Yanis Varoufakis chamou de “vergonhosa” a ordem para que Flávio Bolsonaro entregasse seus passaportes após a derrota na eleição presidencial. O ex-ministro das Finanças da Grécia declarou que comemorou — e ainda comemora — a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, mas perguntou por que o Supremo Tribunal Federal (STF) agiu contra o candidato derrotado naquele momento.
“Não consigo, por mais que tente, justificar por que os tribunais brasileiros tiveram de exigir que Bolsonaro entregasse seu passaporte no momento em que perdeu a eleição. O fato de ele ter contestado a veracidade do resultado eleitoral é sinal de mau caráter, prova de que não sabe perder. Mas ele tinha todo o direito de não saber perder; de contestar, com ou sem razão, qualquer resultado”, escreveu Varoufakis no X.
No domingo (25), a Polícia Federal (PF) pediu ao STF a apreensão dos passaportes e a proibição de viagem do senador. O pedido foi assinado sete minutos depois de o Tribunal Superior Eleitoral confirmar a vitória de Lula. Alexandre de Moraes autorizou a medida, e Flávio foi intimado na segunda-feira (26). A ordem segue sob sigilo para que o público não saiba os motivos. A PF afirma ter identificado risco de saída do Brasil. Flávio disse que a medida se apoiou numa declaração de seu irmão Eduardo, que defendera sua partida caso ele perdesse.
Quanto às investigações contra Flávio, Varoufakis perguntou se os magistrados também o proibiriam de viajar caso tivesse vencido e se tornado presidente eleito. “Duvido muito”, respondeu. Para ele, isso significa que “os juízes estavam confundindo os poderes Executivo e Judiciário”. O resultado eleitoral não pode servir de critério para uma medida judicial.
Ele também rejeitou a tentativa de justificar a ordem com a caracterização da família Bolsonaro como fascista e criminosa:
“Você e eu podemos muito bem pensar assim. Mas o Judiciário não tem o direito de usar seus poderes para acusar e perseguir alguém porque perdeu uma eleição — ou imediatamente depois de perdê-la. É vergonhoso, para ser preciso. E é também perigoso para nós, da esquerda, que sabemos o que significa ser proibidos e perseguidos por juízes e delegados de polícia fora de controle.”
A ordem saiu de um procedimento que envolve o advogado Willer Tomaz e suspeitas de movimentação financeira ilícita. Não há condenação contra Flávio, e a fundamentação integral da restrição não foi divulgada. O senador deixou o Brasil sem cumprir a determinação de entregar os documentos. A PF cancelou seus passaportes brasileiros e investiga o descumprimento, mas esclareceu que a restrição aos documentos, por si, não o torna foragido nem autoriza sua prisão. A viagem posterior tampouco esclarece por que a ordem foi expedida na noite da eleição.
Varoufakis dirigiu-se ainda aos bolsonaristas que atribuem a decisão diretamente a Lula: “Ele não está por trás dos juízes”. Lembrou que Lula foi preso e impedido de concorrer em 2018. “O que temos no Brasil é um Judiciário que excede seus poderes e habitualmente cruza a linha que deveria separar o poder judicial do poder político”, escreveu. Isso não elimina a responsabilidade política de Lula por sua reação à ordem. O presidente defendeu a entrega dos passaportes e declarou que “quem não deve, não teme”, dando apoio público à restrição depois de anunciada. Porém, o grego acerta: Lula não controla o STF, é o STF que controla Lula.
Varoufakis integrou o Syriza e foi ministro das Finanças do governo formado pelo partido em 2015. Embora vacilante e reformista, enfrentou as exigências de austeridade da União Europeia e deixou o cargo após o governo capitular diante dos credores. Desde então, critica as instituições europeias pela esquerda.
Ele já havia protestado contra a interdição eleitoral de Marine Le Pen pela Justiça francesa em 2025. Defendeu que a dirigente de extrema direita fosse derrotada nas urnas e criticou a aplicação da proibição antes do julgamento dos recursos. Mesmo considerando possível que Le Pen tenha cometido os delitos pelos quais foi julgada, rejeitou a retirada de seus direitos políticos. Na ocasião, recordou a exclusão de Lula da eleição de 2018.
A crítica é correta: a oposição à direita não autoriza que juízes decidam quais adversários conservarão seus direitos. Varoufakis encerrou com um aviso aos companheiros brasileiros. Se Flávio Bolsonaro e Marco Rubio quisessem organizar uma campanha contra Lula e a “democracia” brasileira, escreveu, dificilmente receberiam ajuda melhor do que a ordem de Moraes.




