Em declaração publicada em 7 de outubro, intitulada Derrotar Flávio Bolsonaro! Fora Trump da América Latina! Nenhum voto na extrema direita! Construir a mobilização anti-imperialista, o Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT) apresentou sua posição sobre o segundo turno presidencial. Ou melhor: publicou um longo texto para não apresentar uma posição. Depois de uma extensa análise do bolsonarismo, do imperialismo e do governo Lula, o leitor continua sem saber o que a organização orienta fazer na urna.
O título da declaração anuncia, em letras garrafais, “nenhum voto na extrema direita”. Muito bem. Mas as eleições têm dois candidatos, Lula e Flávio Bolsonaro, e existe também a possibilidade do voto nulo. Dizer em quem não votar é apenas metade da orientação. A outra metade, justamente aquela que definiria a política do MRT diante da candidatura petista, desapareceu. A organização encontrou uma fórmula admirável: faz campanha eleitoral sem dizer qual é sua orientação eleitoral.
O texto insiste:
“Uma vez mais, chamamos a mobilização independente e anti-imperialista para derrotá-la e estamos desde já agitando fortemente: nenhum voto em Flávio Bolsonaro!”
Ninguém precisa de uma declaração de milhares de palavras para descobrir que uma organização que se reivindica socialista não pretende votar em Flávio Bolsonaro. A questão é outra: diante de Lula, candidato da frente ampla que o próprio MRT denuncia, que posição deve adotar a classe trabalhadora?
Em outra passagem, o MRT escreve:
“É por isso que, na medida em que enfrentamos com toda força os votos em Flávio Bolsonaro, lado a lado a cada jovem e trabalhador que quer apoiar Lula, nós não prestamos nenhum apoio político à Frente Ampla de Lula.”
O MRT anuncia que estará “lado a lado” com quem quer votar em Lula, mas logo acrescenta que não presta “nenhum apoio político” à frente ampla. Afinal, defende que esses trabalhadores votem em Lula ou pretende convencê-los a anular o voto? Não explica. Seria perfeitamente possível defender um voto em determinado candidato sem aprovar seu programa. Nesse caso, caberia dizer abertamente qual é a orientação e justificá-la.
A indefinição chama ainda mais atenção porque o comunicado faz uma crítica extensa ao governo Lula. O MRT chega a atribuir à frente ampla responsabilidade pelo fortalecimento do bolsonarismo:
“A explicação mais profunda, na verdade, é que a conciliação de classes da Frente Ampla, nos últimos quatro anos, manteve e fortaleceu as bases sociais do bolsonarismo no país, abrindo caminho a esse resultado e com o compromisso de esvaziar as ruas e conter nossas lutas.”
Se a frente ampla fortaleceu o bolsonarismo, como afirma a declaração, o que o MRT propõe fazer diante da candidatura de Lula? A organização se dispõe a denunciar o governo petista por páginas e páginas, mas se recusa a chegar a uma conclusão sobre o voto. Depois de responsabilizar a frente ampla pelo avanço da direita, volta à mesma palavra de ordem: “nenhum voto em Flávio Bolsonaro!”. A pergunta continua sem resposta.
O MRT acusa o governo de preservar a reforma trabalhista, a reforma da Previdência e a terceirização irrestrita. Critica os acordos com o Centrão, o financiamento ao “agronegócio”, a sustentação dada a governadores privatizadores e a política de Lula diante dos Estados Unidos. Seu próprio diagnóstico é que a conciliação de classes desarmou os trabalhadores e favoreceu o crescimento da direita. Mas, depois de apresentar essas acusações, o MRT não esclarece se pretende orientar seus militantes a votar em Lula ou a anular o voto.
Se Lula mantém as medidas contra os trabalhadores que o MRT enumera, por que votar nele? Se, apesar disso, o MRT considera necessário votar no candidato petista para impedir a vitória de Flávio Bolsonaro, que diga claramente. Se considera que os dois candidatos devem ser rejeitados nas urnas, que defenda o voto nulo.
Há ainda uma passagem particularmente curiosa. Perto do final da declaração, o MRT afirma que é necessário “construir uma nova organização” para superar a política de conciliação do PT pela esquerda. Como pretende construir essa organização se não consegue apresentar uma posição compreensível nem mesmo sobre o segundo turno? Um partido político precisa formular um programa, definir uma orientação e fazer com que seus militantes defendam a mesma política diante dos trabalhadores.
Suponha que um militante do MRT entre numa fábrica e seja perguntado: “O MRT orienta voto em Lula ou voto nulo?”. O que deve responder? Que Trump quer dominar a América Latina? Que Flávio Bolsonaro representa a extrema direita? Que é necessário convocar greves e acabar com a escala 6×1? O trabalhador não pediu uma nova exposição sobre o imperialismo. Perguntou em quem, segundo o MRT, deveria votar.
O motivo é óbvio. O MRT não anuncia qual a sua posição porque não tem programa. É, como todo partido da esquerda pequeno-burguesa, refém da chamada “opinião pública”. E, como toda a “opinião pública” mergulhou, de maneira histérica, no apoio à frente ampla, o MRT não tem coragem de chamar o voto nulo. Na prática, está liberando tacitamente para que seus militantes sigam a política de seu meio pequeno burguês: o mais rasteiro oportunismo eleitoral, que começa jurando lutar contra o fascimso e termina defendendo a redução da maioridade penal.




