Análise Política da Semana

Rui Pimenta: política do PT chegou a um beco sem saída

Presidente do PCO defende o voto nulo e explica por que o apoio à frente ampla não organiza os trabalhadores para enfrentar a direita

O PT chegou à disputa presidencial sem um programa capaz de mobilizar os trabalhadores e enfrentar o crescimento da direita. No programa Análise Política da Semana, da Causa Operária TV (COTV), Rui Costa Pimenta, presidente do Partido da Causa Operária (PCO), examinou o esgotamento da política petista e defendeu o voto nulo. A exposição também abordou a perseguição judicial, a redução da maioridade penal e as manifestações de estudantes secundaristas na Europa.

Ao comentar o último debate entre Lula e Flávio Bolsonaro, Pimenta destacou que a experiência política do presidente não foi suficiente para assegurar uma vantagem significativa sobre o adversário. A dificuldade resulta da ausência de propostas que atendam às necessidades da população.

“O grande problema do PT na eleição, que revela bem o sentido mais profundo do que está acontecendo, é que o PT não tem um programa capaz de efetivamente empolgar a população.”

A campanha petista apresenta como principal argumento a preservação dos programas sociais. Quando acusa Flávio Bolsonaro de pretender acabar com esses benefícios, o candidato responde que vai mantê-los. O PT não consegue sair dessa discussão porque abandonou propostas de transformação social.

Pimenta citou medidas que permitiriam confrontar a direita: reestatizar as empresas privatizadas, restabelecer integralmente os direitos trabalhistas destruídos e aumentar substancialmente o salário mínimo. Nenhuma delas orienta a candidatura de Lula, que também não apresenta um programa de recuperação da indústria nacional.

“Ele não apareceu na eleição falando que vai retomar a industrialização do País com tal e tal proposta. Ele não tem essa proposta. Ele não tem nenhuma proposta significativa. Isso porque a política do PT chegou no fim da linha, num beco sem saída.”

O dirigente apontou uma contradição na discussão sobre o Banco Central. Lula criticou Flávio Bolsonaro por defender a independência da instituição, mas, questionado depois do debate, negou que pretenda acabar com ela. A crítica ao adversário esbarra na política que o próprio governo mantém.

Neoliberalismo de baixa intensidade

Pimenta explicou que os governos do PT adotaram medidas paliativas diante da destruição econômica promovida pela direita. O Bolsa Família aliviou a fome, mas não reverteu as privatizações, os ataques aos direitos trabalhistas e a deterioração das condições de vida da população.

“O FHC estava deixando literalmente o pessoal morrer de fome. Aí veio o Lula e criou o Bolsa Família, que é uma medida para diminuir o sofrimento das pessoas diante da destruição econômica do País. Mas o PT não tomou nenhuma medida para reverter a política destrutiva, a política neoliberal. Então, o PT sempre manteve uma política neoliberal de baixa intensidade.”

A manutenção dos programas sociais não resolve o desemprego nem oferece uma perspectiva de desenvolvimento. Esses benefícios impedem que parcelas da população sejam lançadas em uma miséria ainda maior, mas não superam as causas do empobrecimento.

“O fracasso do PT está justamente nisso: como ele nunca conseguiu oferecer uma perspectiva política de superação da política neoliberal, basicamente eu diria da era FHC, como ele nunca conseguiu oferecer nenhuma perspectiva de superação daquele desastre econômico total que foi a era FHC, a política dele está esgotada.”

O mesmo limite aparece nas propostas de Flávio Bolsonaro. O candidato da direita promete cortar gastos, política também aplicada pelo governo Lula. Pimenta advertiu que a burguesia exigirá novos cortes qualquer que seja o vencedor, enquanto a crise continuará pressionando as condições de vida dos trabalhadores.

A dificuldade eleitoral de Lula é particularmente expressiva porque envolve uma liderança com grande apoio popular. O desgaste não pode ser explicado pela falta de projeção do candidato, como ocorreria com outros nomes do PT. É a política do Partido que está sendo colocada em questão.

O fracasso da esquerda e o avanço da direita

A análise foi estendida à América do Sul. Pimenta relacionou as vitórias eleitorais da direita à incapacidade dos governos de esquerda de apresentar uma saída para a crise. Na Argentina, a eleição de Javier Milei expressou o fracasso do peronismo e a busca de setores da classe média e dos trabalhadores por uma mudança.

