José Álvaro Cardoso

Graduado pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestre em Economia Rural pela Universidade Federal da Paraíba e Doutor em Ciências Humanas pela UFSC. Trabalha no DIEESE.

Coluna

O ‘carro alegre’ que movimenta a história do SINTIMMMEB

Essa é a história do SINTIMMMEB, que continua sendo escrita

Tive a honra de participar, no último dia 11, domingo, da comemoração dos 50 anos de fundação do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Brusque (SINTIMMMEB). O evento foi um misto de celebração de meio século de fundação do Sindicato e festejos do Dia das Crianças, oficialmente celebrado no dia seguinte. Para marcar tão importante data, o Sindicato lançou o livro SINTIMMMEB 50 anos – A História da Luta Metalúrgica em Fotos e Fatos, escrito pela jornalista Carina Machado, que reúne fotografias, atas, recortes de jornais e relatos da categoria. É uma obra notável, que cobriu os principais acontecimentos do período, com análise precisa e fotografias muito representativas da história da entidade.

A iniciativa, que é rara no movimento sindical brasileiro, revela o zelo com que a direção desse importante sindicato trata a sua trajetória. A história do livro não começa com a carta sindical de 1976, nem com a sede própria, nem com os patrimônios que a entidade hoje ostenta — e que orgulham muito os sócios do Sindicato. Começa muito antes, quando os trabalhadores se reuniram, em plena ditadura militar, para fundar uma associação profissional que carregava, desde o início, a semente da organização coletiva. Nenhum deles era líder sindical de ofício. Eram operários que resolveram organizar-se porque sabiam, no fundo, que sozinhos não chegariam a lugar nenhum. O processo para obter o reconhecimento oficial arrastou-se até que a carta sindical chegou, concedida pela ditadura militar, já em fase de franca decadência.

O livro conta essa caminhada. E conta com a riqueza do trabalho da autora, que foi atrás dos documentos, das atas, das fotografias, dos boletins, das memórias e das vozes que ajudaram a construir uma das mais belas histórias do movimento sindical de Santa Catarina. A trajetória do SINTIMMMEB revela, desde o início, a importância da solidariedade entre as organizações dos trabalhadores e entre estes diretamente. Revela também que uma entidade sindical não nasce grande. Ela se constrói aos poucos, nas assembleias, nas negociações, nas portas das fábricas, nas conversas difíceis e nas decisões coletivas que vão moldando a consciência de uma categoria.

Para compreender esta história, é preciso lembrar que o movimento sindical brasileiro enfrentou tempos extremamente duros. Durante a ditadura militar, não havia uma lei que proibisse terminantemente todas as greves, mas sim uma legislação criada logo após o golpe de 1964, que tornava o exercício desse direito praticamente impossível na prática. A Lei nº 4.330/1964 (conhecida como “Lei de Greve”), sancionada pelo ditador Castelo Branco, estabelecia tantas exigências burocráticas e prazos que quase qualquer paralisação era declarada ilegal pela Justiça do Trabalho. A lei proibia greves em “setores essenciais”, cujo rol era vastíssimo, e também por motivos políticos ou de solidariedade. Além disso, o Decreto-Lei nº 1.632/1978, já no governo de Ernesto Geisel, reforçou a proibição de greves em serviços públicos e atividades de interesse da segurança nacional.

A retomada do movimento grevista aconteceu de forma expressiva em maio de 1978, partindo do ABC Paulista. Em 12 de maio de 1978, os trabalhadores da Scania, em São Bernardo do Campo, cruzaram os braços dentro da fábrica. Foi uma greve “de braços cruzados”, sem piquetes externos, para evitar a repressão imediata. Isso abriu caminho para que trabalhadores de diferentes regiões do país também voltassem a ocupar a cena pública. Brusque teve seus próprios capítulos nessa retomada. Alguns deles aparecem neste livro com força impressionante. Há greves, paralisações, assembleias tensas, negociações difíceis e episódios que revelam a disposição de uma categoria que aprendeu a defender seus direitos com disciplina, unidade e coragem.

Em uma dessas passagens, o presidente do Sindicato, José Isaías Vechi (um dos homenageados no domingo), colocou o próprio corpo diante de um ônibus para impedir que a greve fosse furada. Em outras, trabalhadores enfrentaram o frio, a pressão e o medo para sustentar aquilo que havia sido decidido coletivamente. São histórias que não devem ser lidas apenas como lembranças heroicas. Elas mostram que a liderança do SINTIMMMEB estava no chão de fábrica e na linha de frente dos conflitos. A partir da ampla mobilização dos trabalhadores brasileiros, que haviam liquidado na prática a “Lei de Greve”, a Constituição de 1988 reduziu a jornada de 48 para 44 horas semanais. O SINTIMMMEB esteve à frente da negociação para que a mudança chegasse ao chão de fábrica.

