O professor Luiz Marques publicou no sítio A Terra é Redonda o artigo O Estado de exceção e a mídia, no qual apresenta a possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro como mais um sinal de uma catástrofe que ameaçaria a democracia e a própria humanidade. Diante do perigo, acumula citações filosóficas, lamentações e advertências. Sua saída, no entanto, é muito mais modesta, a de convencer os eleitores a votar em Lula.
Para chegar à política, o leitor precisa atravessar Giorgio Agamben, Cecília Meireles, Homo sacer, Stasis, Thanatos, aporofobia e Albert Camus. Marques escreve sobre uma eleição nacional, mas parece dirigir-se a outros intelectuais pequeno-burgueses, não ao trabalhador que deseja saber por que está endividado e perdeu direitos. A erudição ali serve para encobrir a ausência de um programa de ação.
O artigo é puro desespero. A democracia estaria se desintegrando, o mundo caminharia para uma catástrofe e os cidadãos viveriam à mercê da violência e do autoritarismo.
Desespero não serve para quem pretende lutar. Se Flávio Bolsonaro se eleger, cabe à esquerda organizar os trabalhadores para enfrentar seus ataques, não apresentar a votação como a última oportunidade de salvação. Quem está na luta popular não reduz o futuro do País ao resultado de um segundo turno.
Marques toma como referência a deterioração do Estado de direito no mundo do pós-guerra. Mas que democracia era essa? Desde 1945, os Estados Unidos promoveram guerras na Coreia e no Vietnã, invadiram o Iraque e o Afeganistão, sustentaram ditaduras na América Latina e impuseram sanções econômicas a países que resistiram ao seu assédio. Com a Escola das Américas formaram militares que deram golpes e participaram da repressão em diversos países latino-americanos. Diante disso, o imperialismo norte-americano jamais representou o triunfo das liberdades democráticas.
A ascensão da extrema direita não surgiu de repente para destruir uma ordem anteriormente justa. Ela resulta também do esgotamento do neoliberalismo, das guerras e do descrédito dos governos tradicionais. No Brasil, o crescimento do bolsonarismo ocorreu enquanto os partidos do regime, inclusive o PT, administravam os interesses da burguesia. O professor transforma as consequências de uma política em ameaça abstrata, sem enfrentar suas causas.
Sobre o Supremo Tribunal Federal. Marques afirma que a Corte virou bode expiatório da direita por suas poucas virtudes, não por seus muitos vícios. Quais seriam essas virtudes? Não diz. O STF participou do Mensalão à Lava Jato, e peça-chave no golpe de 2016. A frase de Romero Jucá sobre uma mudança de governo “com o Supremo, com tudo” ficou conhecida justamente durante a conspiração contra Dilma Rousseff.
E quanto às relações entre o banqueiro Daniel Vorcaro, o Banco Master e integrantes do Judiciário? O escritório da mulher de Alexandre de Moraes manteve um contrato milionário com o banco. Também não se pode apresentar como expressão da soberania popular um tribunal cujos ministros não são eleitos e permanecem décadas no cargo. Se, como lembra o próprio Marques, todo poder emana do povo, que poder têm os trabalhadores de escolher ou destituir ministros do STF?
Marques denuncia o parasitismo financeiro, os ataques aos direitos trabalhistas e a violência contra os pobres. Mas omite a responsabilidade do governo que agora pretende defender. Sob Lula, a taxa Selic chegou a 15% ao ano em 2025, ultrapassando o bolsonarista Campos Neto; em setembro de 2026, mesmo após redução, permanecia em 13,75%. O Banco Central é dirigido por Gabriel Galípolo, indicado pelo presidente e por ele chamado de “menino de ouro”. Os juros elevados transferem recursos para os credores e encarecem a vida de trabalhadores endividados. Onde está a democracia desses trabalhadores diante do poder dos bancos?
As reformas trabalhista, de 2017, e da Previdência, de 2019, continuam de pé. Lula não devolveu aos trabalhadores os direitos retirados sob Temer e Bolsonaro. Seu governo preservou a responsabilidade fiscal e não reestatizou a Vale. A Petrobrás continua com grande participação de acionistas privados. O professor enumera os perigos de um futuro governo de direita, mas evita perguntar por que o PT não desfez medidas centrais dos governos que condena.
O mesmo acontece com a repressão. Marques fala dos corpos deixados pela polícia nas ruas e da população pobre exposta à violência do Estado. Não pergunta, porém, por que Lula adotou o lema “bandido preso, trabalhador protegido” nem apresenta a exigência de dissolução da Polícia Militar, instituição responsável por incontáveis episódios de violência contra os trabalhadores.
Ao comparar os pobres à figura romana do Homo sacer, Marques descreve uma população sem direitos e exposta à morte, ignorando a capacidade de resistência dos explorados. Mesmo na Roma antiga, os escravizados se levantaram em grandes revoltas, como a dirigida por Espártaco. A história também é feita por quem combate e derruba regimes aparentemente invencíveis.
Para o autor, os trabalhadores figuram principalmente como vítimas a serem protegidas pelo Estado e como eleitores que precisam ser persuadidos a salvar as instituições.
Sua crítica à imprensa sofre do mesmo problema. O autor espera que os grandes meios de comunicação alertem a população para os riscos que ele atribui ao bolsonarismo. Mas a imprensa das grandes empresas é parte do regime burguês. Não tem como missão organizar a classe trabalhadora contra os banqueiros e os industriais.
Depois de tantas citações e advertências, Marques conclui convocando os que se abstiveram ou anularam o voto a salvar a democracia. É a velha fé eleitoral da esquerda pequeno-burguesa. Durante anos, os trabalhadores enfrentam salários baixos, ataques aos direitos e repressão. Quando chegam as urnas, os intelectuais descobrem a urgência de ir aos bairros e conversar com o povo. Passado o pleito, devolvem a política aos gabinetes e deixam a mobilização popular para a próxima eleição.
O PT governou o País por muitos anos sem desmantelar o poder dos banqueiros, dos latifundiários e do Judiciário. Em 2016, milhões de votos não impediram a derrubada de Dilma Rousseff. A luta contra a direita exige muito mais que apertar um botão na urna. Exige mobilização diária, organização independente e um programa que corresponda aos interesses da classe operária.
Foi por essa necessidade de independência que o Partido da Causa Operária decidiu, em sua 39ª Conferência Nacional, pelo voto nulo no segundo turno de 2026. A eleição de Lula ou de Flávio não põe fim à luta de classes, e os trabalhadores precisarão enfrentar qualquer governo que atenda aos interesses da burguesia. O desespero de Marques vem de não enxergar essa força. Para quem aposta na classe operária, a eleição é apenas um episódio de uma luta ininterrupta.