O apoio a Milei não resolve os problemas que provocaram o desgaste do governo anterior. A direita aplica novos ataques à população, perde apoio e demonstra que também não dispõe de uma solução. A alternância entre esses governos mantém os países presos à mesma política econômica.

“Os regimes políticos todos, na América do Sul, na América Latina de modo geral, e eu diria até que no continente americano, porque os Estados Unidos sofrem do mesmo problema, esses regimes de aparência democrática se esgotaram, porque eles serviram simplesmente como uma forma política para fazer com que as massas pagassem pesadamente pela crise capitalista.”

Pimenta rejeitou tanto a apresentação da reeleição de Lula como uma salvação nacional quanto a expectativa de que Flávio Bolsonaro resolva o que o PT não resolveu. O impasse exige medidas que enfrentem os interesses capitalistas responsáveis pela situação.

“O impasse econômico do continente é total e, sem medidas, eu diria inclusive enfaticamente revolucionárias, não há como você tirar o continente do buraco em que ele está colocado.”

A despolitização da campanha

O presidente do PCO criticou a substituição das propostas políticas por acusações morais, ataques pessoais e escândalos. A direita recorre tradicionalmente a esse tipo de campanha. O PT, porém, também adotou esses métodos, arrastando seus aliados para uma disputa que não esclarece nem organiza os trabalhadores.

Uma das contradições está na propaganda sobre o perigo de uma ditadura. Fora dos debates, apoiadores de Lula apresentam a vitória de Flávio Bolsonaro como o início de um regime fascista. No confronto direto entre os candidatos, essa denúncia não ocupou o lugar que corresponderia à gravidade da ameaça anunciada.

“Se você acredita mesmo que a defesa da candidatura do Lula é uma luta contra o fascismo tomar conta do País, contra o perigo de que o Flávio Bolsonaro vai dar um golpe de Estado e vai implantar uma ditadura, qualquer que seja a avaliação que nós temos desses prognósticos, você esperaria que isso fosse não apenas um tema, mas que fosse um tema central do debate.”

Pimenta explicou que nem mesmo o uso da eleição para denunciar esse perigo está sendo feito. A campanha adapta seus argumentos ao público que pretende alcançar, enquanto adere a propostas reacionárias, como a redução da maioridade penal.

“Se você ganhar a eleição com qualquer tipo de expediente, propondo diminuição da maioridade penal e tudo, se adaptando cada vez mais profundamente à política burguesa, você não vai ser um instrumento para deter o avanço de forças reacionárias. Não tem como.”

A crítica atingiu também o PSTU, que declarou “voto crítico” em Lula. A repetição da propaganda petista não expressa independência diante da candidatura, mas submissão à sua orientação. O resultado desse apoio já é uma derrota política, independentemente da contagem dos votos.

“A campanha em si já é uma grande derrota. E aí não é uma derrota em termos de voto, simplesmente. É uma derrota ideológica, uma derrota política.”

Soberania e Palestina

Pimenta também rejeitou o apoio de setores nacionalistas a Flávio Bolsonaro. Não existe fundamento para esperar do candidato uma política de defesa da soberania nacional. Ao mesmo tempo, o governo Lula não oferece uma alternativa de independência diante do imperialismo.

A relação com “Israel” demonstra essa contradição. Apesar das críticas verbais ao massacre em Gaza, o Brasil mantém relações econômicas com o Estado sionista, incluindo a venda de petróleo. O dirigente denunciou ainda a atuação de sionistas no PT e sua participação em atividades oficiais do governo.

“Num certo sentido, é muito ruim o que o PT faz, porque ele encobre com um discurso esquerdista a política que é uma política favorável ao sionismo.”

A proximidade de Flávio Bolsonaro com Netaniahu não apaga a política do governo brasileiro. Pimenta explicou que o abandono da soberania pelo PT contribui para que setores nacionalistas procurem uma alternativa na direita, embora esse apoio também seja equivocado.

Frente única não é apoio eleitoral

Na defesa do voto nulo, Pimenta retomou os escritos de Leon Trótski sobre a ascensão do nazismo na Alemanha. A proposta de frente única operária buscava reunir as organizações dos trabalhadores para enfrentar diretamente o fascismo, que dispunha de milhares de milicianos armados.