Depois vieram os anos duros do governo de Fernando Collor, um falso “caçador de marajás”, inventado pela Rede Globo para enganar a população. Foi um período de alta inflação, que corroía a renda, obrigando o Sindicato a negociar em meio a crises sucessivas. Era, muitas vezes, uma política de ceder os anéis para evitar a perda de dedos. Em cada uma, o Sindicato esteve presente, levando a decisão à assembleia e respeitando a realidade de cada grupo.

A história que este livro conta atravessa governos, planos econômicos, reformas, crises, mudanças no mundo do trabalho e novas formas de organização sindical. Atravessa também gerações de dirigentes e trabalhadores que compreenderam que a luta sindical deve sempre ser avaliada como um processo, ou seja: as conquistas de hoje preparam a base das conquistas de amanhã. Uma redução de jornada que parece pequena pode ensinar a uma categoria inteira que é possível trabalhar menos, inclusive melhorando a condição das empresas. Uma nova estrutura de atendimento pode transformar o Sindicato em referência também na área da saúde. Um boletim distribuído na porta da fábrica, uma assembleia cheia, um vídeo explicando direitos, um aplicativo, uma campanha salarial, uma festa das crianças ou a inauguração de um centro médico: tudo isso faz parte da mesma caminhada.

A história das organizações passa também pela história de suas lideranças. Este livro traz personagens que, em tempos diferentes, ajudaram a construir o SINTIMMMEB como uma entidade de luta, presença e pertencimento. Não como personagens isolados, mas como expressões de uma construção coletiva que atravessou cinco décadas, sem perder o vínculo com o chão de fábrica. Como técnico do DIEESE, instituição que assessora os sindicatos, presenciei, ao longo de quase quatro décadas, muitas manifestações de coragem. E toda essa atuação ilustra o fato inegável de que a liderança do SINTIMMMEB sempre esteve e está onde é preciso: nas portas das empresas, nas assembleias, nas horas de tensão e nos momentos em que é preciso sustentar, com firmeza, a decisão dos trabalhadores.

Em 2026, o SINTIMMMEB chega aos 50 anos e mantém-se na luta. Cada fotografia, cada ata, cada boletim do “Zé” e do “Fritz” distribuído nas portas das fábricas conta um pedaço dessa caminhada. Os papéis amarelados, as assinaturas feitas à mão, os textos datilografados e os registros fotográficos magníficos atravessaram gerações até chegar a este livro. A memória operária não se preserva sozinha; exige gesto deliberado de quem sabe que esquecer é começar a perder. Aos cinquenta anos, o SINTIMMMEB olha para trás e vê uma trajetória que nenhuma crise conseguiu apagar. Mais do que isso: olha para a frente com a certeza de que a luta sindical não é relíquia do passado. Ela se transforma a cada convenção coletiva, a cada assembleia, a cada trabalhador que descobre que, sozinho, é voz que se perde no vento — mas, organizado, é força que transforma.

“E quem garante que a História / É carroça abandonada / Numa beira de estrada / Ou numa estação inglória?” — cantaram Pablo Milanés e Chico Buarque na “Canción por la Unidad Latinoamericana”. Ao longo de cinco décadas, os metalúrgicos de Brusque e Guabiruba responderam a essa pergunta com fatos. A história do SINTIMMMEB não é carroça parada à beira do caminho, mas carro alegre, cheio de um povo contente, que atropela, indiferente, todo aquele que a negue. Ajudou a atropelar a ditadura, atropelou o medo e segue adiante, com muitas dificuldades, procurando melhorar a vida dos trabalhadores.

Que esse livro sirva de testemunho e orgulho para os que vieram antes, de aprendizado para os que estão chegando e de lembrete para todos: nenhuma conquista coletiva nasce sem organização, coragem e participação. Essa é a história do SINTIMMMEB, que continua sendo escrita. Como técnico do DIEESE, tive o privilégio de acompanhar essa história mais ou menos de perto e tenho imenso orgulho de — juntamente com os meus colegas — ter adicionado um ou outro tijolinho a essa grandiosa história de lutas e conquistas.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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