O segundo e último debate presidencial, realizado pela Rede Globo, expôs um problema que a campanha petista não consegue resolver. Lula, com décadas de experiência política e três mandatos na Presidência, não conseguiu impor uma derrota significativa a Flávio Bolsonaro. Seu adversário disputa o cargo pela primeira vez, nunca governou o País e não tem sequer a experiência política do pai.
Mesmo na avaliação mais favorável ao PT, o resultado não passou de um empate. A dificuldade chama a atenção porque o partido governou o Brasil por cinco mandatos e participou de cerca de dez eleições presidenciais. Não faltam experiência eleitoral, conhecimento dos problemas nacionais ou oportunidades para demonstrar o caráter reacionário da candidatura bolsonarista.
Uma avaliação restrita às respostas, aos gestos e ao desempenho dos candidatos não explica o problema. A dificuldade de Lula diante do candidato da direita expressa o esgotamento de uma política que abandonou as reivindicações dos trabalhadores. O PT não apresenta um programa capaz de entusiasmar a população e mobilizá-la em defesa de sua candidatura.
Flávio Bolsonaro é um candidato dos capitalistas, ainda que não represente o conjunto do grande capital nacional. A defesa dos interesses da maioria da população não é o objetivo de sua candidatura. O PT, entretanto, renuncia às medidas que permitiriam enfrentar esses interesses e oferecer uma perspectiva aos trabalhadores.
Sem propostas para os trabalhadores
A campanha de Lula se concentra na defesa do Bolsa Família, do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e de outros programas sociais. O argumento é que o candidato da direita acabará com esses benefícios. Flávio responde que não pretende acabar com eles, e a campanha petista fica sem desenvolver a discussão.
Mentir em campanha é uma prática habitual dos políticos burgueses. O próprio Lula prometeu não privatizar e deu continuidade às privatizações. Não há motivo para acreditar em um candidato simplesmente porque ele afirma que fará alguma coisa.
O problema é que uma declaração do adversário basta para esvaziar o principal argumento eleitoral do PT. A manutenção de programas que consomem uma parcela reduzida do orçamento público é apresentada como a grande diferença entre as candidaturas. Não se oferece aos trabalhadores uma transformação significativa de suas condições de vida.
O partido poderia defender a reestatização das empresas privatizadas, o restabelecimento integral dos direitos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e um aumento do salário mínimo para R$3.500. Esse valor ainda não atenderia plenamente às necessidades de uma família, mas permitiria sair da miséria dos atuais mil e poucos reais. São propostas que atingem os interesses dos capitalistas e dão aos trabalhadores razões concretas para se mobilizar.
Nada disso orienta a campanha petista. Também não aparece uma proposta efetiva de retomada da industrialização do País. O pedido de mais um mandato se resume à continuidade do governo atual, que não tomou as medidas necessárias para enfrentar os grandes problemas da população.
A discussão sobre o Banco Central mostrou até onde vai essa paralisia. Lula acusou Flávio Bolsonaro de defender a independência da instituição. Depois do debate, uma repórter perguntou se o presidente trabalharia para acabar com esse regime. A resposta foi negativa.
Lula critica o adversário por apoiar uma política que ele próprio não pretende revogar. Reclama de uma medida favorável aos banqueiros, mas aceita mantê-la. O episódio demonstra por que a campanha não consegue avançar: o PT denuncia determinados aspectos da política burguesa e, ao mesmo tempo, recusa-se a enfrentá-los.
Uma campanha de acusações moralistas
A ausência de propostas dá lugar a uma campanha de degradação política excepcional, mesmo para os padrões das eleições brasileiras. Discussões sobre festas, insinuações de orgias, acusações criminais e polêmicas em torno de Nossa Senhora Aparecida ocupam o espaço das reivindicações populares.
Na direita, esse tipo de propaganda tem uma longa tradição. Depois da Segunda Guerra Mundial, a União Democrática Nacional (UDN), apresentada como democrática, atacava Getúlio Vargas com denúncias de corrupção e acusações de fascismo. O moralismo permitia combater o governo sem expor os interesses de classe defendidos pelos seus adversários.
As campanhas da direita continuam apoiadas em promessas de combater o crime, acusações de corrupção e denúncias de supostos malfeitos. O PT adota o mesmo método e chega a tal ponto que a propaganda reacionária do adversário passa a parecer normal diante dos ataques petistas.
Essa orientação afasta a discussão dos problemas que afligem os trabalhadores. Em vez de explicar quem se beneficia dos baixos salários, da destruição dos direitos trabalhistas e das privatizações, a campanha procura convencer o eleitor por meio de escândalos. A esquerda ajuda a difundir os critérios políticos da direita e abandona a defesa de um programa próprio.
O fascismo desaparece no debate
Além da ameaça aos programas sociais, a outra grande acusação do PT é que uma vitória bolsonarista levará à implantação de uma ditadura. A propaganda chega a anunciar 30 anos de regime ditatorial caso Flávio Bolsonaro seja eleito. Essa previsão serve para exigir que toda a esquerda apoie Lula, independentemente da política de seu governo.
Uma denúncia dessa gravidade deveria orientar a intervenção petista nos debates. Se o candidato adversário prepara um golpe de Estado e a implantação do fascismo, seria necessário utilizar a audiência desses confrontos para explicar o perigo à população. A ameaça de ditadura deveria ser o tema central da discussão.
No entanto, essa denúncia não foi feita nos dois debates. O PT não confrontou Flávio Bolsonaro como o responsável pela preparação de um regime fascista. A acusação apresentada aos eleitores de esquerda como motivo suficiente para abandonar qualquer divergência com Lula desapareceu justamente na oportunidade de ser exposta diante de milhões de pessoas.
Se os dirigentes petistas acreditam no que dizem, sua atuação foi uma capitulação diante do perigo anunciado. A candidatura apresentada como indispensável para impedir uma ditadura não utilizou sequer o debate eleitoral para denunciá-la.
A contradição também demonstra a inutilidade dessa orientação para enfrentar uma ameaça reacionária. A campanha pede votos em nome da luta contra o fascismo, mas não esclarece nem organiza os trabalhadores para combatê-lo. Conforme o público, anuncia-se a iminência de uma ditadura ou recorre-se a acusações sobre a vida pessoal do adversário.
A vitória eleitoral de Lula é o único objetivo que permanece. Para alcançá-la, admite-se qualquer expediente, inclusive a adaptação a propostas da direita, como a redução da maioridade penal. As reivindicações dos trabalhadores são abandonadas conforme as necessidades da disputa por votos.
Uma esquerda que incorpora medidas reacionárias à própria campanha não prepara a população para deter o avanço da reação. Contribui para esse avanço ao dar sua aprovação a ataques que deveria combater.
A submissão do restante da esquerda
A orientação petista arrastou outras organizações de esquerda. O PSTU apresenta seu apoio a Lula como um “voto crítico”, mas repete os argumentos do PT e se submete à campanha que o partido promove. O adjetivo não muda o conteúdo político desse apoio.
A crítica precisaria se expressar no combate à renúncia às reivindicações operárias, às concessões à direita e à substituição da discussão política pelas acusações moralistas. Repetir a propaganda petista sobre a necessidade de eleger Lula reforça a política responsável pelo impasse.
A campanha, assim, já representa uma derrota política e ideológica, independentemente do resultado nas urnas. Em nome de impedir a vitória da direita, a esquerda abandona seu programa, adota propostas reacionárias e desorganiza os trabalhadores que precisariam enfrentá-la.