“Ele propunha unificar todas as organizações operárias, o Partido Socialista, o Partido Comunista, os sindicatos, que deveriam fazer uma frente única da classe operária contra o fascismo, não para as eleições, mas para a luta direta, quer dizer, enfrentar os grupos armados, os camisas pardas do Partido Nacional-Socialista.”

O dirigente lembrou que Mussolini chegou ao governo por nomeação do rei da Itália, sob a pressão da mobilização fascista. Na Alemanha, Hindenburgo chamou Hitler para formar o governo. O apoio a representantes da burguesia como um “mal menor” não impediu a vitória dos fascistas.

A existência de divergências entre partidos comprometidos com o regime não transforma um deles em uma alternativa para os trabalhadores. Essas disputas devem ser aproveitadas para impulsionar a organização operária, preservando sua independência política.

“Só que Trótski não propunha, para se aproveitar do conflito, votar no Partido Social-Democrata, que seria o PT brasileiro. O que ele propunha era aproveitar que existe um conflito e chamar os trabalhadores social-democratas para a luta.”

A proposta consistia em mobilizar os trabalhadores ligados à social-democracia para pressionar suas direções a participar de uma frente de combate ao fascismo. Não se tratava de apoiar eleitoralmente esses dirigentes ou os partidos burgueses com os quais estavam aliados.

Pimenta relacionou essa experiência à posição do PCO. A luta contra a direita exige uma política independente da frente ampla. O PT conserva as condições econômicas e políticas que alimentam o crescimento do bolsonarismo.

“O PT preserva a situação que nós estamos vivendo, e essa situação dá impulso ao bolsonarismo. O bolsonarismo cresce devido à política do PT.”

Perseguição judicial

Na discussão sobre liberdade de expressão, Pimenta denunciou a atuação persecutória do Ministério Público. Um dos casos examinados foi o de Lucas Passos, condenado por atos preparatórios de terrorismo em um processo relacionado a denúncias do Mossad. A pena inicial de seis anos foi elevada para 14 após intervenção do órgão.

O dirigente também abordou o processo contra o PCO a partir de uma reportagem do Metrópoles sobre a contratação de serviços eleitorais. A acusação de desvio de dinheiro para o Hamas não corresponde sequer ao conteúdo da matéria usada para justificar a perseguição.

“É uma matéria idiota, porque ninguém é obrigado a pedir atestado ideológico para nenhuma empresa que contrate, nem mesmo nas eleições. Mas essa matéria deu lugar a um processo onde diz que a gente teria desviado o dinheiro do fundo eleitoral para o Hamas, que não é o que a matéria diz.”

Pimenta destacou a participação do Ministério Público no clima de censura e perseguição política existente no País. A abertura de processos e os pedidos de agravamento das penas seguem uma orientação política contra os acusados.

Repressão contra os pobres

Ao discutir a redução da maioridade penal, Pimenta citou a condenação de uma desembargadora e de um juiz da Bahia por envolvimento em venda de decisões judiciais. O caso evidencia o problema de ampliar os poderes de instituições que atuam contra a população pobre.

“Se você aumenta as penas de prisão, se você diminui a idade para que a pessoa possa ser condenada, você, na verdade, está entregando pessoas, em geral pessoas pobres, para juízes que não merecem absolutamente nenhuma confiança.”

As propostas de endurecimento penal ignoram as condenações de inocentes, a violência policial e a desigualdade nas condições de defesa. Também desconsideram que a maioria dos crimes permanece sem solução, o que torna demagógica a promessa de resolver a criminalidade pelo aumento das penas.

“O sistema judiciário não vai condenar os mais culpados, ele vai condenar os mais fracos, os que não têm condição de se defender, os que não têm condição, por exemplo, de comprar uma sentença. Esses vão ser condenados.”

A mobilização dos adolescentes

Ao final, Pimenta comentou os protestos de secundaristas na França e em outros países europeus. A mobilização contra o governo Macron demonstra a capacidade de intervenção política dos adolescentes e ajuda a compreender as restrições ao acesso às redes sociais.

“Quando o pessoal aprova uma lei como a famosa Lei Felca, o que eles querem evitar é isso que está acontecendo na França. Logicamente que eles não vão conseguir evitar isso, tanto que não estão evitando. Na França também tem lei de restrição para adolescentes.”

O dirigente contrapôs a tentativa de afastar os jovens das redes à defesa de sua prisão: “Se a pessoa tem idade para participar da política com essa ênfase que nós estamos vendo, então ela tem idade para ter acesso às redes sociais também”.

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