rodrigo Maia, que declarou ser contra o impeachment do presidente ilegítimo? Se o povo foi muito bem sucedido em sair às ruas e enfrentar os fascistas, por que precisaria se aliar a Ciro Gomes, que diz que agora não é hora de derrubar o governo? Se a ideia já parece absurda aqui, torna-se ainda mais absurda quando consideramos que no histórico dessas figuras consta inúmeras barbaridades contra o povo. A direita é odiada pelo povo, e é justamente por isso que a direita esteve envolvida no golpe de Estado de 2016 e nas eleições roubadas de 2018. Não fosse o jogo sujo, não estaria no poder.
Dito isso, é preciso que a esquerda e todos os setores da população que queiram — ou melhor, precisem —derrubar o governo se mobilizem de maneira completamente independente da burguesia. A frente ampla, enquanto frente entre os trabalhadores e a esquerda golpista, deve ser completamente rejeitada. A mesma direita, inclusive, que está sendo assediada para ingressar na frente ampla preparou a MP 927. Tramitando no Senado com o nome de PLV 18, a medida descontará todo o ônus da crise econômica nas costas dos trabalhadores.
As diversas manobras recentes da burguesia servem para tentar nebular um cenário que já está muito claro. Em nota recente publicada pelo PCdoB, o partido defende a frente ampla e exalta o STF, colocando este como um pilar democrático. Segundo a nota, se opor à frente ampla seria um “desserviço ao Brasil”. Obviamente, nada poderia estar mais errado: quem está provocando um desserviço é a própria legenda, que está repercutindo a propaganda da burguesia de que o STF seria uma instituição democrática. O STF esteve envolvido dos pés à cabeça com o golpe de 2016 e hoje, permanece cúmplice de todo tipo de ataque aos direitos trabalhistas e direitos democráticos contra os trabalhadores.
O argumento utilizado pelo PCdoB é o de que a frente ampla seria necessária para constituir uma maioria no País. Novamente, um argumento bastante infeliz: o movimento pelo Fora Bolsonaro já é maioria, e as ruas deixaram isso bastante claro. No entanto, é justamente esse assédio permanente a bandidos políticos que contribuem para que a revolta do povo não se canalize em grandes manifestações. Ao contrário da frente com a direita, é preciso organizar o povo de maneira independente da burguesia. É preciso, portanto, formar comitês de luta em todo o país como instrumentos de mobilização pela derrubada imediata do governo.