Para Marco Damiani, do Brasil 247, a saída para Lula derrotar Flávio Bolsonaro no segundo turno é uma mudança de roupa. Em artigo publicado nesta segunda-feira (12), intitulado Com militância 100% mobilizada, PT tem chance de gesto histórico para virar eleição na hora final: vista-se branco, o jornalista propõe que os petistas abandonem o vermelho e compareçam vestidos de branco às manifestações.
O PT chega ao segundo turno atrás do bolsonarismo depois de quatro anos no governo, e seus defensores apresentam como grande novidade a cor da camisa. Não propõem mudar a política econômica, romper com os aliados de direita ou apresentar reivindicações capazes de mobilizar os trabalhadores.
No primeiro turno, Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Cerca de 33,4 milhões de eleitores não compareceram às urnas. Damiani menciona as abstenções, mas não explica por que o PT terminou atrás do filho do presidente que derrotou em 2022.
Sua explicação começa pelo antipetismo. Segundo o jornalista, convencer os eleitores que rejeitam Lula é praticamente uma “missão impossível”. O problema aparece como uma espécie de defeito de comportamento de milhões de pessoas, e não como resultado de uma história política.
O PT venceu cinco eleições presidenciais: três com Lula e duas com Dilma Rousseff. Se hoje enfrenta rejeição, é preciso explicar as razões. O partido governou aliado a banqueiros, empresários e políticos que atacaram os trabalhadores. Em 2022, colocou Geraldo Alckmin, antigo governador tucano de São Paulo, na Vice-Presidência. Por que essa política não teria consequências eleitorais?
Damiani considera parte do eleitorado irrecuperável, como os setores da esquerda que chamam os bolsonaristas de “gado”, desprezando os problemas e interesses dos trabalhadores que votam na direita. Uma política operária deve disputar esses trabalhadores, demonstrar como a direita serve aos capitalistas e apresentar soluções para seus problemas em vem de simplesmente os hostilizar.
Além da proposta da camisa branca, no dia 9, três dias antes, Damiani havia defendido que a campanha de Lula procurasse Renan Santos, fundador do Movimento Brasil Livre (MBL), para negociar seu apoio. O argumento era a votação de Renan no primeiro turno: mais de 2,6 milhões de votos.
Renan Santos construiu sua carreira atacando o PT e participou da mobilização da direita pelo golpe contra Dilma Rousseff. Damiani quer aproximar Lula justamente de um dos representantes dessa ofensiva. É inacreditável.
Os filiados do PT seriam consultados sobre essa aliança? Os sindicalistas que enfrentaram as mobilizações golpistas do MBL e os trabalhadores que pagaram pelas consequências da derrubada de Dilma? O acordo seria negociado por cima, entre dirigentes e candidatos, e caberia à militância apenas dizer sim.
A lógica transforma os eleitores de Renan num lote de votos à disposição de seu chefe. Bastaria negociar com ele para transferir milhões de pessoas. Curiosa concepção para uma esquerda que chama eleitores da direita de “gado” e trata o eleitorado como propriedade de lideranças partidárias.
A nova sugestão completa a anterior. Primeiro, negociar com Renan Santos; depois, retirar o vermelho das manifestações. A finalidade é apagar as marcas operárias do PT para facilitar uma frente cada vez mais ampla com a direita. Frente ampla que é a responsável pela rejeição dos trabalhadores ao governo.
Damiani escancara quando descreve a militância petista. Escreve que “o que lhe for pedido pelos chefes partidários, em termos de tática eleitoral, será feito pelas bases”. Afirma também que a direção pode “estalar os dedos” e colocar seus militantes nas ruas. E arremata: “o controle é absoluto”.
É uma descrição de curral eleitoral, mas gado são os outros. Não se espera que os militantes discutam a política ou decidam sobre alianças. Devem obedecer aos chefes, vestir a roupa escolhida e produzir uma fotografia impressionante. A esquerda que acusa os bolsonaristas de seguirem cegamente seus dirigentes despreza a própria base.
O PT surgiu das greves do ABC e do enfrentamento dos trabalhadores com os patrões e a ditadura. Agora, a participação política aparece reduzida ao cumprimento de uma instrução publicitária da cúpula.
Damiani elogia as manifestações na avenida Paulista, em Natal e em outras capitais. Mas por que o PT não colocou essa força nas ruas durante os quatro anos de governo para conquistar medidas em favor dos trabalhadores?
Por que não encher a Paulista para exigir o rompimento das relações com “Israel”, responsável pelo massacre dos palestinos? Por que não mobilizar a população pela revogação da independência do Banco Central, pela auditoria e pelo não pagamento da dívida pública aos grandes bancos? Por que não exigir a reestatização da Vale, da Eletrobrás e dos setores privatizados da Petrobrás, ou aumentos salariais e a revogação das reformas contra os trabalhadores?
Essas campanhas entrariam em choque com os banqueiros e empresários aos quais o PT se associou, esse é o problema. É mais conveniente fazer acordos nas cúpulas e convocar a militância apenas na hora de pedir votos. Os trabalhadores não participam das decisões, mas são chamados a salvar o governo.
Damiani apresenta a expressão “vencer em nome do Brasil” como uma alternativa ao discurso partidário. Mas de qual Brasil está falando? O Brasil dos bancos que recebem os juros da dívida ou o dos trabalhadores endividados? O dos latifundiários ou o dos camponeses sem terra? O nacionalismo abstrato serve para ocultar interesses antagônicos entre as classes e apresentar a aliança com a burguesia como se fosse uma causa comum de todos os brasileiros.
Depois de propor um entendimento com Renan Santos, Damiani quer uma militância vestida de branco e obedecendo ao estalar dos dedos dos chefes. Para essa esquerda, a base não decide nada e só aparece quando é convocada para votar. A roupa pode mudar, mas o curral eleitoral continua o mesmo.





