Rui Costa Pimenta participou do Morning Show, da Jovem Pan, na quinta-feira (22). A bancada abriu a entrevista perguntando por que o Partido da Causa Operária (PCO) votará nulo no segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. Rui respondeu que o Partido rejeita a candidatura da direita, mas tampouco considera o governo petista uma alternativa para os trabalhadores.
“A nossa preocupação é marcar uma posição de insatisfação, principalmente com o PT. Porque, logicamente, nós não votaríamos na direita, nós somos um partido de esquerda. Então nós queremos deixar bem marcado que nós acreditamos que o PT não é uma alternativa para a esquerda, efetivamente. […] A nossa preocupação não é fazer campanha eleitoral. Não é convencer o eleitor do PT para votar nulo, não é isso. A nossa preocupação é introduzir um debate importante.”
O voto nulo foi aprovado na 39ª Conferência Nacional do PCO, em 11/10, para a eleição presidencial e os segundos turnos estaduais. Em 2022, o Partido pediu o voto em Lula porque sua candidatura expressava a mobilização dos trabalhadores contra o golpe de 2016 e a perseguição judicial. Agora, à frente de um governo sustentado justamente pelos golpistas de 2016, o PT pede apoio para uma política que os seus eleitores de 2022 rejeitam. O PCO orienta seus militantes, mas não fará campanha para convencer os eleitores petistas a anular o voto.
Rui deu nomes aos aliados que pesam nessa avaliação. Geraldo Alckmin, vice-presidente, foi cotado até para o Ministério da Fazenda; Simone Tebet também ganhou um ministério e substituiu a candidatura do PT ao Senado em SP. Um dos participantes do programa defendeu a aliança como necessária para ganhar eleições e governar. Rui perguntou que interesse teriam os trabalhadores em enfrentar uma ala da direita ao lado de outra.
“Um problema para que a gente apoiasse o PT nessa eleição é isso. Você vê a composição de forças, você vai encontrar o Geraldo Alckmin, que já tava na eleição anterior, mas agora ganha muito mais destaque. Você vai ver a Simone Tebet.”
Ao ouvir a defesa da frente ampla, acrescentou: “Figuras como Alckmin, eles são o inimigo da classe trabalhadora. Então, o que nós estamos fazendo para lutar contra um tipo de inimigo? A gente se alia […] com outro tipo de inimigo? É uma coisa muito contraditória.”
A discussão mudou quando a bancada perguntou por que o PCO defende a liberdade de expressão de figuras da direita. Rui apontou a censura na Internet como um dos aspectos mais negativos do governo Lula. Para ele, a opinião política de quem sofre uma restrição não pode determinar se a esquerda a aceita ou a denuncia.
“Nós temos muita polêmica com a esquerda. Um dos fatores que eu considero mais negativo do governo Lula foi essa onda de censura na Internet. Nós somos a favor da liberdade de expressão irrestrita. Nós sempre fomos, não é porque o debate apareceu agora que a gente se posiciona diante desse debate. É uma posição histórica.”
Um comentarista alegou que regulamentar as plataformas poderia servir para dar transparência aos algoritmos. Rui respondeu que as medidas por ele criticadas estabelecem o que os usuários podem dizer. A distinção é decisiva: fiscalizar o funcionamento das empresas não exige entregar a elas e aos tribunais o poder de retirar manifestações políticas.
A defesa dessa liberdade antecede o bloqueio das contas do PCO, determinado por Alexandre de Moraes em 2022. O Partido já havia se colocado contra perseguições por opinião dirigidas a pessoas da direita, apesar de combater suas posições.
Os apresentadores associaram as divergências do PCO com outros setores da esquerda ao identitarismo. Rui rejeitou a ideia de que criticar essa política signifique ser contrário às lutas das mulheres, dos negros e dos homossexuais. Apontou, em particular, as leis que punem opiniões como motivo de um afastamento mais profundo.
“Nós nunca fomos muito alinhados com a esquerda, mas, de fato, eu acho que de uns 15 anos para cá, com o surgimento, por exemplo, do identitarismo, isso daí provocou um distanciamento muito maior. Não é que nós sejamos contra a luta das mulheres, a luta dos negros, dos homossexuais, não é isso. É a maneira como está sendo feito. Então, por exemplo, quando apareceram as primeiras leis que criminalizavam a opinião, aí é que começa uma divergência mais profunda.”
Perguntado sobre o que orienta o Partido, Rui respondeu que a luta contra a classe dominante capitalista exige que os trabalhadores possam se manifestar e se organizar. A defesa da liberdade de expressão decorre dessa necessidade política.
“O nosso princípio fundamental é defender o socialismo. Nós somos um partido que luta contra a classe dominante capitalista. Esse é o princípio fundamental do Partido. E, nesse sentido, nós defendemos tudo aquilo que permite que os trabalhadores, que são uma classe oprimida, possam se manifestar, para se fazer política. Daí o problema da liberdade de expressão.”
Houve ainda uma provocação sobre Neymar. Rui defendeu o jogador por sua contribuição ao futebol brasileiro, que chamou de componente fundamental da cultura nacional. Disse que Neymar deve ser apreciado como jogador, independentemente do voto que declarou em outra eleição.
Por fim, a bancada perguntou sobre a quebra dos sigilos de Lula e Flávio Bolsonaro, assunto principal daquela edição do programa. Rui criticou a troca de acusações pessoais entre as campanhas e a ausência de uma discussão sobre propostas.
“Eu acho que isso daí é parte do circo eleitoral. A eleição está muito centrada em aspectos criminais. ‘Fulano roubou’, ‘o outro é miliciano’ e ‘o Lula beneficia o filho’. Na minha opinião, isso é uma forma de despolitização muito profunda.”
Um apresentador falou em “muito ataque e pouca proposta”. Rui corrigiu: “Proposta nenhuma, na realidade.”





