A Executiva Nacional da Unidade Popular (UP), reunida em Recife nos dias 7 e 8 de outubro, decidiu convocar seus militantes a fazer campanha por Lula no segundo turno da eleição presidencial. A resolução, divulgada pelo partido no dia 9, apresenta um balanço da candidatura de Samara Martins, denuncia a política econômica do governo e termina com uma ordem: “Convocamos a militância e o povo brasileiro para construir as mobilizações e votar 13”.
O documento é assinado pela Executiva Nacional. Não apresenta o resultado de qualquer votação da militância, conferência partidária ou reunião de delegados que tenha discutido a orientação. A direção estabelece a posição e simplesmente convoca a base a executá-la. Uma organização que pretende lutar pela democracia operária deveria começar por explicar por que uma decisão que compromete a atividade política de todos os seus filiados foi comunicada dessa maneira.
A esquerda pequeno-burguesa gosta de chamar os eleitores da direita de “gado”, como se milhões de trabalhadores fossem incapazes de pensar. Quando se trata de seus próprios militantes, entretanto, a relação não parece muito diferente, pois a direção decide e o filiado obedece. Qualquer divergência será apresentada como ameaça à luta contra o fascismo. Fica a pergunta: quem tem o direito de estabelecer a política do partido?
Para piorar, a UP sustenta que Lula perdeu terreno para Flávio Bolsonaro porque seu governo preservou os juros elevados, cortou investimentos sociais e se submeteu à grande burguesia e ao imperialismo. A própria organização afirma que essas escolhas foram as principais causas do crescimento eleitoral da direita. Depois dessa acusação, porém, conclui que o dever de todos os seus militantes é trabalhar pela reeleição do responsável por tal política.
A ‘lógica’ é simples: Lula aplica uma política favorável ao grande capital; essa política fortalece Bolsonaro; para combater Bolsonaro, é necessário votar em Lula. Mas como organizar os trabalhadores contra a política que produziu o problema se a UP apenas pede que a militância dê outra volta nele?
A justificativa é a surrada teoria do “mal menor”. Flávio Bolsonaro, diz a resolução, representaria “um governo pior, mais reacionário e mais submisso ao imperialismo”. Porém, desde quando o fato de um deles ser pior obriga um partido que se diz revolucionário a defender o outro? Entre dois representantes de interesses burgueses quase sempre haverá alguém mais reacionário, mais autoritário ou mais comprometido com determinado setor do capital. Transformar essa comparação em regra significa condenar a esquerda a escolher, eleição após eleição, qual fração da burguesia deverá governar.
A direção da UP ainda declara que se abster é um erro e que seus militantes precisam mobilizar todos os movimentos populares sob a palavra de ordem “Bolsonaro nunca mais!”. O apelo à luta contra o fascismo funciona, nesse caso, como instrumento de disciplina interna. Quem questionar o voto útil ficará na posição de alguém que facilitaria a vitória da direita. A discussão sobre o governo Lula é interrompida justamente quando se deveria extrair suas consequências políticas.
O mal menor
Em 2020, setores da esquerda norte-americana apoiaram Joe Biden contra Donald Trump. Em 2024, depois da desistência de Biden, figuras como Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez empenharam-se na eleição de Kamala Harris, uma encarceradora, apresentada como barreira indispensável contra a extrema direita. O resultado foi a integração de importantes dirigentes da esquerda à campanha do Partido Democrata, enquanto a política imperialista de Washington prosseguia.
Joe Biden, em outubro de 2002, quando era senador, votou a favor da autorização para o uso da força militar contra o Iraque, aprovada por 77 votos a 23. Como presidente, manteve e ampliou alianças militares dirigidas contra a China, entre elas o AUKUS, com Estados Unidos, Reino Unido e Austrália. Durante a ofensiva de “Israel” contra Gaza, seu governo continuou a fornecer armamentos aos sionistas. Em agosto de 2024, Washington comunicou ao Congresso a possibilidade de novas vendas de armas a “Israel”, avaliadas em cerca de US$ 20 bilhões. Manifestantes pró-Palestina passaram a chamá-lo de “Genocide Joe”.
No Brasil, o Partido da Causa Operária – PCO, que denunciou essa política de mal menor, foi acusado de ser “trumpista”, pois se negava a apoiar um promotor de guerras para supostamente impedir o fascismo, e com isso comprometer a independência da classe trabalhadora.
A UP se apresenta como partido da revolução socialista, informa ter distribuído cerca de 20 milhões de panfletos e comemora o crescimento de sua votação presidencial. Afirma ter levado às ruas a defesa de um aumento de 100% do salário mínimo (o que é insuficiente), a redução da jornada e a reestatização das empresas privatizadas. Agora, por meio de sua direção coloca a militância a serviço de um governo que ela própria acusa de subordinação aos banqueiros.
Apoiar um outro partido precisa ser uma decisão política. Não basta acrescentar que a luta pelo socialismo continuará depois. É necessário demonstrar como a orientação eleitoral fortalece essa luta em vez de subordinar os militantes aos interesses do PT.
O contraste com o (PCO é completo. Após o primeiro turno, o partido não anunciou imediatamente o voto de sua direção. Convocou sua 39ª Conferência Nacional, realizada em 11 de outubro, em São Paulo. Delegados escolhidos nas organizações partidárias discutiram o balanço eleitoral e votaram a posição do Partido. A resolução pelo voto nulo, tanto na disputa presidencial como nos segundos turnos estaduais, foi aprovada por unanimidade.
O próprio PCO apoiou Lula em 2022, mas depois de uma deliberação partidária que levou em conta a luta contra o golpe de 2016 e a perseguição política ao candidato petista. Em 2026, avaliou que o governo de frente ampla e sua aliança com setores da burguesia haviam modificado a situação. A discussão política precedeu a decisão, em vez de servir apenas para justificar uma ordem vinda de cima.
A UP poderia defender uma posição, mas deveria submetê-la ao debate de sua militância. A resolução é aquilo que aprovou a Executiva. A ausência de qualquer relato de consulta aos filiados denuncia aqueles que proclamam lutar pela participação popular. Se as massas devem controlar suas organizações, por que os militantes não deliberam a escolha eleitoral anunciada em nome deles?
O combate ao fascismo não pode ser reduzido à escolha entre dois nomes numa urna. A direita não será derrotada por uma sucessão infinita de votos no “menos pior”, enquanto prossegue a política econômica que alimenta a insatisfação popular. Uma organização revolucionária precisa preservar sua capacidade de enfrentar qualquer governo que ataque os trabalhadores, inclusive quando esse governo é eleito com a ajuda de sua própria militância. O oportunismo começa quando essa independência é sacrificada toda vez que se aproxima o segundo turno.




