O professor João dos Reis Silva Júnior publicou, no portal A Terra é Redonda, em 11 de outubro, o artigo A pedagogia da servidão, no qual procura explicar a votação de Flávio Bolsonaro por uma longa tradição brasileira de obediência, submissão e dependência dos poderosos. A direita colheria os frutos de séculos em que direitos foram tratados como favores e a população aprendeu a agradecer em vez de reivindicar.
A explicação tem um problema elementar: o mesmo povo submetido a essa suposta educação secular elegeu Lula em 2002, 2006 e 2022, e Dilma Rousseff em 2010 e 2014. Será que teria deixado de ser servil quando votou no PT e retornado à servidão ao votar num Bolsonaro? A tal pedagogia é conveniente, pois apaga a responsabilidade dos próprios dirigentes petistas.
Silva Júnior critica, com razão, os que atribuem a votação bolsonarista à “burrice” ou à “perversidade” de milhões de brasileiros. Mas trocar esses insultos por uma “pedagogia da servidão” tampouco resolve o problema. O eleitor deixa de ser chamado de ignorante para ser apresentado como alguém teleguiado para a submissão.
O autor sabe que a sociedade brasileira é dividida em classes. Menciona o capital financeiro, o endividamento das famílias e a deterioração das condições de vida da classe média. Mas o que fizeram os governos petistas diante dessas condições? E por que milhões de trabalhadores deixaram de enxergar no PT uma saída?
Lula recebeu cerca de 3,4 milhões de votos a menos no primeiro turno de 2026 do que havia obtido quatro anos antes. Flávio Bolsonaro terminou à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente. Qual é o balanço dessa derrota após os quatro anos do governo de frente ampla com a direita tradicional?
O governo conservou Geraldo Alckmin na Vice-Presidência, manteve o Banco Central ‘independente’, aplicou o arcabouço fiscal e procurou permanentemente tranquilizar o sistema financeiro. Não rompeu com os bancos nem mobilizou os trabalhadores para impor suas reivindicações. Administrou o Estado procurando manter o status quo.
Os trabalhadores, entretanto, continuaram enfrentando juros elevados, endividamento, salários insuficientes e condições de trabalho cada vez piores. As causas do desgaste são diversas, mas as alianças e concessões do governo são parte indispensável da explicação. Sem isso, o descontentamento popular vira um defeito da sociedade brasileira.
A extrema direita explorou a crise econômica e a hostilidade às instituições apresentando-se como adversária do regime, embora também defenda os capitalistas. O PT deixou esse terreno livre, além de auxiliar o desgaste se unindo ao Supremo Tribunal Federal, com ministros envolvidos em um gigantesco escândalo financeiro.
Silva Júnior chega a afirmar que a esquerda precisa examinar seus erros. Mas quais? O texto praticamente não discute a associação com Alckmin, a política econômica, as concessões ao capital financeiro ou o abandono das mobilizações por reivindicações concretas. Pede presença em bairros, sindicatos e igrejas. Mas a questão não é apenas onde o militante fala, mas que política ele defende.
Há outra limitação ainda mais profunda no artigo. Toda a análise caminha para uma tarefa que o autor apresenta como urgente, a de virar a eleição. A vitória de Flávio aparece como a ameaça central à universidade, à ciência e às liberdades. A luta política fica reduzida à escolha entre dois candidatos.
2014 demonstra a fragilidade desse raciocínio. Dilma Rousseff venceu Aécio Neves e conquistou um segundo mandato. Dois anos depois, foi derrubada por um golpe apoiado pelo imperialismo, por setores da burguesia e das instituições do Estado. Sua vitória nas urnas não impediu nada.
O mesmo vale para 2022. Lula derrotou Jair Bolsonaro, mas sua eleição não acabou com a direita nem desmontou o regime político estabelecido após o golpe. O governo ampliou sua aliança com a direita tradicional. Quatro anos depois, Flávio supera Lula no primeiro turno.
As eleições expressam uma determinada relação de forças, mas não são a origem nem o desfecho da luta de classes. A burguesia é a dona dos bancos, empresas, jornais, tribunais, parlamentos e forças repressivas. Pode perder uma eleição e ainda assim governar o Estado; e pode até derrubá-lo, como fez em 2016.
Transformar cada eleição na batalha definitiva significa ensinar os trabalhadores a confiar nas instituições do Estado burguês. O que faltou ao PT em 2016 não foi uma votação maior em 2014. Faltou uma política independente capaz de mobilizar a classe trabalhadora para enfrentar a ofensiva golpista.
Silva Júnior dedica grande parte do artigo à universidade e à necessidade de ensinar a população a relacionar o voto ao financiamento do SUS, da educação, da pesquisa científica e dos serviços públicos. Propõe uma “intervenção pedagógica” para mostrar que os direitos dependem de decisões políticas.
Mas quem precisa aprender a relacionar decisões políticas e condições de vida? O trabalhador que sente o peso dos juros e dos preços, ou os dirigentes que mantêm a política favorável aos bancos e aceitam restrições aos investimentos públicos?
O problema nunca se resolverá com uma aula sobre a importância do SUS. Os trabalhadores conhecem a importância de hospitais, escolas e salários, pois tudo isso é muito escasso. Por que governos que dizem defendê-los não enfrentam os capitalistas que os atacam? É mais fácil culpar a compreensão dos eleitores.
Apesar de o autor reconhece que não seria correto tratar milhões de eleitores como pessoas irrecuperáveis, sua saída continua limitada à tentativa de convencer os trabalhadores a apoiar eleitoralmente o governo existente. Não propõe que se organizem independentemente da burguesia.
Não há uma classe trabalhadora esclarecida, que vota no PT, e outra servil, que vota na direita. Ambas sofrem a exploração. É preciso disputar politicamente os trabalhadores influenciados pelo bolsonarismo, não para submetê-los à frente ampla, mas para organizá-los contra os patrões e seu Estado.
Enquanto a esquerda continuar procurando nos defeitos do povo a explicação para suas derrotas, deixará de enfrentar os responsáveis pela sua própria política. O trabalhador não precisa ser reeducado para salvar a frente ampla. Precisa organizar sua força para enfrentar a burguesia, qualquer que seja o resultado das urnas.




