José Carlos Miranda, dirigente da corrente Semear, do PSOL, publicou no sítio Esquerda Online, em 11 de outubro, o artigo É possível vencer. Ali apresenta protestos na Europa e nos Estados Unidos como sinais de uma onda mundial de revolta contra a direita. Ao chegar ao Brasil, porém, a suposta insurreição se resume a jovens procurando adesivos, panfletos e bandeiras da campanha de Lula. O autor anuncia uma mudança histórica e termina comemorando a possibilidade de reeleger o presidente que governa em aliança com a burguesia.
A confusão resume a trajetória do PSOL. Fundado em 2004 como alternativa ao PT, depois da expulsão de parlamentares que se opuseram à reforma da Previdência promovida pelo primeiro governo Lula, o partido se transformou num auxiliar eleitoral do petismo. Guilherme Boulos, uma de suas principais figuras, integra o governo. Correntes que reivindicam o socialismo subordinam sua política à vitória de Lula.
Miranda integra a Semear, constituída em março de 2026 pela fusão da Resistência com a Insurgência. Entre os principais dirigentes da Resistência está Valério Arcary, antigo militante do PSTU, organização que reivindica o trotskismo. O percurso vai da defesa da revolução socialista à sustentação política do governo de frente ampla. O socialismo sobrevive nos documentos; na vida política imediata, a tarefa é defender as instituições burguesas contra a direita.
É isso que explica o entusiasmo do autor com o que chama de despertar da juventude. Miranda relata ter visto jovens se aproximarem das bancas eleitorais para buscar material de propaganda e conclui que a juventude teria se levantado para lutar. Escreve: “Mas dezenas de milhares de jovens de todo o país, de norte a sul, a juventude se tornou lulista (…) Algo verdadeiramente fenomenal.”
Distribuir adesivos é uma atividade eleitoral. Não é uma greve, uma ocupação, uma manifestação contra a repressão ou uma luta por salários. Tampouco demonstra que os jovens tenham aderido a um programa de transformação social.
Lula governa com Geraldo Alckmin, antigo dirigente tucano, e mantém uma política de conciliação com banqueiros e grandes empresários. A reforma trabalhista de Temer e a reforma da Previdência de Bolsonaro não foram revogadas. Os juros chegaram a 15% ao ano sob seu governo. Que oposição à ordem capitalista está representada por uma campanha para reeleger Lula?
Ao confundir entusiasmo eleitoral com mobilização contra o regime, o dirigente do PSOL elimina justamente a discussão que distinguiria uma política socialista da propaganda do PT.
A diferença também aparece na luta pela Palestina. Desde 2023, o genocídio promovido por “Israel” na Faixa de Gaza provocou manifestações em vários países. No Brasil, não houve uma mobilização nacional do PT contra o massacre comparável ao empenho que sua direção dedica às eleições. Por que os dirigentes governistas não convocam a juventude com a mesma urgência para enfrentar o sionismo e a política dos Estados Unidos? A revolta é bem-vinda, aparentemente, desde que ajude a eleger Lula.
Os protestos norte-americanos e o Partido Democrata
Miranda trata os atos No Kings (“Sem reis”), contra Donald Trump, como expressão da mesma tendência revolucionária. Cita milhões de manifestantes e descreve jornadas de protestos contra a repressão aos imigrantes. Há revolta legítima contra as ações do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE). O problema é identificar quem se apossou politicamente essa insatisfação e para onde procura conduzi-la.
O artigo reconhece o papel central da rede Indivisible, vinculada ao campo político do Partido Democrata. Como já denunciou este Diário Causa Operária, a organização recebeu recursos das Open Society Foundations, ligadas ao bilionário George Soros. O que mostram que há interesses e organizações burguesas disputando a direção do movimento.
Miranda passa por cima do problema. Para ele, a presença de uma multidão nas ruas parece suficiente para certificar o caráter progressista da mobilização. Mas o Partido Democrata é um dos dois grandes partidos do imperialismo norte-americano. Joe Biden apoiou a ofensiva de “Israel” contra Gaza e manteve o envio de armas aos sionistas.
A violência contra imigrantes precisa ser combatida, assim como as guerras imperialistas. Mas não segue daí que uma organização próxima dos democratas represente uma saída independente para a classe trabalhadora.
Não é a primeira vez que setores da esquerda se empolgam com manifestações apresentadas como democráticas sem investigar suas direções. O DCO já criticou essa atração pelas chamadas revoluções coloridas, nas quais a insatisfação popular pode ser aproveitada para favorecer forças ligadas ao imperialismo. O tamanho de um protesto não resolve seu caráter político. É indispensável saber quem o organiza, o que reivindica e que forças ganham com seu resultado.
Uma revolta mundial que termina na urna
O artigo também menciona jovens que protestam na Espanha, na França e na Alemanha contra o custo de vida, a falta de moradia e as políticas de austeridade. São lutas distintas. O que não dá é tentar somá-las mecanicamente à campanha eleitoral brasileira.
Miranda reúne acontecimentos diferentes sob a imagem de um pêndulo que finalmente estaria se movendo para a esquerda. O expediente permite transformar qualquer oposição à direita em prova de uma mesma tendência histórica.
O oportunismo fica evidente quando se observa a trajetória do PSOL. A organização nasceu denunciando a adaptação do PT ao regime burguês e hoje participa de seu governo. A Resistência, fundada por militantes vindos do PSTU, integrou uma nova corrente cujos dirigentes apresentam a campanha petista como tarefa decisiva. Aquilo que deveria ser uma organização socialista independente torna-se uma força auxiliar da frente ampla.
Miranda começa com a promessa de uma revolta contra o sistema e termina com um chamado para conservar no poder um de seus administradores. Essa é a distância entre a política revolucionária e o eleitoralismo da esquerda pequeno-burguesa.




